por Alessandra Lopes

Lívia Araújo, uma das organizadoras do FMB, faz um balanço do evento e confirma 2ª edição

Pedalar nas ruas das grandes cidades brasileiras é, em si, aderir ao cicloativismo. A presença nas ruas do cidadão de bicicleta, esteja ele trabalhando, se locomovendo ou se exercitando, torna a figura do ciclista algo menos exótica ou até mesmo, menos irritante. É isso mesmo, há quem se irrite com a figura do ciclista – fenômeno que talvez a psicanálise possa explicar.

Com oficinas de nomes sugestivos como “A Bicicleta e a Cultura da Paz! O cicloativismo e a psicologia do condutor"; ou, "Por que é tão perigoso pedalar no Brasil”, o Fórum Mundial da Bicicleta reuniu em sua primeira edição neste último final de semana em Porto Alegre, os bravos adeptos da bike nesta cidade que ainda não reserva muito espaço para ciclistas. É sobre essas tão necessárias mudanças e o que foi aventado no Fórum do último fim de semana que falei conversamos com Lívia Araújo, uma das organizadoras do evento.

Trip: A idéia do fórum foi realmente assinalar a data do atropelamento causado por Ricardo Neis no ano passado?
Lívia Araújo: Não exatamente. O fórum, pelo porte que teve e a diversificação dos temas em torno da bicicleta, se tornou algo que transcendeu a lembrança do atropelamento (no sábado fizemos especificamente um ato alusivo ao atropelamento - os manifestantes pediram juri popular para o atropelador) para promover a bicicleta em seus diversos usos, e tornar o seu uso uma escolha natural. Mas a ideia é, em Porto Alegre, para possíveis edições futuras, realizar o fórum sempre nessa data.

O fórum foi custeado por crowdfunding?
Sim. Usamos a plataforma Catarse.me para custear a passagem aérea desde São Francisco do Chris Carlsson, fundador da Critical Mass (Massa Crítica) e um dos principais convidados. Como desde a ideia do fórum até sua realização só havia dois meses, então colocamos como meta apenas a passagem dele, mas esse valor foi superado antes do prazo e então poderemos ressarcir outros gastos tirados do bolso dos realizadores, como material impresso, transportes terrestres, aluguel de equipamentos, entre outros. No decorrer desse tempo também recebemos algumas doações de empresas (a lista de todos os apoiadores está aqui), mas a maior parte do apoio financeiro veio de pessoas físicas. Também é importante ressaltar que houve a cessão do local de realização (a Usina do Gasômetro, pela Prefeitura) e empréstimo de materiais e equipamentos, como projetores, computadores, cadeiras e mesas.

A presença do público foi como vocês esperavam?
O público superou muito nossas expectativas. Como todos os organizadores do fórum são pessoas físicas de diferentes profissões, fizemos tudo com a esperança de "fazer pouco, mas fazer bem", mas o evento foi marcado pelo engajamento da nossa parte e também da parte dos próprios painelistas e oficineiros, que pagaram sua própria passagem e usaram nossa rede de hospedagem solidária (além do couchsurfing). Esse engajamento certamente estava no público que assistiu à programação do evento. Nenhuma oficina teve menos de 10 participantes (algumas tiveram mais de 50!) e os passeios de bicicleta tiveram grande adesão. Durante o fórum aconteceu a maior massa crítica do Brasil: foram mais de 1.500 ciclistas pedalando ao mesmo tempo.

Houve participação de algum representante do poder público?
Sim. Houve um painel sobre os problemas e soluções de mobilidade em Porto Alegre que teve a participação de um arquiteto urbanista da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC), Régulo Ferrari, que foi nosso convidado. O prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, esteve presente no começo deste painel e fez uma saudação aos espectadores.

Das oficinas realizadas resultou algum trabalho a ser implantado na cidade?
Esperamos poder conversar com a prefeitura e a iniciativa privada a respeito. Acredito que a cidade teria um ganho na cultura ciclística e inclusive no turismo. Uma das "tendências" que conseguimos ver no fórum foi a grande adesão aos temas relacionados ao turismo. O passeio histórico pelo Centro de Porto Alegre teve mais de 200 participantes. Isso poderia motivar a prefeitura a implementar um circuito turístico-ciclístico, a exemplo do City-Tour de ônibus que já existe na cidade. Representantes da cidade de Gramado manifestaram interesse em abrigar alguma atividade paralela ao FMB no ano que vem!

Então haverá outra edição do fórum no ano que vem? O balanço foi positivo?
O sucesso dessa primeira edição nos motiva a realizar uma segunda edição em Porto Alegre no ano que vem. Mas isso não impede que outras cidades também façam seu próprio fórum em outras épocas do ano. Segundo nossa estimativa, passaram pelo Gasômetro para assistir aos painéis e oficinas, ver as exposições de bicis antigas e fotos quase 5 mil pessoas. Se formos contar também a participação nos passeios, chegamos à casa das 7 mil pessoas. 

Para o futuro, esperamos organizar o FMB com maior antecedência (portanto conseguir mais apoio também) e mais organização, o que possibilitaria contar com melhores recursos (tradução simultânea, o custeio das passagens de nossos convidados), e poder oferecer ainda mais amplitude nos temas, atingindo outros públicos que não atingimos nessa primeira edição. O FMB quer ser ainda mais inclusivo.

Vai lá: www.forummundialdabici.com

matérias relacionadas