Sábado à noite

por Redação
Tpm #65

Era uma noite fria de julho, quando meu pai e eu, sozinhos em casa, tivemos que correr para o pronto-socorro.

Lembro daquela noite com nítida perfeição. Lembro, por exemplo, que fazia muito frio, e que, quando cheguei em casa, meu pai estava lá. Era sábado, e eu tinha 22 anos. Como nunca gostei muito de sair para grandes e prolongadas farras, nem mesmo aos 22 anos, tinha escolhido ficar em casa, lendo e vendo TV – até hoje, meu sábado à noite ideal.

Lembro também que o resto da tropa – matriarca, duas irmãs farristas e um irmão adolescente – havia cedido aos encantos da cidade, deixando meu pai em casa. Quando anunciei minha programação caseira, o velho reagiu como de costume: “Bilu, você é das minhas”. Sem falar muito, porque nosso relacionamento era desses que permitiam o silêncio sem gerar constrangimento, abrimos uma garrafa de vinho e lá ficamos, os dois, lendo na sala.

Tudo parecia muito sossegadamente perfeito, até que, depois de uma hora, ou mais, re­solvi ir ao banheiro ver por que meus olhos coçavam sem parar. Quase em pânico, notei que um deles, talvez o esquerdo, embora esse tipo de precisão pouco acrescente à história, estava extremamente vermelho. Imediatamente recordei ter lido, naquela mesma semana, um artigo sobre sintomas que podem anunciar a che­gada de um derrame.

E entendi que nada, nem mesmo o ca­sual encontro com um texto sem graça, perdido no meio do ca­der­no feminino do jornal de domingo, acontecia por acaso. Aquele artigo estava destinado a salvar minha vida: “olhos vermelhos” constava na lista de 30 (ou mais) itens.

Como herdei de meu pai uma certa propensão a exagerar sintomas e achar que uma abominável doença está sempre a caminho, corri à sala e anunciei a calamidade. Ele tirou os óculos, checou com atenção meus olhos e, orientado por mais de 60 anos de hipocondria, disse: “Vamos para o pronto-socorro”. Se minha mãe estivesse em casa, certamente impediria nossa fuga. Como éramos apenas ele e eu, o pron­to-socorro pareceu uma idéia bastante coe­rente.

Chegando lá, meu pai pediu o oftalmo­lo­gista de plantão, e pareceu muito bem impressionado ao saber que o nome do plan­tonista era Arnaldo – e o dele também. Achamos aquela uma coincidência fan­tástica: sabíamos que havíamos tomado a atitude correta e estávamos no lugar cer­to.

Hipocondria emocional

Depois de preencher fichas, mostrar car­teirinhas, preencher mais fichas e mos­­trar boletos, fomos convidados a entrar. A essa altura, alguns outros sinto­mas do derrame já haviam se manifestado: so­­nolência, uma certa dormência no braço esquerdo (o que me fez pensar que poderia ser um enfarte e não um derrame, e que um oftalmo pouco ajudaria nesse ca­so) e um leve, quase imperceptível, tremor pe­­lo corpo.

A consulta foi demorada, entre outras coisas, porque meu pai descobriu que o médico, além de se chamar Arnaldo, gostava de corridas de cavalo – uma das gran­des paixões do meu velho. E também, na­turalmente, porque consultas com hi­po­condríacos são sempre demoradas. De­pois de muito me examinar, o médico sen­tenciou: é uma leve irritação, causada por sujeira. Receitou um colírio (qualquer) e nos mandou para casa.

Sem fazer nenhum comentário sobre a avaliação simplista do pro­fissional, passamos em uma farmácia, compramos o colírio e vol­tamos. No caminho, dentro do táxi, porque meu pai nunca di­ri­giu, conversamos sobre como dr. Arnaldo, o médico, era um su­jeito gentil. Claro que, no fundo, queríamos dizer que o médico havia sido suficientemente gentil para não nos ridicularizar. A gen­tileza devia-se ao fato de ele não ter diagnosticado nossa hipocondria – pelo menos não em voz alta.

Chegando em casa, meu pai lembrou que havia na geladeira uma peça de lagarto, que ele podia esquentar e me servir com man­go chutney e pimenta, um de nossos pratos prediletos. Já in­va­dida pela fome dos sobreviventes, aceitei. Assim passamos o sá­bado: na mesa da cozinha, comendo lagarto e tomando vinho, en­quanto o resto da família se perdia pelo sábado na cidade.

Meu pai morreu no dia 13 de julho de 2001, 11 anos depois des­se nosso sábado perfeito. Hoje, sei que ele nunca acreditou na hi­pótese do derrame e que estava jogando meu jogo apenas para fa­zer com que eu me sentisse protegida. Assim, inaugurou esse gos­to em mim, me fazendo ver que a vida fica bem mais leve e di­­vertida quando encontramos aquela pessoa que vai dar bola pa­ra nossas loucuras. Em uma manhã gelada de inverno, perdi meu cúm­plice.

Mas, desde então – e ele adoraria saber disso –, nunca mais fiquei um dia sem a companhia de uma mulher que desse bola para minhas paranóias. Porque, no fundo, não passamos de um amontoado de saudáveis e criativas loucuras. Com sorte, to­pa­­mos por aí com quem as perceba e, mais do que isso, as sabo­reie. Como meu pai e eu fizemos, naquela noite fria de julho, em 1992.

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