por Elisa Freitas
Tpm #141

Aos 24 anos, Elisa Freitas se tornou a primeira negra eleita Miss Santa Catarina, mas diz nunca ter sofrido racismo

“Sou manezinha da ilha mesmo, nascida e criada em Florianópolis. O lugar onde eu moro é uma comunidade no morro, no centro da cidade, que chamamos de Maciço do Morro da Cruz. Comecei a trabalhar muito cedo, com 15 anos já fazia trabalhos como modelo em desfiles e comerciais locais. Fui convidada para ser Rainha da Embaixada Copa Lord, escola de samba pela qual minha família sempre saiu. Meu pai chegou a ser diretor da escola e fui rainha por três anos: 2009, 2010 e 2011. Com os trabalhos, comecei a pagar a faculdade de publicidade (pretendo me formar neste ano). No final do ano passado, recebi o convite pra participar do Miss Mundo Santa Catarina. Entre 50 meninas, eu era a única negra. Acho que o título veio como merecimento pela minha história, pela minha batalha.

Nunca tive nenhum empecilho ligado à minha cor ou à minha origem social na hora de encarar o mundo. Nunca senti nenhum tipo de preconceito. Acho que sou tão bem resolvida que, se houve algum preconceito contra mim, não percebi. Na minha opinião, está na cabeça de quem interpreta. Sei que existe, é claro que existe em todo lugar. Racismo é crime e precisa ser tratado como tal. Mas percebo que, pela educação, pode haver uma solução.

Eu me lembro que uma vez estava numa convenção em São Paulo e uma senhora viu a minha faixa de Miss Florianópolis e falou: ‘Você está mais pra Miss Bahia que Miss Florianópolis’. Isso foi dito de um jeito que não me fez
interpretar como preconceito – eu sorri e logo depois ela me elogiou. Eu entendi o que ela quis dizer, não levei como racismo. É claro que existem exceções, agora mesmo vimos o caso do jogador Tinga. Mas posso dizer que nunca passei por isso. Ninguém nunca me tratou diferente. Não pretendo levantar nenhuma bandeira, mas vou lutar pelo meu reconhecimento e pelo espaço da mulher negra, como fiz no concurso de miss.

 

“Não pretendo levantar bandeira, mas vou lutar pelo espaço da mulher negra”

 

Meu pai é negro e minha mãe é descendente de índios. Um site de notícias fez uma reportagem comigo em que li alguns comentários dizendo ‘Ela não é negra, é morena’, ou ‘Ela não é negra, é mulata’. Não existe diferença. Não sou morena, sou negra. Gosto disso. Ter esse título de primeira mulher negra a ser Miss Santa Catarina é um orgulho imenso, represento meu estado e minha comunidade, as pessoas ficam lisonjeadas por mim.

Percebo que muitas crianças na comunidade não se acham inseridas na sociedade, acham que nunca vão conseguir sair de lá. Elas veem o pé do morro como outro mundo e têm medo dele. Mas não precisa ser assim. Meus pais nunca me fizeram sentir esse tipo de isolamento, nunca me colocaram como alguém excluído da sociedade. Por isso, acredito que a solução para acabar com o racismo no Brasil começa pela educação. Gostaria muito de trabalhar com crianças e pensar em uma forma de contribuir com essa mudança.”

Ser negra no Brasil é (muito) foda: Da atriz Juliana Alves à ministra da igualdade racial Luiza Bairros: mais de 50 mulheres discutem o que é enfrentar machismo e racismo ao mesmo tempo

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