por Julio Bernardo
Trip #241

Sakerinha de lichia, melancia grelhada, molho pardo sem sangue. Convidamos Julio Bernardo, o JB, crítico gastronômico mais mal-humorado do país, para analisar a avalanche de programas gastronômicos que tomou nossa TV

O mundo está repleto de programas de culinária. Minha tentativa, aqui, é de analisar alguns e deixar no ar a seguinte pergunta: que diabos é essa comida que estamos aprendendo a fazer em frente à TV hoje no Brasil?

De saída, um sitiozinho de cenário, uma câmera na mão e... bem- vindos ao Mundo Maravilhoso de Rodrigo Hilbert. Com o sol entrando pela janela, o ator fala da boa vida que as galinhas levam naquele pedaço. Saltitam lindas, leves, antes de ser abatidas pelo auxiliar de câmera. Interna na cozinha, atenção para o detalhe da gota de suor que escorre sensualmente de seu rosto. Mulherada em êxtase. Afinal, é para elas que o programa existe. 

Na sequência, Hilbert apresenta sua versão de galinha ao molho pardo. Substitui o sangue por uma mistura de (atenção) vinho, cebola frita e farinha. “Já provei com sangue e não gosto”, justifica. Não satisfeito, FRITA a ave, antes de levá-la à panela, junto com a gororoba parda. Sejamos justos: de que adianta a galinha viver toda felizona e morrer para isso? 

Não. Talvez o sítio de Hilbert não seja mesmo o melhor lugar para apreciadores de aves. Veja o pato, por exemplo. Porcamente cozido na panela de pressão (!!) para em seguida ser desfiado de qualquer maneira e se juntar a um arroz triste. Sobremesa? Que tal algo feito com MILHO ENLATADO? Ali, o que importa é que o cabelo do apresentador se manteve bonito, do começo ao fim. E o programa não tem tanto a ver com culinária. Talvez esteja mais para o soft porn. Foi-se o tempo da inocência da Cozinha maravilhosa de Ofélia, e a querida Palmirinha Onofre que se cuide.

Mas claro que gente bonita nem sempre é sinônimo de comida tosca. Afinal, a gastronomia também pode ser pornográfica, especialmente se considerarmos todas as proibições impostas pela indústria, que não deixa o ingrediente maldito da vez viver em paz. Um dia já foi o ovo, hoje é o glúten e amanhã será outra coisa. Toda tara tem sua vez. Pena que não existe a possiblidade de Nelson Rodrigues ressuscitar, para editar a parada direito.

 

Nossa Nigella

Na nova temporada de Cozinha prática, Rita Lobo destila conhecimento técnico de ingredientes básicos e versáteis, tais como arroz, feijão e ervas frescas. Com bom gosto e fluência, a moça certamente leva o espectador que gosta de cozinhar às vias de fato, com receitas rápidas e de fácil execução, até para os mais leigos. Embora eu não entenda qual é a necessidade de tirar foto de cada prato, esse inusitado hábito mostra quem é a estrela do show: a comida, não a modelo. Aliás, justiça seja escrita, ela está no ramo da culinária há muito mais tempo que nos desfiles. Trata-se de um programa de receitas possíveis. Seria a salvação do mundo gastronômico televisivo? Porque, se cada país tem a Nigella que merece, prefiro a nossa, que, além de ser mais sexy, come melhor.

Mas a coisa pode ficar ruim, e muito. Carolina Ferraz, atriz global e dublê de chef, avisa logo na apresentação de seu programa: busca dar um “toque gourmet” (perdão eterno pela expressão) às suas receitas. Ceviche? Segundo a saudosa Lucinha (personagem de Carolina em Pecado capital), primeiro corta-se o peixe. Depois o abandona tristemente na bancada, apodrecendo sem refrigeração, enquanto se prepara o restante dos ingredientes. Não é preciso ser um agente da Vigilância Sanitária para entender que a coisa vai mal. Mas quem liga pra isso, né? E para harmonizar com o prato? Um coquetel, talvez? Que tal uma inacreditável SAKERINHA DE LICHIA? Não, Carolina, obrigado. Preferiria passar o resto da minha vida num mosteiro à base de pão a seguir uma receita sua. 

Plastic people, diria Frank Zappa. Programas de plástico para pessoas de plástico – com suas respectivas plásticas. Esse é o panorama da maior parte dos programas brasileiros sobre culinária. Mas muita calma que sempre pode piorar. 

A informação na tela de que Bela Gil é chef e nutricionista formada numa universidade americana é um troço que me faz lembrar do personagem brilhantemente incorporado por Chico Anysio. Bozó adorava dar carteirada, dizendo que trabalhava na Globo. A diferença é que ele era engraçado. Mas isso está longe de ser o pior do programa, hit de memes na internet – incluindo o meu preferido, o preparo da famigerada melancia grelhada. 

Receitas? Pois é. Bela Gil apresenta coisas supostamente saudáveis de maneira capaz de fazer o apetite desenvolver velocidades negativas. Faz o simples parecer complicado, com descrições que são inevitavelmente esquecidas em menos de um minuto após serem ditas. Quer dizer, pelo menos para mim. Comida saudável tem que ser fácil e gostosa, não uma coisa distante e prolixa.

Goiaba e pipoca

A título de humor involuntário vale a pena ver a expressão de alguns convidados diante suas invencionices, como Ney Matogrosso e Carolina Dieckmann, que odeia goiaba, a fruta servida no dia. E Arlindo Cruz, a quem foi oferecido pipoca, que ele não come, por razões religiosas. Nunca é fácil. Xô, melancia grelhada! Sai desse corpo que não te pertence! 

Gourmet, esse termo tão famigerado, que Carolina Ferraz tanto adora. Que tal gourmet vezes quatro homens? Os seus pedidos foram atendidos. Eles são cozinheiros de fato e as receitas são um pouco melhores que as de Carolina, é verdade. Mas te dou uma sakerinha de lichia se você conseguir prestar atenção em alguma coisa que não sejam as malditas piadinhas deles, com direito a cantar Lula lá enquanto prepara o molusco, numa brincadeira que, embora divertida para eles, para o espectador não tem a menor graça. E ainda tem uma mesa de snooker laranja. Como desviar os olhos disso, Carolina?! Ah, quer saber? Sakerinha neles! 

Um dos integrantes do grupo saiu em carreira solo, em direção ao SBT, numa versão brasileira de Hell’s Kitchen. Acontece que, no original, o chef é bravo de verdade, não precisa muito para convencer. E Carlos Bertolazzi nunca será Gordon Ramsay. Perdemos. Pelo menos o vencedor da primeira temporada é bom cozinheiro.

O que não aconteceu com o MasterChef brasileiro, que deu o título para uma bonitinha que nunca tinha comido miúdos na vida. Aqui é necessário ressaltar que os concorrentes da gincana da Rede Bandeirantes são cozinheiros amadores, e que o programa foi caprichosamente bem produzido, proporcionando entretenimento de primeira e acertando a mão na escolha dos três jurados, que se apresentaram muito, mas muito bem na televisão. Com destaque para Erick Jacquin, que parece ter nascido para isso.

Ainda sobre a invasão francesa, não dá para falar sobre programa de “comida brasileiro” sem falar de Claude Troigros. Pioneiro, Claude se reinventa a toda hora, com novos programas e formatos. Na versão “Revanche” de Que marravilha!, ele se superou. Exemplo de entretenimento a ser seguido. Já seu colega Olivier Anquier manda bem sozinho, pois seu Cozinheiros em ação é uma das coisas mais toscas da TV, nem vale desenvolver o raciocínio.

Enquanto isso, em outro canal, o “mago das panelas” Felipe Bronze tenta ensinar receitas para receber amigos, como se fosse comum usar sifão pra cozinhar. Até aí, embora incomum, essa é a pegada dele, ok. Mas o que fode mesmo é a porra do cream cheese que ele tem que enfiar em tudo, para mostrar quem paga as contas do show.

Ao fim e ao cabo, é possível dizer que no Brasil, no quesito programas gastronômicos, há de tudo. E é só o começo. A TV ainda promete surpresas para nossos estômagos. Eu fico com os programas de receitas que funcionam. Porque gosto é de comida gostosa. 

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