por Mariana Lemos

Violência contra a mulher é tema da redação do ENEM 2015 menos de uma semana após o Twitter ser tomado pelo debate sobre primeiro assédio sofrido por mulheres

A abordagem das questões de gênero no Exame Nacional do Ensino Médio, o ENEM, tomou conta das redes sociais neste final de semana. Uma das perguntas da prova citou a filósofa feminista Simone de Beauvoir, enquanto o tema da redação foi a permanência da violência contra a mulher no Brasil. Boa parte dos internautas comemoraram, mas teve gente que não gostou de ver o feminismo bater asas.

A violência na sociedade brasileira já tinha sido abordada em 2003, com proposta de reflexão sobre como mudar as regras deste jogo. Neste ano, a retomada com recorte específico de gênero, levou mais de 7 milhões de jovens a refletirem sobre um problema cultural e estrutural da sociedade brasileira. Os dados mais recentes divulgados pelo Mapa da Violência mostram que o país registrou, entre os anos 2000 a 2010, um aumento de 230% no número de homicídios de mulheres.

Para Raquel Marques, presidente da Artemis, organização que atua na erradicação da violência contra a mulher, esta edição do ENEM pode ter representado a primeira oportunidade de jovens refletirem de forma estruturada sobre a temática. “A própria estrutura de uma dissertação, que exige introdução, elementos argumentativos, desenvolvimento e conclusão, apresenta-se sempre como a chance de dar corpo a todo um arcabouço de conhecimentos acumulados na vida”.

A célebre frase de Beauvoir – “Não se nasce mulher. Torna-se mulher” – e o tema da redação atualizam uma importante discussão, a inclusão das questões de gênero na grade curricular. Silvia Badim, professora da UnB, ressalta o papel da educação na construção de uma reflexão crítica. “A retirada das questões de gênero dos planos municipais e estaduais de educação foi um retrocesso. Trazer esse tema é dizer aos jovens e educadores que ele precisa ser debatido, apropriado, trabalhado”.

Assim que foram divulgadas na web imagens dos cadernos da prova, houve também a reação negativa à abordagem “feminista” do ENEM. Além de estudantes, deputados e líderes religiosos conservadores manifestaram sua opinião nas redes sociais, chamando o exame de “doutrinação”. O deputador Marco Feliciano escreveu em suas redes: “Doutrinação explicita sobre ideologia de gênero para 7 milhões de estudantes. Vergonha”. Ele criticou o MEC e culpou “alguns infiltrados” por tentarem “incutir em mentes puras culturas estranhas aos nossos costumes e tradições”.

O teólogo e pastor batista José Barbosa Junior responde ao argumento de Felicino: “A meu ver, doutrinação é a insistência em subverter o estado laico sugerindo que convicções religiosas sejam verdades absolutas a serem seguidas por toda a sociedade”. De acordo com o pastor, o exame colabora para uma discussão urgente num país em que a mulher é explorada e violentada diariamente nos ambientes público e privado.

A discussão acontece menos de uma semana após a rede ser tomada por depoimentos de assédio em campanha promovida pelo coletivo feminista Think Olga, após episódio em que uma jovem de 12 anos, participante do MasterChef Junior, transmitido pela Band, foi assediada em mensagens postadas no Twitter. Mulheres de todo o país compartilharam suas histórias com a hashtag #PrimeiroAssédio, evidenciando a cultura de violência de gênero que a redação do ENEM propôs discutir.

Feministas acreditam que a internet – e as redes sociais, especialmente – tem dado amplitude às discussões de gênero e sido um importante canal de mobilização e denúncia. “A violência contra a mulher não é nova e a discussão só chega a esse ponto graças também ao trabalho consistente do ativismo feminista”, comenta Raquel.

Para a blogueira e ativista Aline Ramos, do Que Nega é Essa?, a internet é uma das responsáveis pela popularização das pautas feministas, que são as pautas de todas as mulheres, sejam elas feministas ou não. “Com tantos blogs e projetos que trazem essas questões, com uma linguagem mais pop e simples, muitas pessoas passaram a se sentir mais confortáveis em falar a respeito. As discussões acabaram ganhando força e capilaridade, o que acaba chamando a atenção das diferentes mídias, que também têm abordado mais o tema. É um ciclo positivo”.

O gabarito das provas deste ano serão divulgados nesta quarta-feira (28). As provas digitalizadas estarão disponíveis na sexta-feira (30).

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