Ensinar a cozinhar é uma revolução silenciosa, diz Rita Lobo

por Bruna Bittencourt

Entre lives e receitas, a apresentadora fala sobre seu trabalho em meio ao confinamento e sua cruzada para levar as pessoas ao fogão

O coronavírus fez muita gente que não tinha intimidade com o fogão encarar ele de frente, diante da pergunta diária: o que comer, em casa? Isso, claro, para quem não quiser ou puder recorrer a deliveries ou a terceiros.

E é essa cruzada de Rita Lobo, que veste (literalmente) a camiseta de que cozinhar é como ler e escrever: todo mundo deveria saber. Há anos, Rita ensina o bê-á-bá da cozinha em livros, na TV paga e na internet com seu Panelinha – que completou duas décadas em meio à quarentena –, militando por uma alimentação saudável e repetindo o bordão "desgourmetiza, bem!". “Tudo o que fazemos é para levar as pessoas para a cozinha. Criei o Panelinha por acreditar que cozinhar é libertador”, diz à Tpm.

Isolada em sua casa, Rita vem ensinando receitas em lives diárias em seu perfil no Instagram, desde como fazer um arroz solto ou um queijo quente crocante até se aventurar com o passo a passo para um ovo de Páscoa. Em família, convocou mais uma vez o marido e sócio, o jornalista Illan Kow, para cozinhar a quatro mãos com ela, enquanto o filho mais velho assumiu a câmera de filmagem.

A autora e apresentadora vem promovendo conversas sobre alimentação e pandemia com convidados como Monja Coen, o psicanalista Christian Dunker e o escritor Milton Hatoum. Também vem respondendo perguntas oportunas para este período, tais quais "como não engordar na quarentena?". “Neste momento, em que tanta gente precisa de uma forcinha para resolver a alimentação, o nosso trabalho ganhou mais visibilidade.” Tpm tirou Rita um pouco do fogão para conversar sobre seu trabalho e alimentação em meio à quarentena.

Tpm. O que mais te chamou a atenção no retorno que tem recebido dos internautas de suas aulas e conversas?
Rita Lobo. A pandemia de Covid-19 é um momento tenso, sem precedentes, de muitas incertezas. Eu chego a me emocionar ao ver as pessoas descobrindo a cozinha. Percebo que, primeiro, elas sentem um alívio por dar conta das refeições. E, depois, ficam até mais felizes. Muita gente que não sabia fritar um ovo sacou que ganhar autonomia é muito positivo. E eu acredito que essa mudança não será circunstancial: quem está aprendendo a cozinhar agora vai ganhar uma ferramenta para deixar a vida melhor, para sempre. Homens e mulheres.

Muita gente não tem tempo, não quer cozinhar e pede delivery neste período. Dá para ter uma alimentação saudável mesmo assim? Sempre que alguém diz que não tem tempo para cozinhar, eu escuto: “Não considero alimentação um assunto importante”. E não é à toa que tanta gente considere cozinhar uma atividade menor: era dever da empregada, responsabilidade da mãe, da avó, da esposa. Além disso, hoje, indústrias como a de ultraprocessados investem bilhões em marketing para convencer você de que cozinhar é perda de tempo. A estratégia dos aplicativos de entrega, aliás, é a mesma: tirar a sua autonomia para que você fique refém da comida comprada pronta. Quem está longe da cozinha fica mais propenso a cair em todos os modismos nutricionais e piorar a alimentação. Em termos epidemiológicos, o que sabemos é que nas populações que foram se afastando da cozinha, os índices de obesidade cresceram. Nos locais onde o padrão alimentar tradicional é forte o suficiente para manter as pessoas na cozinha, valorizando seus alimentos e suas receitas, a população não engorda. (O paradoxo francês não é tão paradoxal assim!) Abrir mão de saber cozinhar, mesmo que você não precise preparar as suas refeições todos os dias, é um falso privilégio: quem mais se prejudica é o privilegiado. Quem cozinha tem mais condições de fazer melhores escolhas.

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O que não pode faltar na geladeira em uma época em que se deve ir ao supermercado o mínimo possível? E o que não falta na sua? Na despensa do brasileiro não deve faltar arroz e feijão. Com esses dois alimentos no prato, já está resolvida a metade do cardápio. Do outro lado vão as hortaliças (que são legumes e verduras) e um pedaço de carne, para quem come. Com esse pê-efe tradicional todos os dias na hora do almoço, fica mais fácil garantir uma alimentação saudável de verdade. Essa nossa dieta brasileira foi sendo construída no decorrer de centenas de anos pela população. Está mais do que testada! Ela combina de forma balanceada alimentos abundantes no país. O ideal é ir à feira (ou ao hortifrúti, ou ao sacolão) uma vez por semana e levar os alimentos frescos que estão na época. Outra boa opção é contratar uma cesta de orgânicos semanal. Há várias estratégias para aproveitar os alimentos, mas o ponto principal para não precisar ir toda hora ao mercado é fazer um bom planejamento. Sem ele, ou vai faltar ou vai sobrar.

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O que você mesma aprendeu e descobriu nestes dias de confinamento, por exemplo, trabalhando on-line? O Panelinha é um empresa que nasceu digital. Aliás, o site completou 20 anos durante a quarentena. Eu adoraria dizer que com a utilização de plataformas on-line para reuniões e criação de projetos conseguimos fazer tudo. Mas não é verdade. Para os novos projetos, seja para o site, para televisão ou para os livros, precisamos da equipe no estúdio. Por outro lado, fazer comida de verdade, o principal pilar do nosso conteúdo, serve para todas as ocasiões, inclusive para a quarentena. Com as nossas receitas, ensinamos a cozinhar, levando em consideração o padrão alimentar tradicional brasileiro, com alimentos acessíveis em todo o país.  Como somos muito estruturados e sabemos ensinar as pessoas a cozinhar, mesmo trabalhando cada um da sua casa, a equipe do Panelinha conseguiu colocar no ar em dois dias um especial com todas as orientações para melhorar a alimentação na quarentena. Do planejamento às compras, do armazenamento ao preparo, do reaproveitamento ao congelamento. Está tudo lá. E eu acabei fazendo lives e vídeos de casa. Em termos de produção, foram feitos de forma amadora. No estúdio, além de luz, cenário, equipamentos, tenho a minha equipe de cozinha – que testa, faz o pré-preparo – a equipe de arte, que arruma o set, os câmeras. Enfim, não tem como essa parte da equipe exercer suas funções à distância. Não dá para comparar um vídeo caseiro, com um vídeo produzido no estúdio Panelinha. Mas o valor da qualidade do conteúdo ficou evidente. Neste momento, é só isso que vale. Seja por estatísticas ou por mensagens individuais, sabemos do impacto do nosso trabalho na vida das pessoas. Mas ensinar a cozinhar é uma revolução silenciosa. Neste momento, em que tanta gente precisa de uma forcinha para resolver a alimentação, o nosso trabalho ganhou mais visibilidade.

E o que tem sido mais difícil? Só consigo pensar que a minha situação é muito privilegiada: estou com a minha família e posso trabalhar de casa. Qualquer dificuldade fica minimizada diante do caos da Covid-19 e da desinformação. Fico preocupada com quem precisa sair para trabalhar – e revoltada com que está na rua por escolha (e que ainda vai tirar leitos de quem não tinha opção).

O que tem feito para manter a saúde mental em dia? A minha rotina no dia a dia é bem pesada. Como o público só me vê cozinhando, não se dá conta de que dirijo uma empresa que atua em diferentes segmentos. Além disso, o meu trabalho também exige que eu esteja bem fisicamente. Fazer uma reunião com a voz rouca não tem problema, mas se eu estiver sem voz, tenho que cancelar uma diária de gravação. E isso é um problema. Para dar conta de tudo, tenho que ser muito disciplinada. Faço atividade física todos os dias, que é fundamental não só para o corpo, ajuda a pensar melhor. E nesses tempos de quarentena também tenho meditado bastante. É coisa rápida, uma parada de menos de dez minutos duas ou três vezes por dia. Mas é essencial para o cérebro não fritar. Além disso, cozinhar também ajuda, porque exige concentração – ou você se corta, ou queima a comida. Esse estado de atenção no presente ajuda a manter a saúde mental.

Como tem sido unir a rotina de mãe ao trabalho? Seu filho, por exemplo, ajuda nas filmagens, certo? Tenho dois filhos. A menor, de 15 anos, está no segundo ano, estudando muito. Para ajudá-la a criar uma nova rotina, neste momento, o mais importante é garantir refeições na mesa, no horário. O meu filho mais velho, de 17, já se formou no ensino médio e só vai para a faculdade no segundo semestre. Ele faz câmera nas lives. Do ponto de vista familiar, o isolamento tem sido uma experiência positiva. Mas sei que para pais com filhos pequenos este deva ser um momento muito estressante: para crianças pequenas não basta garantir que haja comida no café da manhã, no almoço e no jantar. São outras demandas. E são muitas! Intermináveis. Como filha e nora, fico preocupada com meus pais e sogros, que são extremamente ativos. Para eles, ficar em casa, sem as atividades habituais, inclusive as físicas, é muito preocupante. Nós conseguimos fazer uma aula de pilates on-line. Para eles, é mais difícil.

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Quais outras iniciativas de chefs, donos de restaurante ou entusiastas da cozinha te chamaram a atenção e que você está acompanhando? O programa Bom Prato, que garante comida de verdade no almoço para a população de baixa renda, ampliou o atendimento para o jantar e fins de semana. Como o salão dos restaurantes não pode funcionar, são feitas marmitas.

E qual a primeira coisa que planeja fazer após o fim do período de isolamento? A vida não vai voltar a ser como era. Para quem está protegido dentro da própria casa, apesar de todas as aflições da pandemia e das incertezas que ela traz, sob todos os pontos de vista – da saúde, do trabalho, da economia, entre outros –, este tem sido um período de muita reflexão. Em termos de alimentação, para muita gente ficou mais evidente a importância de saber cozinhar. Mas essa vida mais simples é importante em muitas outras áreas. No meu dia a dia, faço quase tudo a pé. E voltar a caminhar na rua vai ser uma grande coisa.

 

 

Créditos

Imagem principal: Rita Lobo é criadora do Panelinha, autora bestseller e apresentadora de TV

Crédito: Divulgação/Editora Panelinha, Reprodução/Instagram @ritalobo

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