por Amara Moira

Amara Moira reflete sobre nossos corpos e os padrões que são impostos à existência

Há pessoas que serão sempre lembradas dos corpos que têm. Pescoços que giram acompanhando seus movimentos pela rua, cotovelos chamando a atenção do vizinho. Xingamentos, provocações. Uma metralhadora de olhares. Nem sempre hostis, verdade, às vezes maliciosos ou curiosos apenas, quem sabe até casuais, mas invariavelmente estranhando aquele corpo, fazendo com que ele não só se sinta um elemento intruso, estranho, mas também se dê conta de que é visto exatamente dessa forma. E o pior: ainda vão lhe dizer que é coisa da sua cabeça – o famoso gaslighting, 
essa prática enlouquecedora.

Vão dizer para o menino que cresceu sendo a única criança negra na sala de aula, quiçá do colégio, com exceção do pessoal da limpeza e segurança. Para a mulher gorda existindo num mundo em que "você emagreceu" é um dos maiores elogios. Ainda hoje a palavra "gorda” é entendida como insulto, as pessoas preferem eufemismos como "gordinha", "fortinha", "cheinha", diminutivos tão a cara da nossa hipocrisia gordofóbica. Para a pessoa com deficiência encarada ora com pena, ora como se fosse um peso, um estorvo. Para a travesti tratada em público como corpo abjeto, mas em sigilo como objeto de desejo, reles coisa em ambos os casos...

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Não é simples cultivar o amor próprio quando internalizamos o olhar que a sociedade dirige para nós. Mas, ao mesmo tempo, como não internalizar esse olhar quando nos criamos nessa mesma sociedade? Perceba-se, com isso, que o desconforto que sentimos é fruto não do corpo que, de fato, temos, mas da forma como nos ensinam a vê-lo, a significá-lo. Corpo-problema. Corpo que carregamos como um fardo. Corpo que temos e que, na maioria das vezes, queremos acreditar que não somos, no máximo estamos. Forma de apaziguarmos a ideia de que, se ele for transformado, a verdade sobre nós virá à tona e seremos, enfim, vistos da forma como nos vemos.

Ninguém nasce querendo fazer cirurgia, mas quando se aprende, se internaliza desde muito cedo que o seu corpo é o problema, a operação acaba se impondo como solução, às vezes a única que se imagina possível. A criança de 5 anos que chega para os pais e diz "sou menina", escutando deles como resposta "filho, você é menino, você tem pipi", sai convencida de que é errada a forma como se entende? Não, mas, por essa resposta (e as tantas outras que recebe, mais sutis aqui, mais escancaradas ali), ela percebe que o genital com que nasceu é o que a impede de existir para o outro da forma como entende a si própria, momento em que começam a lhe ensinar a odiar seu corpo, a entendê-lo como errado.

Não é simples se livrar desse ensinamento, sobretudo quando não te deixam esquecer um só minuto do corpo que você tem. Daí o paradoxo em que vejo a luta das pessoas trans (com paralelos possíveis para diversos outros grupos). De um lado, lutar para que tenhamos direito a fazer as intervenções corporais que julgarmos necessárias, que nos ensinaram que precisam ser feitas, pois historicamente o reconhecimento do nosso gênero, do nosso direito de existir, tem sido assegurado quase que só por meio desse expediente (pessoas trans existem desde sempre; a popularização desses procedimentos, no entanto, é em boa medida a responsável por essa visibilidade que temos conquistado nas últimas décadas).

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De outro, lutar para que as expressões "mulher de pênis" e "homem de vagina" ganhem cada vez mais sentido, assim como o que decorre delas, pois dessa maneira veríamos surgir uma compreensão de "masculino" e de "feminino" mais próxima do que é naturalmente possível para os nossos corpos. Um feminino trans, um masculino trans, sem que essas intervenções (junto com seus gastos e seus tantos riscos) sejam necessárias para nos sentirmos bem ou vermos reconhecido o nosso gênero.

O bonito é perceber que, à medida que vamos nos libertando desses padrões e conseguindo afirmar a beleza dos corpos que temos/somos, outras pessoas que também não se enquadram nesses moldes começam a se permitir repensar 
o próprio corpo – e, a partir daí, descobrem as réguas absurdas que lhes impuseram. Hora de 
nos livrarmos das réguas.

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