por Jair Ribeiro

Valorização dos profissionais da educação e desenvolvimento socioemocional infantil são alguns dos pilares desta proposta já presente em 5 estados do país

Para responder a chamada à reflexão da Secretaria sobre esse tema, poderíamos enveredar pelos exemplos vencedores da Finlândia, do Canadá, ou mesmo alguns mais controversos (mas não menos exitosos) como Coreia do Sul e Shanghai. Caso seguíssemos essa linha, focaríamos na adoção de (i) currículos integrados e mais voltados ao desenvolvimento do pensamento crítico, (ii) uso do estado da arte de tecnologia em sala de aula, (iii) técnicas de aprendizagem colaborativa, (iv) desenvolvimento das habilidades socioemocionais e, acima de tudo, (v) atração para o sistema de professores de altíssima qualidade, com capacitações contínuas e elevada valorização da profissão pelo sistema de ensino e a própria sociedade.

Trata-se, no entanto, de um modelo de escola pouco afeito à nossa realidade. Seria propor algo inatingível considerando as nossas atuais limitações financeiras, culturais e de recursos humanos.

A nosso ver, no entanto, a escola que sonhamos e podemos ter já é uma realidade na rede estadual de São Paulo! Trata-se das escolas de ensino integral (Programa de Ensino Integral – PEI) introduzidas pelo programa Educação Compromisso de São Paulo, e já presentes nos estados de Pernambuco, Ceará, Goiás e Rio de Janeiro. Em São Paulo, essas escolas apresentam resultados expressivamente superiores às escolas regulares: (i) índices de aproveitamento escolar, no ensino médio, duas vezes superior à média do estado; (ii) nível de repetência significativamente menor que os da rede; e (iii) taxas de absentismo dos professores cerca de 70% menor que os do sistema como um todo (novos estudos de impacto estão sendo elaborados e serão divulgados ainda em 2016).
Esse novo modelo apresenta-se vitorioso por uma série de características que aqui elencamos:


1. Um currículo integrado e mais robusto, com volume superior de horas/aula quando comparado às escolas regulares. A literatura é farta em identificar a correlação direta de horas/aula com aprendizado dos alunos (vide Menezes “Os determinantes do desempenho escolar do Brasil “).
2. Professores e corpo diretivo de dedicação exclusiva à escola, com salários competitivos com outras profissões de formação acadêmica semelhante. Com isso, cria-se um vínculo estreito e parceiro do corpo docente com os alunos e a comunidade escolar, com impacto expressivo na redução do absentismo e comprometimento do professor com os resultados da escola.
3. Nos anos iniciais do ensino fundamental, foco especial para o desenvolvimento das habilidades socioemocionais, com inclusão no currículo de aulas específicas sobre o tema utilizando uma metodologia testada em mais de 34 países. Pesquisas nacionais e internacionais destacam o potencial da abordagem socioemocional na melhoria dos índices de educação em geral, impactando não somente o desenvolvimento humano dos alunos, mas também o resultado acadêmico.
4. Nos anos finais do ensino fundamental e ensino médio, a aplicação de toda uma metodologia para o desenvolvimento do protagonismo juvenil dos alunos, quando passam por definir o seu projeto de vida e são mentorados pelos professores no desenho de uma carreira profissional.
5. Aulas eletivas nos anos finais e ensino médio, elevando a atratividade da escola aos adolescentes, bem como proporcionando aos mesmos a capacidade de já identificar as suas vocações.
6. Essas escolas também dispõem de um modelo de gestão voltado a resultado, concedendo cada vez mais autonomia e responsabilidade ao corpo diretivo. Na operacionalização desse modelo pedagógico, os gestores ocupam lugar primordial e atuam com base em uma visão de futuro sustentada por indicadores de qualidade, não perdendo de vista os princípios educacionais fundamentais que contribuem para orientar, dar coerência e impulsionar o trabalho coletivo.

Há críticas com relação ao custo e à universalidade do modelo, mas já existem estudos comprovando a viabilidade de o modelo ser estendido para toda a rede no médio e longo prazos, considerando a maior eficiência do programa em termos das relações idade/série e alunos/professor, bem como a variação demográfica da população estudantil no Brasil. O estado de Pernambuco está se transformando em um case de muito sucesso, com mais de 40% dos jovens do ensino médio em escolas desse novo modelo.

Não se propõe uma desordenada expansão do modelo. O mesmo requer uma mudança de paradigmas da equipe gestora e dos professores que vem com o tempo, e demanda uma contínua capacitação e intenso acompanhamento na implementação. Trata-se, portanto, de um programa de médio e longo prazo para que seja implementado com sucesso em um alto percentual da rede, com objetivo de formar jovens muito mais bem preparados para a vida e o mercado de trabalho.

Acreditamos também na expansão de modelos de ensino integral aliados ao ensino profissionalizante, a ser estruturado e discutido com a sociedade e a rede pública.


Jair Ribeiro, Lúcia Favero e Mônica Guerra (Parceiros da Educação)

 

Jair Ribeiro foi homenageado no Trip Transformadores de 2008.

* Acompanhe aqui, semanalmente, os textos de grandes pensadores da sociedade brasileira, que já passaram pelo palco do Trip Transformadores.

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