por Carolina Vilarinho

Uma receita de um doce de origem japonesa e um ’causo’ delicioso

O Dia Internacional da Mulher foi esta semana e eu, como mulher e escrevendo aqui na Tpm, não poderia deixar passar em branco. Dentre todas as grandes mulheres que conheço, escolhi uma para falar hoje e dividir uma breve história com vocês.

Perto da minha casa, aqui em São Paulo, há uma lojinha de produtos orientais. Sempre passo em frente e todo esse tempo ficava olhando, olhando mas nunca tinha parado. Até que um dia fui fazer algumas coisinhas por perto, resolvi parar e dar uma bisbilhotada, na intenção de comprar apenas massa para fazer rolinho primavera. 

Logo na frente estava a Dona Regina, sentadinha em uma cadeira de plástico na calçada, com um avental e óculos de grau. Assim que cheguei, ela abriu um sorriso de boas vindas, me cumprimentou e eu comecei a dar uma olhada nos produtos. Pedi a massa, ela já correu para pegar na geladeira um pacote fresquinho e então começamos a conversar sobre comida. Engatamos em uma conversa que terminou duas horas depois. Sim, fiquei duas horas dentro da tal lojinha conversando com essa senhora incrivelmente simpática e saí de lá com a sensação de que o dia já tinha valido à pena.

Quando disse que tinha estudado gastronomia, ela ficou super empolgada. Pude tirar todas minhas dúvidas sobre a culinária japonesa e ainda me passou umas três receitas, uma delas a que vou passar aqui hoje, e mais um monte de dicas. Dicas de reaproveitamento de carnes para fazer molhos, de como fazer alguns temperos em casa, como conservar. Enquanto ia me contando sobre sua vida ali, eu passeava pela loja enchendo aquela senhora de perguntas. Cada produto que desconhecia, perguntava e a Dona Regina me explicava nos mínimos detalhes, dizendo com o que ficava bom, qual marca era boa, qual era sua preferida. Conheci tanta coisa, e acabei gastando até mais do que deveria, mas não resisti. 

A Dona Regina, senhora de traços orientais e de uns 60 e poucos anos, com um sorriso constante no rosto e uma boa vontade de dar gosto, nasceu aqui no Brasil, mas seus pais vieram "da cidade que explodiu aquela bomba", como a própria mesmo me disse, Hiroshima. Morou no interior de São Paulo e se casou com um oriental também, que trabalha com ela na loja.

No meio da conversa, contou que a loja iria fechar por razões pessoais e que não queria ficar em casa vendo TV. "Eu gosto de gente, de conversar, não quero envelhecer e ficar parada", ela me disse toda empolgada. Mãe de três filhos, já todos adultos e bem criados, ela e marido abriram a lojinha. Perguntei o que pretendia fazer depois de fechar, e ela me respondeu que gostaria de fazer trabalho voluntário. Achei lindo, e disse que por perto há muitas creches de crianças, que conhecia algumas e se quisesse o nome e o endereço arrumaria, mas aquela senhora japonesa me surpreendeu e disse que quer ajudar idosos, principalmente os que têm mal de Parkinson e Alzheimer. Achei de uma grandiosidade tamanha, sortudos serão os idosos que ficarão aos cuidados daquela bondade e simpatia toda em menos de 1,60 de altura e olhos puxados.

Uma pena eu ter conhecido a loja agora, bem quando está para fechar. Acredito que passaria lá toda semana apenas para conversar com a Dona Regina e escutar suas histórias e anotar suas dicas e receitas. No final das contas, saí de lá admirando muito aquela senhora cheia de vida e sorridente, com duas sacolas muito cheias e o telefone dela para eu ligar quando precisar e quiser tirar qualquer dúvida.

A receita que ela me passou é tão simples e gostosa. É apenas sorvete com fruta e gelatina. Mas não é uma gelatina qualquer. Vocês conhecem ágar-ágar? É uma gelatina feita de alga marinha, muito apreciada pelos vegans, e a única coisa que consta na tabela nutricional são 9 gramas de fibras. É sem sabor, portanto é feita com água e suco, do sabor que você quiser. Nas embalagens vêm o modo de preparo, mas o mais bacana é que nem precisa colocar na geladeira para endurecer, é só esperar uns minutos e a mágica está feita. A Dona Regina indicou, eu testei e vocês vão adorar!

Sobremesa da Dona Regina

Ingredientes

1 pacotinho de ágar-ágar
2 copos de água
1 copo de suco de uva
½ manga madura
4 bolas de sorvete de iogurte (os vegans podem substituir por sorvete de leite de soja)

Passo a Passo

1. Em uma panela, ferva a água e adicione o ágar-ágar. Seguindo as instruções da embalagem, deixe ferver por 3 minutos, desligue o fogo e adicione o suco de uva.
2. Misture bem e disponha em uma travessa de vidro de forma que dê para cortar em cubos depois de endurecida.
3. Enquanto a gelatina endurece, corte a manga em cubos.
4. Sirva o sorvete com os cubos da gelatina e da manga.

Dicas

. Um pacotinho de ágar-ágar rende bastante, o que sobrar poder ser usado em outras sobremesas ou pode ser consumida pura mesmo. Você pode acrescentar açúcar na gelatina se quiser que fique mais doce. 
. A fruta, sabor do suco e do sorvete ficam ao seu critério, pode ser qualquer um do seu gosto.
. Uma farofinha de gengibre pode cair bem também.

Update:  Essa receita e o texto foram preparados antes dos tristes acontecimentos de ontem no Japão, mas fica aqui a homenagem para o povo japonês e a sua cultura tão amada por nós, brasileiros.

(Carolina Vilarinho, 21 anos, paulistana legítima, é gastrônoma e aspirante a fotógrafa. Resolveu não só ficar com a barriga no fogão, mas também escrever sobre suas experiências gastronômicas e mostrar que cozinha tem muito a ver com praticidade. Seu blog é o www.jornalgourmet.com e semanalmente, às sextas, ela dá suas dicas aqui no site)

 

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