por Autumn Sonnichsen
Trip #274

Eu estava no mesmo café, muito menos arrumada e de chinelo, quando ela apareceu querendo a cadeira da minha mesa

Eu vim morar em Paris quando era muito nova, não tinha nem 18 anos. Agora estou aqui novamente, desta vez de passagem, trabalhando. Tenho reuniões para fazer, estou um pouco (mas não muito) mais bem-vestida que antes, meu francês melhorou. Agora estou melhor. Não sinto falta da minha mocidade. Em Paris, me sinto mais velha, pois cada esquina aqui me lembra de uma juventude passada, de um tempo que não existe mais. O tempo me pesa de uma forma gostosa, como o peso silencioso do amante que dormiu no seu colo.

Encontrei Blaire, essa loira americana que tem um sorriso que parece uma caixa de bombons, num café pequeno no sul da França. Eu estava no mesmo café, muito menos arrumada e de chinelo, quando ela apareceu querendo a cadeira da minha mesa. Ela é o tipo de mulher que escolhe um restaurante, se arruma, bota um salto e um lenço na cabeça e sai para almoçar sozinha.

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A conversa que tivemos não era nada de mais, mas ela me mandou uma mensagem depois, dizendo: “Autumn, vou voltar para os Estados Unidos amanhã, mas se você quiser me convencer a tirar a roupa no meio da rua antes de eu ir para o aeroporto, acho que você consegue”. 

Quer dizer, não precisava ser convencida de nada. 

Às vezes, cabe a você fazer o convite certo. 

Tem mulheres que quero guardar para mim, como segredos. Como se um ser humano, um corpo e um ser todo pudessem ser guardados dentro de um espaço na minha mão, no fundo do meu bolso, num cantinho que é só meu. É um certo egoísmo da minha parte, admito, mas todo mundo tem suas fraquezas. 

Tem outras mulheres que não sei o que fazer, a não ser compartilhar. Que me fazem querer gritar no meio da rua: “OLHAAAA ELAAAA, GENTEEEE, QUE MARAVILHOSAAAA”.

A Blaire é dessas. 

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