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Preservem nossas matas

Moça, sossegue: pêlo é assim mesmo – hoje cresce, amanhã cresce mais, e depois de domingo ninguém sabe o que será. Mas nenhum homem de verdade vai perder tempo pensando se você está ou não depilada ou de mais ou de menos

Preservem nossas matas

em 5 de fevereiro de 2007

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Moça, sossegue: pêlo é assim mesmo – hoje cresce, amanhã cresce mais, e depois de domingo ninguém sabe o que será. Mas nenhum homem de verdade vai perder tempo pensando se você está ou não depilada ou de mais ou de menos…

Por Ronaldo Bressane*

­– E aí, catou?
­– Catei. Tá rolando!
­– Como ela é?
­– Virilha cavada, saca? Começava aqui e terminava aqui, ó. Aparadinha, nem se sente.
­– Hum, bacana. Mas eu me amarro mesmo é em virilha modelada.
­– Tipo artística? ­
– Essa memo. Strass é o que liga.
­– Agora… tipo assim, não era aquela coisa perfeita, saca? Tinha um pelinho aqui, outro ali… ­
– Dá um toque pra ela, tem um centro novo de depilação que abriu perto de casa. Uma amiga falou que usam eletrólise, fica mais classe.
– Massa. Passa o número pra mim. Será que eles fazem artística com silhueta?
­– Tipo o desenho da tua cara? Acho que sim.
­– Animal! Descolaê.
­– Firmô.

Sossegue, moça. O diálogo acima é mera peça de ficção. As conversas entre homens (homens e ponto, não precisa metrossexualizar, retrossexualizar nem dircexualizar o substantivo masculino, cazzo) descem a detalhes escabrosos e extremamente particulares quando comentam sobre as moças com quem estão começando a, hum, sair (nunca vou entender este uso para o verbo). E, claro, depois que as “saídas” viram namoro ou casório, jamais irão tocar no assunto.

Agora, nem no mágico comecinho irão abordar nas cervejadas cafajestes o aspecto estético relativo aos pêlos genitais, ou, como o brutalista Rubem Fonseca curte usar, a famosa pentelheira. A não ser quando em total ausência ou na ocorrência demasiada. Ainda me lembro da foto frontal de Claudia Ohana em todo o seu esplendor amazônico, em uma Playboy do início dos anos 80, ou, em outra Playboy histórica, o blonde power de Vera Fischer. Fico pensando se até essas rai­nhas da selva terão aderido a essa fascista moda que pretende reduzir o mistério de um Triângulo das Bermudas original a um prosaico campo de golfe, todo tediosamente aparadinho.

­– Reparou como estou diferente?
­– Hummm… deu uma repicada no cabelo, né?
­– Não, isso foi semana passada. É outra coisa… Silêncio. ­
– Pra mim você está linda como sempre. Talvez, mais brilhante hoje…
­– Está dizendo que minha pele está gordurosa? Não, não é isso…
­– Não, não é isso… por que pergunta? ­
– Tem um detalhe… deixa pra lá.
– Ela se vira, alcança a garrafa d’água no criado-mudo, olha para suas roupas jogadas ao pé da cama. Manda um golão e suspira fundo.
– Bom, acho que eu já vou indo…

Não, moças, como diz meu compadre Xico Sá, na hora do arrocho, homem que é homem não sabe a diferença entre celulite e estria. Isso não quer dizer, claro, que homem que é homem não se delicie com os detalhes, as diferenças, as pentelhésimas particularidades. Mas, em um mundo normal, uma cena como a seguinte tem pouca chance de acontecer…

­– Hummm. ­
– Que foi, querido? Tudo bem, se não estiver a fim…
­– Não, até estou a fim… é que… bom… ­
– O quê? Cansado, né? Stress? Você anda trabalhando demais…
­– Nem, hoje até foi leve…
­– O que, então? Alguma coisa comigo?
­– Hum… não, amor. Acho que sou eu, não é você. ­
– Você quer discutir nossa relação?
­– Não, não, pelo amor de Deus… mas eu queria discutir… quer dizer, conversar… uma outra coisa… ­
– O quê? ­
– São… um… são seus… seus…
­– O quê??? ­
– Seus pêlos, amor. São seus pêlos.
­– O que é que tem meus pêlos??
­– Bom, eles… é que… eles estão um pouco crescidos. Estão me arranhando… ­
– Hein?
­– E o desenho deles, sabe… não rola. Não consigo…

Creio que nossa bizarrice moderna ainda não che­gou nesse nível. Mas me encafifo e retorno à famigerada magazine de Hugh Hefner para pentear a questão. Terá o excesso de Photoshop aplicado ao veludo das peladas, praticado por designers pedófilos e diretores de arte oligo-higienistas, induzido as moças ao ritual de sacrificar seus cabelinhos na cera assassina? Afinal, de onde as mulheres tiraram que o quente agora é se transformar em menininhas imberbes? Lembro-me de um conto de Alberto Mo­ravia em que um professor ta­rava na genitália lisa de uma aluna, só para descobrir que depois, ela era… acompanhe.

Valentina diz: q texto vc tá escrevendo aí?
Bressane/Ronaldo Mr. diz: sobre pêlos
Valentina diz: já foi moda, né
Bressane/Ronaldo Mr. diz: é, pêlo datou
Valentina diz: q coisa, né
Valentina diz: eu fico pensando q houve uma época em q nem se pensava q isso poderia acontecer
Bressane/Ronaldo Mr. diz: é justamente isso q estou escrevendo!
Valentina diz: faz pouco tempo ou estamos velhos?
Valentina diz: outro dia mesmo eu tinha pêlos e achava algo bem normal
Bressane/Ronaldo Mr. diz: pq ñ tem mais?
Valentina diz: não disse q não tenho.
Bressane/Ronaldo Mr. diz: hahaha
Valentina diz: só disse q antes tinha e isso não era assunto
Bressane/Ronaldo Mr. diz: antes tinha MAIS?
Valentina diz: claro q tinha mais
Bressane/Ronaldo Mr. diz: com a idade, caíram?
Valentina diz: sei lá o q houve. mas os pêlos foram indo pro saco!
Valentina diz: hahahahaha
Bressane/Ronaldo Mr. diz: hahahaha
Valentina diz: não resisti
Bressane/Ronaldo Mr. diz: vai ver eram os hormônios
Valentina diz: as depiladoras ficaram muito mais pornográficas, isso sim
Valentina diz: são todas umas taradas!
Bressane/Ronaldo Mr. diz: pois é, uma amiga estava dizendo isso
Bressane/Ronaldo Mr. diz: é uma intimidade muito imediata q rola, né?
Valentina diz: nossa
Bressane/Ronaldo Mr. diz: tipo, uma pessoa q vc nunca viu de repente tá de olho no teu…
Valentina diz: é a estética dos filmes pornôs, mais uma obsessão pela imagem infantilizada
Valentina diz: vc leu um Moravia onde rola um fetiche de pedofilia?
Bressane/Ronaldo Mr. diz: escrevi justamente isso agora há pouco…
Bressane/Ronaldo Mr. diz: ele tem um fetiche por uma aluna toda depiladinha
Bressane/Ronaldo Mr. diz: um conto de A Coisa e Outros Contos
Valentina diz: isso
Valentina diz: ela é criança acho
Bressane/Ronaldo Mr. diz: nem é
Valentina diz: não?
Bressane/Ronaldo Mr. diz: ela é o DIABO!
Valentina diz: isso!!!!!!!!!!!!
Bressane/Ronaldo Mr. diz: lembra?
Valentina diz: claro!!!!
Valentina diz: voltando ao assunto pêlos, nós mu­lheres estamos enlouquecendo, cara
Valentina diz: e isso sim é sério
Valentina diz: mas agora tenho de ir
Valentina diz: tenho depilação hahahaha
Valentina diz: bjs

Relaxe, amiga. Pêlos são bacanas. Misteriosos. Hipnóticos. Psicodélicos. São sempre um assunto – tanto nos mágicos comecinhos, quanto nos sutis divertimentos pós-petite mort. Não troque uma tarde preguiçosa por uma sessão dolorida no Instituto Vanessa, pensando na impressão que vai causar à noite. Se algum sujeito se preocupa tanto assim com um pêlo, não vale um fio de cabelo seu.

* Ronaldo Bressane é redator-chefe da revista Trip e defensor da biodiversidade

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