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A VERDADE TAMBÉM VAZA

A grande graça de estar vivo numa época em que a tecnologia nos leva a um nível de competição quase desumano, é ver que não existe mais a noção de tempo diferido

Por Redação

em 21 de setembro de 2005

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A grande graça de estar vivo numa época em que a tecnologia nos leva a um nível de competição quase desumano, é ver que não existe mais a noção de tempo diferido. A diferença de tempo entre um fato e a repercussão de seus efeitos praticamente deixou de existir graças à velocidade com que trafega hoje a informação.

O que esta competição absurda tem feito é ensinar, inclusive aos vilões, a arte de usar a tecnologia a serviço das próprias mazelas. Assim, vemos documentos secretos da indústria do tabaco revelados via Internet, mostrando as técnicas usadas para manipular políticas, viciar mulheres grávidas e manobrar órgãos de auto-regulamentação publicitária, ‘para que o povo fique com a sensação de que a situação está sendo cuidada’.

Na mesma velocidade com que empresas e organizações civis reagem com protestos, artigos, filmes e outros tipos de reação em cadeia, a própria indústria rebate soltando comunicados de que não é bem assim, ou mobilizando ‘autoridades’ para que gritem em nome da ‘liberdade de expressão e comércio’ e ‘contra a volta da censura’.

A espionagem e a contra-espionagem, a informação e a contra-informação, as técnicas mais avançadas do marketing moderno batendo de frente em movimentos violentos de medição de forças.

Corrida maluca

Uma demonstração de como não há mais o tempo com que podiam contar os infratores, seja das leis, do bom senso, ou das regras básicas de saúde pública e do convívio pessoal, quando faziam das suas, deu-se no mais recente vazamento de óleo protagonizado pela ‘nossa’ Petrobrás na refinaria Getúlio Vargas, no sul do País.

Em um passado não muito distante, levaríamos alguns dias para ter uma noção razoável dos estragos causados pelo derramamento de quase 4 milhões de litros de óleo nos rios da região.

No ano 2000, porém, apesar do fato gravíssimo de que a Petrobrás levou dez horas para pedir ajuda diante do acidente de conseqüências incalculáveis, duas forças contrárias competiam de forma alucinada contra o tempo: de um lado, ONG’s como o Greenpeace, a própria Defesa Civil do Paraná e os veículos de comunicação, utilizando-se de todas as formas modernas de tecnologia, buscando entender e equacionar o problema levando-o ao conhecimento da opinião pública. Do outro, a estrutura de comunicação e marketing da própria Petrobrás, com dois aliados quase imbatíveis: dinheiro e televisão, soltando uma série de comunicados pelas redes de maior audiência, dando a entender que todas as medidas cabíveis haviam sido tomadas e tentando aliviar a população, já que a situação teria sido controlada e que o pior já havia passado.

É difícil escolher que tipo de postura seria mais aceitável ou menos execrável. A do passado, quando as empresas que, voluntariamente ou não, agrediam a saúde, o meio ambiente ou os direitos da população, simplesmente guardavam silêncio e torciam para que pouca gente ficasse sabendo. Ou a de hoje, quando lançam mão de recursos ilimitados para veicular uma informação que, ao julgar pelos noticiários mais atuais e confiáveis, é no mínimo desconfiável.

PALAVRAS-CHAVE
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