por Leandra Leal

A atriz escreve sobre seu primeiro filme como diretora, um resgate de artistas travestis que, no auge da ditadura militar, desafiaram os costumes

Já participei de 25 longas-metragens como atriz, produzi três e guardei ao longo desse tempo o desejo de dirigir um filme. Mas buscava um tema que me motivasse como artista, cidadã e criadora, que fosse coerente com a minha história. Quando vi pela primeira vez as Divinas Divas em cena, entendi que elas falavam muito sobre mim e sobre o lugar de onde eu vim.

Meu avô, Américo, era produtor teatral e minha mãe, Ângela, é atriz como eu. Cresci num ambiente artístico, politizado e libertário. A "casa da minha infância, de que eu tenho as melhores lembranças, é o Teatro Rival, que pertence à minha família, no centro do Rio de Janeiro. Fui criada no clima mágico e misterioso dos bastidores do local, rodeada por adultos loucos, engraçados e talentosos. O Rival foi um dos primeiros palcos a abrigar homens vestidos de mulher ainda na ditadura, em 1966, por iniciativa do meu avô Américo. Foram tempos áureos para os artistas do transformismo: no palco, eles podiam ser do jeito que sonhavam.

Em 2004, no aniversário de 70 anos do Rival, minha mãe decidiu realizar um espetáculo para reunir as artistas transformistas que fizeram carreira na casa. Muitas delas retornavam aos palcos depois de um longo período de dedicação a outras profissões. O espetáculo Divinas Divas estreou causando grande comoção na cidade. Ver essas artistas em cena ainda com tanta força, resistindo à idade e ao preconceito, me deu a certeza de que eu deveria fazer um filme sobre elas.

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Por trás das cortinas

Dez anos depois, as divas comemoravam 50 anos de carreira. Resolvi produzir um espetáculo comemorativo à altura do talento dessas artistas, e reuni uma equipe de amigos para registrar todo o processo de ensaios e a estreia. Na ilha de edição, os bastidores roubaram a cena. Fui percebendo que, intuitivamente, registrei as divas pelo mesmo ponto de vista que costumava vê-las quando criança: por detrás das cortinas, com um olhar de curiosidade e encantamento. Assim nós espiamos a movimentação delas, as conversas no camarim, a construção da maquiagem, as pequenas disputas. Também busquei compreender a grande devoção delas por suas musas, suas referências femininas: suas mães e as grandes artistas que as inspiram. Para as Divinas Divas, ser travesti é uma declaração de amor a essas mulheres.

Na busca por humanizar as personagens, o filme acaba se tornando uma reflexão coletiva sobre o envelhecimento. E permite que o espectador observe as máscaras que cada uma das divas esculpiu, mas sem a intenção de revelá-las para além do que elas escolhem expor. Numa época de polarização ideológica como os anos 1960, mesmo sem um discurso politizado, as Divinas Divas acabaram por fazer do desejo de liberdade um dos maiores atos políticos que eu já conheci. Curiosamente, o filme chega às telas neste novo momento de instabilidade política no país, em que vivenciamos retrocessos em relação às liberdades individuais e um novo avanço de forças ultraconservadoras.

Vai lá: Divinas Divas, de Leandra Leal, na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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