por Milly Lacombe

De maneira natural tal qual a sua própria beleza, Bruna Linzmeyer vive e inspira a mudança de paradigmas da sociedade e, com a sua liberdade, dá voz a quem não tem

Bruna Linzmeyer tem apenas 24 anos, mas já contém multidões. Agora ela está no centro desse teatro do cotidiano não apenas por causa da arrebatadora beleza, mas por ter assumido a bissexualidade. “Eu me apaixono por pessoas”, disse recentemente durante evento na Casa Tpm, jogando à mesa quem é. “Agora sou a bissexual, a lésbica… bom, é o que eu sou e é estranho que o mundo se assuste com verdades.”

O rosto de uma perfeição escandalosa não esconde a idade, mas a sabedoria com que se expressa faz parecer que Bruna é uma alma antiga. “Fico muito feliz quando encontro pessoas que me dizem que quem eu sou afeta a vida delas; mas eu só estou vivendo com o coração.”

É, aliás, o que distingue celebridade e herói: um vive para si, o outro, para resgatar a sociedade. Essa enorme simplicidade com que leva a vida transborda para o jeito com que Bruna topa se mostrar, por exemplo, nas imagens que ilustram este texto, feitas por Jorge Bispo. “Ela veio com a roupa do corpo, subiu, fez a foto e foi embora. Foi uma coisa bem instantânea, que é o que ela é”, disse Bispo. “Talvez essa seja uma imagem mais crua dela, que está sempre com o bocão, essa coisa mais sensual, mas ninguém é uma coisa só, né?”, completa o fotógrafo.

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“Eu me lembro de falar: ‘Bispo, vou de jeans e camiseta, não vou fazer maquiagem, não vou fazer nada no cabelo, tá?’. É quem eu sou. Faz parte da construção do que é ser mulher, a maquiagem, o salto, a roupa bonita e tudo isso é muito legal, mas desde que seja a possibilidade de uma brincadeira, não uma obrigação.”

Assustada com o tsunami moralista que nos sufoca, Bruna diz que essa direita fantasiada de liberal a preocupa. “Quem tem problema com uma pessoa nua em uma performance de museu não leva o filho lá”, diz referindo-se à recente polêmica envolvendo uma exibição no Museu de Arte Moderna de São Paulo, na qual um homem nu que interagia com os presentes foi tocado em um dos pés por uma criança, causando gritaria e revolta na parcela conservadora da população, que, sufocada pelo desejo de moldar o mundo pela argila de seu dogma moral, enxergou no episódio uma sugestão à pedofilia.

“A gente está falando de liberdade de expressão, de educação, de conscientização. Um homem nu com o pau mole em uma performance artística… esse cara não tá de pau duro na sacristia esperando a criancinha. É muito importante a gente entender do que a gente tá falando, e entender que a gente pode ter uma opinião diferente, mas que ainda vivemos em uma democracia.”

Bruna não consegue calar diante de injustiças e explica o que sente. “O machismo me atazana, me atravessa, faz meu estômago revirar e me impulsiona nessa caminhada porque me faz não ficar parada. É difícil esse lugar de ser uma pessoa pública? Fico pensando o que significa ser uma pessoa pública. Todos parecem interessados no que eu tenho a dizer e eu fico pensando: ‘Caceta, mas o que eu tenho a dizer?’. Nunca escolhi falar nem não falar [sobre a bissexualidade], eu só fui vivendo e nunca escondi. Nunca deixei de beijar uma mulher em um restaurante ou na praia porque alguém poderia bater uma foto e isso virar notícia. É tão louco que a gente tenha que falar sobre isso… A gente, como sociedade, é muito oprimido sobre o prazer, sobre desejo, sobre descoberta do erótico, sobre o que te dá prazer.”

Ela fez uma escolha por não calar e, assim, dar voz a quem não tem. É uma escolha nobre porque o silêncio é a ausência de voz e a ausência de voz é a ausência de vida. “O silêncio é o que permite que as pessoas sofram sem remédio, o que permite que mentiras e hipocrisias cresçam e floresçam, e que os crimes passem impunes”, escreveu Rebecca Solnit em A mãe de todas as perguntas.

Ao compartilhar sua história de forma natural e verdadeira, Bruna empresta dignidade a quem ainda existe na escuridão que o preconceito impõe; histórias, afinal, salvam vidas. “Histórias são a sua vida. Nós somos as nossas histórias”, segue Solnit.

Sobre as multidões que a habitam, Bruna diz, quase em desabafo: “Ser bi, ser lésbica, é uma parte do que eu sou. Eu tenho um trabalho e isso é também o que sou, aquilo em que eu acredito. Eu, uma menina-mulher de 24 anos tendo que lidar com coisas que estão no jornal, meu rosto numa revista. Isso parece normal às vezes, mas daqui de dentro desse corpinho é só assustador”.

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LIBERDADE, LIBERDADE

Trip. Qual a importância de artistas se posicionarem sobre assuntos polêmicos?

Bruna Linzmeyer. Eu fico assustada, um pouco encantada, de como o artista tem voz. As pessoas escutam o que a gente diz e, de algum jeito, têm algum carinho. Existe um canal aberto que é um fluxo de afeto, de identificação, a gente tem que usar isso. Estamos querendo uma coisa um pouco melhor, algo mais democrático, mais igual.

Alguém falou para você não falar que era bi? Muitas vezes. Fiquei assustada porque tinha um apartamento para pagar e meus pais não são ricos. Fiquei com medo de não ter dinheiro para os compromissos que tinha assumido. Morri de medo, mas ou pagava minhas contas ou tinha um câncer, tinha depressão. Não foi possível.

O que você pensa desse tsunami moralista em que estamos? É um momento muito delicado, um estado de alerta diante de tudo que está acontecendo. Parece que a gente vem com um poder de liberdade, da Pablo Vittar ser ídola do país – acho isso foda e falo “ai, que bom, olha pra onde a gente tá caminhando”. Só que não! Tem uma onda contrária ocorrendo. “É preciso estar atento e forte, não temos medo de temer a morte” [cantando].

Créditos

Imagem principal: Jorge Bispo

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