No mundo contemporâneo cada um de nós, o tempo todo, se comporta como se fosse o umbigo do mundo, individualmente e enquanto espécie. E isso sim é um problema

Por mais inútil que seja aquele buraco no meio da nossa barriga, é inevitável que tenhamos uma relação, por assim dizer, umbilical com nosso umbigo, uma vez que, durante nove meses (e que meses!), ele foi a nossa única fonte de sustento e a mais importante conexão com o mundo externo. Do décimo mês em diante, porém, desde que nascemos até o fim de nossa vida, o umbigo será, como me disse meu filho, estudante de medicina, apenas uma cicatriz a nos lembrar de onde viemos. Mas, caramba, que cicatriz poderosa!

Nossa relação especial com o umbigo é tão antiga quanto nossa espécie, estando presente em todas as culturas, ora de um jeito, ora de outro, da África ao Oriente, das Américas à Europa. Houve quem atribuísse aos umbigos um sentido mais espiritualizado, quem visse nele um signo de erotismo, quem o tratasse como tabu e tudo isso e mais um pouco ao mesmo tempo. Na Índia antiga, o umbigo da deusa Vishnu era (e para muita gente ainda é) considerado o centro do Universo e a origem de toda a vida. No Japão arcaico, o formato do umbigo de um recém-nascido era repleto de significados e alvo de intermináveis debates a respeito do futuro e das características da criança. Ao longo da história, não poucos povos deram às suas capitais o título de “umbigo do mundo”, querendo dizer que ali estava o centro de tudo o que importava no universo.

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Estaria tudo bem se umbigos fossem apenas uma coisa vagamente erótica que balança nas barrigas das dançarinas do ventre ou uma outra irrelevância qualquer. O problema é que, no mundo contemporâneo, nessa época de egos hipertrofiados em que vivemos, cada um de nós, o tempo todo, se comporta como se fosse o umbigo do mundo, individualmente e enquanto espécie. E isso sim é um problema. Consumimos, poluímos, desmatamos, pescamos além da conta, exterminamos inúmeras formas de vida, enchemos de lixo terra, ar, rios e mares. Enquanto isso, vamos alegremente tirando selfies e entupindo a internet com as fotos, certos de que todos querem nos ver fazendo pose. Sim, nos sentimos, cada um de nós, o umbigo do mundo. E 7,6 bilhões de umbigos no mundo, francamente, é algo complicado de administrar.

A melhor lição do quanto pode ser trágico esse nosso comportamento “umbilical” é a da antiga Ilha de Páscoa (cujo nome original, ora, que coincidência, significava “umbigo do mundo”). A população da ilha, diante de incontida explosão populacional, reagiu desmatando até a última árvore (o que tornou impossível a construção de canoas, tanto para pescar quanto para ir embora), enfrentando fome generalizada e passando por terríveis guerras internas, nas quais as tribos da ilha aniquilaram-se umas às outras, recorrendo até mesmo ao canibalismo, até chegar ao ponto em que toda a cultura local se desmantelou. Quando os primeiros ocidentais aportaram lá, em 1722, não compreenderam como aquelas magníficas esculturas de pedra puderam ser construídas pela gente paupérrima e primitiva que encontraram. E, sabemos hoje, não foram os “deuses astronautas” que as ergueram, mas um povo autoconfiante e arrogante, que se sentia o centro do universo e exauriu os recursos da ilha até o ponto em que não havia mais como voltar atrás.

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Exatamente como nós, hoje, numa escala muito maior, estamos fazendo com o planeta em que vivemos. Não é à toa que uma das pessoas mais inteligentes de nosso tempo, o físico Stephen Hawking, afirmou que não haverá futuro para a humanidade senão na colonização de outros planetas. É claro que Hawking estava sendo provocativo quando disse isso, mas os receios que o levaram a fazer essa afirmação são os mesmos que afligem qualquer pessoa com um mínimo de consciência. Seria melhor, sem dúvida, que os umbigos, de cada um de nós e do mundo, voltassem a ter a insignificância que merecem, cicatrizes de um tempo remoto, talvez feliz, mas do qual nem sequer nos lembramos. E passássemos a cuidar melhor do que está em volta deles.

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