Bateu
Entre masturbações com a mente vazia, colunista tem uma idéia ? ao aceitar que não tinha nenhuma. Hã?
Na semana passada recebi um e-mail de Cesar di Paola, colunista da Gazeta da Pompéia, em São Paulo. Era uma espécie de confissão. Cesar me contou que um dia chegou à redação atrasado e de péssimo humor. Sentou-se à frente do computador sem a menor inspiração e passou a manhã vagando pela Internet à procura de um tema qualquer para a coluna do dia. Mas sua cabeça se perdia como um barco à deriva em meio a uma tempestade. A troco de nada, checou a cotação do guarany paraguaio e comparou-a com o tenge do Cazaquistão. Quando teve sede, lembrou-se, assim ao acaso, da groselha vitaminada Milani que bebia na infância. Encontrou no site da Milani o velho jingle da bebida (www.groselha.com.br).
Achou engraçado e mandou uma mensagem com o endereço do site para todos os amigos. Sem saber o que fazer da vida, Cesar abriu o Skype. Tentou ligar para o primo que mora em Rondônia, mas ele estava fora do ar. Entrou no Limewire, viu dois filminhos pornográficos japoneses e foi ao banheiro afogar o ganso.
Só depois do almoço, voltando do restaurante, lembrou-se de que na noite anterior tivera um horrível pesadelo: sua esposa tinha orgasmos múltiplos ao ser enrabada pelo seu melhor amigo. No pesadelo, quando ele os flagrou, a mulher se limitou a dizer com enorme frieza: “Isso é a coisa mais normal do mundo”. Cesar entendeu então por que tinha tratado a mulher com irritação quando ela, meiga, o acordou com café e jornal na cama. Cesar havia esquecido do pesadelo, porém o rancor se extravasou para a vida. E a coluna? A edição fechava às cinco. Às duas e meia, Cesar conseguiu escrever um parágrafo inconclusivo sobre a expansão da Concessionária Autorizada Chevrolet Pompéia Veículos – mas deu logo um delete. Esboçou também – sem a menor vontade – duas frases criticando certas tomadas de posição do vice-presidente da Associação de Moradores do bairro Pompéia, só que desistiu, confuso como um frango recém-degolado.
Isso nunca me aconteceu antes
Global warming, eleições presidenciais, críticas ao prefeito Kassab, o novo iPod… Já haviam escrito sobre tudo nesta merda de mundo. Cesar pensou que talvez estivesse mesmo vivendo uma crise, e, às três da tarde, considerou aceitar o conselho do cunhado e tomar antidepressivos.
Cogitou uma nova punheta. Chegou a ir ao banheiro. Ficou até de pau duro mas desistiu no meio. Nada lhe vinha à cabeça. Faltavam 15 minutos para o fechamento da edição quando, ao longe, nas trevas de sua mente desesperada, surgiu a figura de um rapaz. Apesar da escuridão, Cesar conseguiu ver o rosto da criatura. Achou que o rapaz tinha a maior pinta de Ricardo Cruz e assim o batizou. Arbitrariamente, como num ato de fé, Cesar decidiu que o Ricardo Cruz também seria colunista, digamos, de uma tal de Folha de Uberlândia. Com a vista um pouco mais acostumada ao escuro, Cesar pôde afinal olhar fundo nos olhos do Ricardo. Aquelas olheiras enfadonhas, os ombros derrotados, a ofegância típica dos humilhados – claros sinais de que se tratava de um homem perdido em plena crise criativa.
E Cesar entendeu que, para o escritor, as palavras são ao mesmo tempo meio de expressão e seu próprio contrário: um disfarce, uma máscara atrás da qual ele poderia se esconder. Percebeu que músicos, pintores e cineastas também se camuflam sob as mesmas formas que os revelam – e que o dentista faz o mesmo com nossas cáries. Cesar sentou-se novamente à frente do computador e começou a datilografar, confundindo o seu sonho, o tesão das punhetas e toda a aflição com os sonhos, punhetas e agonias do Ricardo. Não mais se sentindo tão só, encontrou coragem e deu um bungee jump no abismo infinito da página em branco.
*Henrique Goldman, 44, cineasta, sempre tem o que dizer, mesmo quando não tem nada a ver. Seu e-mail é: hgoldman@trip.com.br
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