por Karla Monteiro
Tpm #142

No livro ’Karmatopia’, Karla Monteiro faz uma ’ode aos viajantes’. Leia aqui um trecho sobre sua purificação na Índia

Há toda uma geração desiludida com a rotina de produzir e consumir. As pessoas querem mais sentido para as coisas, mas onde encontrar? Para a jornalista Karla Monteiro a resposta foi a Índia, país que resiste no imaginário ocidental como um portal (mesmo que não se saiba ao certo para onde). Por 195 dias ela percorreu mais de 10 mil quilômetros da índia real, bem mais caótica e difícil que a índia idealizada dos mais românticos. na mochila, quatro leggings, seis camisetas, nécessaire com cosméticos e remédios, um par de havaianas, um de botas, dois vestidos e um casaco. A aventura deu origem a Karmatopia, livro que é “uma ode aos viajantes”. A seguir, um trecho em que ela narra um episódio de purificação

“...Como eu não tinha nenhum problema sério, meu jejum duraria dois dias. O doutor havia elaborado o meu pacote com base no mesmo diagnóstico que eu ouvira antes: o Pitta desregulado, o fogo ardendo. Depois do pancha-karma do doutor Arora, eu me sentia bem. Mas, segundo o doutor, ainda precisava baixar as chamas interiores.

As horas na clínica passavam como num filme mudo, com um único cenário: o salão do tatame. E uma única trilha sonora: Mozart. Ninguém falava com ninguém na maior parte do tempo, e cada um adotou uma atividade compulsiva para expressar a fome. Anne pintava. Barbara fazia alongamentos, usando as paredes para se esticar. Ela me contou que sofria havia vários anos com dores reumáticas intensas, apesar de ser professora de ioga e ter apenas 38 anos. As russas gastavam os minutos dormindo, uma delas roncando como um trator. Eram três matronas de São Petersburgo. O homem de origem desconhecida escolheu o passatempo mais estranho: ler o Lonely Planet. Lia página por página, como se aquilo fosse um saboroso romance. Eu optei por praticar o nada. Ficava por ali, olhando o que os outros estavam fazendo. Ou ouvindo as histórias de Joel, quando ele estava em casa.

A cada 2 ou 3 horas, Shiba e/ou Sayma apareciam para me aplicar algum tratamento. Às 6 da manhã, eu era acordada com um copo de água amarga e levada para o tatame, onde as duas me socavam com duas trouxinhas pesadas. Segundo me informaram, aquilo acordava o sistema linfático. No meio da manhã, era levada para o terraço, enrolada em bandagens geladas e colocada ao sol. Após o almoço – a partir do terceiro dia tive direito a frutas, água de arroz e legumes semicozidos –, massageavam a minha coluna até ficar bem quente e aplicavam, de novo, bandagens geladas. No fim da tarde, mergulhavam minha cabeça numa bacia de água com gelo e me deixavam ali, congelando. Antes de dormir, uma relaxante massagem na cabeça.

 

"Arrancar as toxinas das entranhas era tão poderoso quanto tomar uma droga"

 

Com o passar dos dias, os procedimentos ficaram mais intensos. No quarto dia, fui apresentada às folhas

de bananeira. Aquilo não era nada agradável, me senti como uma múmia sendo cozida ao sol. Fiquei 40 minutos presa num casulo de folhas de bananeira, que deixavam somente o meu nariz de fora. Suei tanto que pensei que fosse murchar. O doutor me garantiu que o “banana-leaf” era, de longe, mais eficiente do que qualquer sauna. Meu suor se transformaria em água mineral após as seis sessões até o final do retiro.

O retiro acabou e eu estava muito orgulhosa de tê-lo enfrentado. Tudo aquilo havia funcionado como uma injeção de disposição, de energia, de frescor, uma verdadeira sensação de limpeza, como se eu tivesse sido colocada numa máquina de lavar que me virou várias vezes do avesso. Tanto o pancha-karma do doutor Arora quanto o detox do doutor deixaram em mim a mesma sensação: limpar o corpo aproxima do céu. Não que eu tenha encontrado Jesus ou algo parecido. Mas arrancar as toxinas das entranhas era tão poderoso quanto tomar uma droga qualquer: o nariz aguça e os cheiros ganham vigor; o paladar fica apurado; o tato se torna consciente; e a mente, por sua vez, se recolhe, diante dos outros sentidos despertos. Outra coisa que eu constatara, pelo menos no meu caso, era que a transformação não tinha um caráter transformador. Eu saía dos retiros me sentindo outra pessoa e, alguns dias depois, era de novo a mesma pessoa. Mudar os hábitos me consumiria vidas, eu sabia.”

Vai lá: Karmatopia, de Karla Monteiro. Editora Civilização Brasileira

matérias relacionadas