O PIB datou
Economistas e educadores brasileiros estão propondo uma nova maneira de medir riqueza
Por Redação
em 30 de setembro de 2011
Quando foi criado, termos tão na moda como “aquecimento global”, “stress”, “desigualdade social” ou “desenvolvimento sustentável” mal existiam. Elaborado no pós-guerra para avaliar a reconstrução dos países devastados, o PIB (Produto Interno Bruto) é o indicador da atividade econômica de uma nação mais utilizado no mundo. No entanto, no cenário catastrófico da crise atual – não só econômica, mas também ambiental e de qualidade de vida –, dirigentes de diversos países e também da ONU (Organização das Nações Unidas) têm questionado o índice do que chamam de velha e insustentável economia, apontando novos rumos para a organização socioeconômica mundial. A novidade maior é que essa preocupação começa a bater também aqui no Brasil.
Numa proposta desafiadora, uma elite de pensadores nacionais quer virar a mesa. “Não podemos mais nos basear no crescimento econômico permanente, pois nossos recursos naturais estão sendo dizimados pelo avanço tecnológico. Hoje temos desafios ambientais e sociais que também precisam ser medidos”, propõe o economista e professor da PUC-SP Ladislau Dowbor, durante o lançamento do livro Compêndio de sustentabilidade de nações. A obra reúne 25 indicadores alternativos ao PIB elaborados no Brasil e no mundo, organizados pela especialista em responsabilidade social Anne Louette. “O PIB está ultrapassado, pois crescimento econômico não se traduz em qualidade de vida. Crescer por crescer é a filosofia da élula cancerosa”, dizia ele no auditório da Fundação Getúlio Vargas, em São Paulo, ressaltando a necessidade de “criar modelos de interdependência no lugar do atual modelo de independência”.
Google, Butão e Sarkozy
Pelo segundo ano consecutivo, o Google levou o título de marca mais valiosa do mundo, ultrapassando os US$ 100 bilhões. O sistema de buscas é multiplicador da informação, valor intangível cada vez mais relevante nos dias de hoje. “O bem de produção hoje é a informação. Precisamos deixar de ser uma sociedade de consumo para nos transformarmos numa sociedade do conhecimento”, afirma Reinaldo Pamponet, diretor da Eletrocooperativa, ONG que lançou um método de educação e geração de renda autossustentável, a Sevirologia. Através do portal na internet, jovens de todo o Brasil enviam produções em áudio e vídeo – a maioria feita com celular – e recebem por isso. “Sevirologia vem de ‘se vire para vir a ser’. Queremos legitimar a sabedoria promovendo a transformação a partir do potencial de cada um.”
O Butão foi o país pioneiro a adotar oficialmente indicadores de sustentabilidade no fim de 2008, quando o governo real
oficializou o FIB (Felicidade Interna Bruta). Dentre os 25 indicadores reunidos no compêndio brasileiro, o FIB inspirou, por exemplo, os indicadores de “bem-estar psicológico” e “boa governança” (veja ao lado). E começam a pipocar demonstrações claras de que essa procura por novos caminhos é global e não restrita a nações antes consideradas exóticas, como o reino do Himalaia. O presidente da França, Nicolas Sarkozy, por exemplo, deve apresentar este mês relatório elaborado por 27 especialistas que busca atualizar o PIB padrão, incorporando medidas de impacto da economia sobre ecossistemas e de avaliação da qualidade de vida e bem-estar. Como resumiu Ladislau, “pensar em explorar indefinidamente os recursos de um planeta finito só pode ser coisa de idiota… ou de economista”.
Termômetro alternativo
Novos indicadores além do velho PIB:
Pegada ecológica: mede a exploração dos recursos naturais e a velocidade com que eles podem se regenerar a partir desse uso.
Acesso ao conhecimento: avalia a alfabetização dos adultos, o percentual de alunos matriculados e a formação dos professores.
Pobreza humana: mede o acesso à água potável e a porcentagem de crianças desnutridas e de adultos desempregados há mais de um ano.
Bem-estar psicológico: mede a satisfação popular com a própria saúde física e mental, o tempo gasto com atividades de esporte lazer e o acesso a programas culturais.
Boa governança: confere o desempenho do governo no combate à corrupção, à violência, à discriminação racial e à desigualdade.
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