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Acossado

'Ao rir parece que a gente adultera os fatos para escapar à crueldade da realidade'

em 3 de julho de 2006

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A noite, como uma mancha escurecida, espraiava-se em sombras embebidas de sereno. Na boca, esse gosto de inacabado; a vida não cura as feridas, mas as feridas curam a vida. Impossibilitado de transpor alguns de meus infinitos limites, continuei andando, mudando fronteiras para acomodar a consciência. Na verdade, existir é longo demais. Eram dez horas da noite quando saí de casa. Às vezes afirmo que estou trabalhando sempre. Como tudo que acontece é o instante que se vive, penso idéias andando, no ônibus, na cama, lendo, ouvindo e, por incrível que pareça, até fazendo amor.

Outro dia, esparramado na cama, tentava, desesperadamente, recordar uma idéia genial que me atravessou a mente na hora mais incrível. Pior que não ter conseguido lembrar tão genial idéia foi ter deixado a minha parceira cheia de grilos. Aprendi a pensar andando e agora aprendo a andar pensando. É uma viagem chegar de onde moro a qualquer lugar. Ando acossado pelo trabalho. O mais gostoso é que isso é tudo o que mais desejo. Certa vez assisti a uma atriz famosa dizendo que adorava encenar, e que lhe parecia injusto cobrar para fazer algo que só lhe dava prazer. Não acho injusto receber. Estudei, li, sofri, quebrei minha cabeça para aprender sozinho umas poucas coisas, sem ninguém para me ensinar, por mais de 30 anos. Mas é absolutamente maravilhoso ganhar o sustento de meu povo fazendo o que mais gosto de fazer: escrever.

Foi incrível! Havia assistido a apenas dois espetáculos teatrais em toda a minha vida e já, instigado por um grande amigo, me atrevi a escrever minha própria peça. Comigo sempre foi assim: viver é apenas sobrevivência; eu quero é existir, protagonizar, influir e ter minha voz no ar. Quero, teimo e exijo ser ouvido. Às vezes, e não poucas, quebro a cara; mas não dá para ser diferente. É da natureza, nasci assim. Só que dessa vez, parece, deu certo. O ator João Signorelli gostou muito do texto e se predispôs, de pronto, a interpretá-lo. Convidou Mario Bortolotto para dirigi-lo em cena. Após ler o texto, este surpreendente diretor, ator, autor, poeta, escritor, iluminador, sei-lá-mais-o-que, aceitou dar voz a meu texto. Convidado pelo João, estava indo assistir a sua peça E Éramos Todos Thunderbirds e conhecê-lo pessoalmente. Gostei tanto de seu livro de poesias Para os Inocentes que Ficaram em Casa, que foi um dos únicos que trouxe da prisão para casa.

Cheguei à praça Roosevelt por volta das 23h30. João chegara antes. Havia festa. O proprietário dos teatros Sátyros I e II estava aniversariando. As calçadas estavam tomadas de pessoas. Muita gente bonita, bem vestida e parecia todos vinculados ao teatro.  Fui apresentado a muitos. O amigo ator é pessoa muito querida; não tem quem não goste dele. Às vezes fico angustiado em pensar que os outros podem estar vendo o que vejo de mim no espelho, quando sou apresentado. Artistas, eu os sinto como os primeiros raios de sol incendiando a manhã; frágeis, belos e cheios de calor. Conversei com várias pessoas ao mesmo tempo. Caímos para dentro do teatro Sátyros I como que expelidos da festa. Escolhemos o melhor lugar e, de repente, como por mágica, todos os espaços estavam cheios e as luzes se apagando. Uma televisão tomava a atenção de quatro personagens sentados em um sofá velho, em frente à platéia. Noutro sofá, uma sensualíssima mulher de olhos verdes e belas pernas brancas hipnotizava.

Súbito, as luzes se apagaram. Aparece a mulher num foco de luz, de quatro no sofá, traindo o marido. Noutro foco, ao fundo, um sujeito esfaqueando o outro. Puta transe. A conversa dos quatro no sofá é sobre aquela mulher, companheira de um deles, que o trai com todos os outros. Hilário é pouco. Ri até chorar com as cenas e diálogos debochados, diretos na pleura. Os atores pareciam os próprios personagens e brilham à semi-escuridão da arena. O texto parecia volúvel como a água, moldando-se em ilhas em torno dos personagens. O Mario brinca de louco e tudo fica real demais, parece vida latejando, pulsando. Toda inteligência me assombra. Todo talento me encanta. O diálogo pega a gente dentro de nosso abrigo escuro e invade, destemido. Até dá para fazer acreditar que é possível zombar de tudo, até de nós mesmos e, ainda assim, ser feliz.

Ao rir parece que a gente adultera os fatos para escapar à crueldade da realidade. Embora tudo ali fosse real demais, mesmo porque há muito as verdades deixaram de ser verdadeiras. Ao focar algo tão desimportante como a transformação na programação da MTV, de cultura musical internacional para estupidificantes programas de auditório, demonstra a absurdidade de tudo o que rola em torno de nós. Náufragos a fazer sinais para olhos ausentes. Nas falas parece que a vida se retorce em busca de nos desentender. Aqueles personagens procuravam-nos na platéia para se sentirem existentes.
Ao fim e ao cabo, tudo fica como começou: uma enormidade. É um recorte do cotidiano, as dúvidas diluem-se ao calor de um sol permanente. Fiquei impressionado como é possível, com tão pouco, impressionar tanto. As conversas, as anedotas, e todas as brincadeiras viraram um borrão colorido na memória. Um bom pensamento, uma enorme alegria vivida. Às vezes entendo o que penso observando as pessoas que parecem não pensar. O linear, a inconsciência da alienação nos personagens, ensinou simplicidade à minha babilônia interior. Teatro é maravilhoso e eu estou também nessa agora.

* Luiz Alberto Mendes, 53, cumpriu pena de 31 anos e dez meses por assalto e homicídio. Nessa época, ainda enclausurado, começou a escrever para a Trip depois de seu livro Memórias de um Sobrevivente cair na Redação e impressionar pela qualidade do texto e força de suas histórias. Há dois anos Mendes conquistou sua liberdade. Seu e-mail é: lmendes@trip.com.br

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