por Carol Ito

Conversamos com a designer Babette Porcelijn, convidada do evento What Design Can Do, para falar sobre o impacto ambiental causado por atividades do cotidiano

Na contramão do design voltado para consumo, o evento internacional What Design Can Do propõe olhar pelo lado social, em busca de soluções para um futuro mais sustentável. O WDCD, que está em sua terceira edição no Brasil, acontece em São Paulo, nos dias 22 e 23 de novembro, na FAAP. Outras sete edições do evento foram realizadas em Amsterdam, na Holanda. A proposta é pensar em como o design pode ajudar a resolver um dos grandes problemas da atualidade: as mudanças climáticas. Em paralelo, o tema da violência contra mulher também será discutido.

Os palestrantes vão trazer experiências que podem inspirar os brasileiros a usarem a criatividade em prol de soluções para o meio ambiente. No dia 22 será apresentada a final do Climate Action Challenge, em que designers especializados em diferentes áreas enviaram propostas para reduzir os impactos ambientais. 

Para a designer holandesa Babette Porcelijn (44), uma das convidadas do evento, “o design hoje está criando mais problemas do que resolvendo”, por conta das práticas industriais e do consumismo. Babette é autora do livro The Hidden Impact (2016), escrito e ilustrado por ela, que faz uma análise comparativa dos impactos ambientais de atividades do cotidiano.

Ela realizou uma pesquisa documental, entrevistou especialistas e contratou experts para fazerem os cálculos, que, na maior parte dos casos, se referem aos hábitos de consumo dos holandeses. Apesar disso estar distante da realidade brasileira, os dados ajudam a refletir sobre algumas práticas corriqueiras, como comprar eletrônicos e comer carne, que são apontadas como as grandes vilãs do meio ambiente.

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A sacada do livro é mostrar que a maior parte do impacto ambiental gerado pelo consumo é invisível. Ela cita como exemplo a compra de um carro novo que consome menos gasolina: “Achamos que estamos fazendo um favor ao meio ambiente, mas, na verdade, a redução do consumo combustível só começa a valer depois de 13 anos dirigindo, porque o impacto gerado na produção do carro é muito grande”. Ela também aponta a urgência de se pensar no impacto além das fronteiras. “Os países ricos vivem numa bolha, não sabemos o que está acontecendo do outro lado do mundo em relação aos danos e também não fazemos nada para consertar”, enfatiza.

Em entrevista à Tpm, Babette Porcelijn contou sobre as descobertas que fez durante a elaboração do livro e trouxe ideias inspiradoras para repensar a forma como consumimos.

Como você enxerga a área de design hoje e como pensar no design no futuro? O design hoje está criando mais problemas do que resolvendo por causa da produção massiva e isso é prejudicial para o meio ambiente. Somos estimulados a consumir coisas que não precisamos realmente. Para o futuro temos que criar produtos e serviços que ajudem o ecossistema e reavaliar tudo: a função do design, os hábitos e a economia.

O que te motivou a escrever o livro Hidden ImpactExistem boas iniciativas para ajudar o meio ambiente, sobretudo na Holanda. Mas quando comecei meus estudos percebi que não temos iniciativas para diminuir o impacto que vai para outras partes do mundo e não fazemos nada para melhorar. Além disso, eu estava muito interessada em identificar quais são os grandes e pequenos problemas, proporcionalmente, e inspirar pessoas a repensarem seus hábitos de consumo.

Quais dados te surpreenderam durante a produção do livro? Cada página, cada informação me fazia cair da cadeira. Eu fiquei impressionada com a quantidade de árvores que perdemos no mundo, são derrubadas 27 milhões por dia. Outro exemplo é que quando compramos um carro novo que usa menos gasolina achamos que estamos fazendo um favor ao meio ambiente, mas, na verdade, a redução do consumo do combustível só começa a valer depois de 13 anos dirigindo, porque o impacto gerado na produção do carro é muito grande. Na Holanda usamos 120 litros de água por dia, em média, dentro de casa. E isso é apenas 1% do total, os outros 99% vem das coisas que compramos e, principalmente, da comida que comemos, que representa 86% do consumo. Outro dado alarmante é sobre os micro-fragmentos de borracha que são lançados no ar pelos pneus dos carros, que polui os rios, oceanos, solo e ar.

Os dados do seu livro mostram que comprar eletrônicos e produtos (fora comida) causa mais impacto do que dirigir um carro e usar ar-condicionado, por exemplo. Como isso é possível? Se considerarmos todas as coisas que compramos, elas causam mais impacto do que um ar condicionado. Você não percebe isso porque esses produtos não causam impacto dentro de casa, mas do outro lado do mundo, onde são produzidos. A mineração e o transporte são muito poluentes. Não é justo esquecermos desses problemas porque, como consumidores, estamos pagando para que empresas reduzam o impacto, então, elas são parte da responsabilidade. 

Como repensar o consumo de eletrônicos? Um nova linha de pensamento seria dividida em três passos: reciclar mais, usar produtos eletrônicos por mais tempo e impor novos limites à mineração. Toda a cadeia de produção precisa ser pensada de forma circular, desde a matéria prima até o descarte. Em nível individual, temos que consumir cada vez menos eletrônicos com o tempo. É importante ter uma visão holística e pensar não só nos impactos ecológicos e na mudança climática.

No top 10 das atividades que causam mais impacto, a carne está em segundo lugar. Por quê? Existem muito impactos relacionados a produção de carne. O grande problema é alimentar os animais, o que implica no aumento da monocultura. Isso representa um gasto enorme de água, pesticidas, fertilizantes, o que prejudica a biodiversidade. Além do que os animais produzem gases que agravam o aquecimento global. Em média, a dieta de um holandês inclui 66% de carne. Uma porcentagem menor seria benéfica para o meio ambiente.

Quem deve ser mais responsabilizado pelos grandes impactos ambientais, governos, indústria ou indivíduos?  Primeiramente temos que ter mudanças nas políticas públicas e pensar no papel da indústria, da agropecuária e dos indivíduos, é um mix. As indústrias  poluem, mas, no fim, nós garantimos que as empresas tenham sucesso com nosso dinheiro. Precisamos fazer escolhas diferentes e isso pode realmente promover mudanças. Não somos impotentes.

As empresas deveriam esclarecer o quanto poluem? Seria bom se as empresas fossem transparentes quanto aos impactos, com informações nos rótulos. Mas eu penso além. Se calcularmos o impacto vamos ver que os produtos e alimentos que mais poluem são os mais caros. Deveríamos pagar o preço real pela poluição e impacto ambiental. Os produtos bons para o meio ambiente ou menos prejudiciais deveriam ser proporcionalmente mais baratos. Seria um grande incentivo a fazer uma boa escolha e isso deveria partir de políticas.

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