por Ariane Abdallah
Tpm #117

A bióloga Juliana Machado Ferreira impressiona com sua brava defesa da fauna brasileira

Quando acorda com o canto do passarinho do vizinho, Juliana fica de mau humor. O som chega como um despertador que grita: “Você está traindo seus princípios!”. Afinal, a bióloga é uma das mais ativas defensoras da fauna brasileira, voluntária de peso na SOS Fauna, ONG que trabalha em parceria com o Ibama e a polícia federal no combate ao comércio ilegal de animais. Ela não sabe se os pássaros no quintal ao lado estão lá ilegalmente, mas as chances são grandes: de acordo com a SOS Fauna, cerca de 38 milhões de animais silvestres são retirados da natureza todo ano. Mesmo assim, a bióloga topou não conferir a procedência dos bichinhos, a pedido do pai, que preza a harmonia entre os moradores da Granja Viana – região próxima a São Paulo com abundância de área verde.

Mas profissionalmente Juliana Machado Ferreira, 31 anos, está acostumada a bater na porta de desconhecidos para resgatar papagaios, iguanas, tucanos e outros bichos engaiolados como pets.

Ela recebe a reportagem da Tpm na casa em que mora com os pais, cercada por uma piscina e um jardim. É lá também que escreve a tese de doutorado pela USP, e faz questão de citar que é orientada pelo coordenador do Laboratório de Biologia Evolutiva e Conservação de Vertebrados, João Morgante, “meu segundo pai”. No trabalho, ela investiga a possibilidade de usar a genética para descobrir os locais de origem dos pássaros apreendidos em São Paulo. Escolheu o tema por desconfiar que alguns bichos podem sofrer alterações no DNA quando fora de seu habitat, o que desequilibraria o ecossistema. Foi sobre isso que Juliana discursou no TED (organização internacional sem fins lucrativos que tem como objetivo divulgar em suas conferências “ideias que valem a pena”), em 2010.

Apesar de toda a atividade, só agora a bióloga começa a ter noção da relevância de suas ideias e ações para o Brasil – e para o mundo. Juliana diz ter se surpreendido quando foi aceita pelo TED. “Tanta gente fazendo trabalhos importantes pelo mundo, por que eu seria escolhida?”, pondera. A resposta veio no dia em que palestrou e, na plateia, estavam figuras como Bill Gates e Al Gore (que foi cumprimentá-la ao final). “O nervoso que senti antes foi indescritível, mas o que dá força é a paixão em passar a mensagem. E a plateia sabe que uma menina, como eu, fellow, não é uma speaker profissional”, conta ela, que é fluente em inglês graças a cursos, viagens e aos pais, que mostravam a ela, ainda criança, letras de músicas de Rolling Stones, Beatles, Bob Dylan, entre outros, junto das traduções. O posto de fellow, ao qual ela se refere, é direcionado a jovens a partir de 18 anos, principalmente da América Latina, Ásia, África, Caribe e Oriente Médio.

O premiado urbanista e arquiteto americano Mitchell Joachim, professor da Universidade de Nova York e também palestrante, foi outro encontro marcante. “Juliana tem um cérebro para ciências biológicas do tamanho do monte Aconcágua e um coração aquecido para combinar. Não consigo pensar em um indivíduo mais dedicado e altruísta para frear o tráfico de animais silvestres”, dispara. Quem convive com ela, como Marcelo Rocha, fundador da SOS Fauna, também destaca sua coragem e seu comprometimento. “Nesses 23 anos de SOS Fauna, ela é uma das raras pessoas que assumem qualquer tipo de atividade que nos propomos a fazer”, comenta.

"É uma vaidade ter um animal ali para seu deleite. Falam: 'Ah, mas eu gosto de ouvi-lo cantar...' Então compra um CD!"

Na ONG, o trabalho de Juliana tem um quê de heroico, afinal resgatar os animais que vivem sob condições ilegais e devolvê-los à natureza significa, no limite, contribuir com a preservação do ecossistema. Mas, se você não sabe exatamente o que entra na lista negra de Juliana e está ficando preocupada com o passarinho que aquela sua tia guarda numa gaiola, ela alivia: “Não é preto no branco”. Alguns bichos silvestres são vendidos por criadores certificados pelo Ibama, como são, pelo menos em teoria, as lojas especializadas. Além disso, o tráfico de fauna não é descrito na legislação, então quando alguém é pego porque vende ou domestica bichinhos sem autorização acaba, no máximo, pagando uma multa ou prestando serviço. Mas Juliana, que já ajudou a resgatar cerca de 600 animais em cinco anos na SOS Fauna, não entende o que tem de tão legal em engaiolar um bicho silvestre. “Não suporto quando falam ‘amo a minha arara’. Quem ama não prende, como nos relacionamentos humanos. É uma vaidade ter um animal ali para seu deleite. Falam: ‘Ah, mas eu gosto de ouvi-lo cantar...’. Então compra um CD!”, indigna-se.


Mulher Maravilha

Nas missões de resgate em delegacias e feiras de animais, a bióloga já ficou cara a cara com “bandidões” que enchem caminhões e depósitos com aves e outros bichos para faturar em cima da venda ilegal. O dia em que sentiu mais medo foi em uma apreensão numa feira de rolo, na periferia de São Paulo, em 2010. “Deu um corre-corre com os policiais e apareceu um cara com uma marreta de pedra ameaçando bater na viatura. O policial ao meu lado sacou a arma. Minha perna ficou tremendo uns três dias”, lembra. Felizmente não houve tiros e ela voltou para casa ilesa.

Na etapa seguinte de trabalho, mais um perrengue: encontrar lugar para acomodar os animais que precisam ter a saúde e o comportamento avaliados antes de serem devolvidos à natureza. Não dá para simplesmente soltá-los no meio do mato. Muitas vezes, eles nunca voltam a ter condições de viver em seu habitat. Por causa disso, já estão lotados os mais de dez galpões da SOS Fauna (que ficam em Juquitiba, interior de São Paulo).

Em casa, Juliana cria dois cachorros que pegou na rua – um deles está sempre andando atrás dela. Filha de mãe advogada e jornalista e pai publicitário, é sobrinha da escritora Ruth Rocha e cresceu dividindo a atenção entre livros e natureza. O fato de morar com os pais é uma decisão ancorada em sua paixão profissional, já que, por ora, sua única renda é a bolsa do doutorado, cerca de R$ 2 mil.

Raízes e asas

Mas ela é bicho solto por natureza. Seu pai, Neil, percebeu isso cedo. “Quando ela tinha 2 anos, estava resmungando até com o cachorro, e falei para fechar a boca. No mesmo instante ela abriu a boca inteira para mim. Me vejo nela quando ela está de mau humor, brigando com todo mundo”, diz, rindo. Ele e a mulher alimentaram desde cedo o espírito aventureiro e libertário da filha: aos 4 anos, fez sua primeira viagem sozinha, para uma fazenda com a turma da escola. Seguiram-se visitas a destinos como Pantanal e Patagônia, em excursões, às vezes na companhia do único irmão, mais velho. “A Ju subia em árvores, pegava galinha no colo, gostava de cachorro, gato”, lembra a mãe. Foi, então, um presente quando, aos 24 anos, os pais de uma amiga a convidaram para um cruzeiro em Galápagos, berço da teoria de Darwin. Dois anos depois, outro convite, dessa vez de um amigo, a levou para uma temporada de três meses praticando mergulho profissional num barco de safári, no Egito.

Por causa do mergulho, da natação, da academia e da ioga, Juliana tem o corpo desenhado. Ela o deixa à mostra enquanto se troca para a sessão de fotos. Mas estar à vontade com a própria imagem é conquista recente. Durante anos, sentia-se feia e deslocada. “Pensava que ninguém gostava de mim. Achava minhas amigas mais bonitas que eu. Deixei de sair com muito menino que mais tarde descobri que queria sair comigo!”, conta. Essa fase passou e agora ela se prepara para mudar para Manaus, onde mora o namorado, um geólogo que conheceu na USP. Os dois estão juntos há 12 anos e, no início da relação, ela queria mais liberdade para sair, viajar, enquanto ele era mais caseiro e ciumento. “Agora encontramos um balanço”, garante.

Caminho do meio

Encontrar o caminho do meio é uma vocação também na profissão. Enquanto no ambiente acadêmico Juliana é considerada ativista demais porque vai a campo, pelos colegas de apreensão é vista como preciosista pelo tempo que passa no laboratório – em 2010, conseguiu ainda um estágio de 15 meses no National Fish and Wildlife Forensis Laboratory, em Ashland, no Oregon (EUA). É o único laboratório do mundo dedicado exclusivamente ao combate contra crimes à fauna. Mas isso deixou de ser uma preocupação para ela quando conheceu, no TED, Mike Bezos, padrasto de Jeff Bezos, criador do site Amazon. “Sempre ouvi que cientista tem que ser blasé, não pode ser apaixonado. Até que o Mike Bezos falou: ‘Gostei do seu trabalho, mas do que mais gostei foi a sua paixão’. Aí eu disse: ‘Mas vivem me dizendo que tenho que diminuir o volume’, e ele respondeu: ‘Não ouça essas pessoas, porque não foram elas que chegaram até aqui’.” A bióloga agora vibra com uma nova conquista: está prestes a abrir com três sócios, ainda este semestre, o braço brasileiro da Freeland Foundation, que luta contra o tráfico de fauna (e a escravidão humana). Sua ideia é fazer parcerias com outros agentes interessados no combate ao tráfico de animais, pesquisas de campo e, finalmente, pagar as contas com seu trabalho.

Maquiagem: Jonatan Nunes (Capa MGT)

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