por Ellen Oléria
Tpm #141

Para a cantora Ellen Oléria, 31, vencedora da edição de 2012 do The Voice Brasil, assumir as diferenças é o primeiro passo para derrubar o preconceito

“Passei a vida apagando da memória os episódios de racismo que sofri, não vou mentir. Nenhum deles foi sutil. Sempre sofri discriminação por ser negra, tudo na minha cara, explícito. A diferença é que eu aprendi a ser defensiva: quando a violência verbal era pesada, eu respondia com agressão física. E batia muito, principalmente nos meninos. Meus pais diziam que a gente não podia voltar chorando pra casa, então eu batia mesmo. E as brigas sempre começavam com piadas sobre meu cabelo, meu peso, minha cor.

Nasci e ainda moro em Brasília. Cresci entre duas cidades-satélites, Taguatinga e Ceilândia, em um ambiente brutal. Sou a caçula de uma família de três filhos. Meu pai morou conosco até os meus 9 anos, depois quase não tive contato com ele. Durante muito tempo, consideramos nossa mãe não só mãe, mas mãe e pai. Dona Eva ainda é a grande mulher inspiradora da minha vida, e nunca silenciou perante o racismo. Lembro dela passando noites na fila de matrícula da escola para garantir vaga pra gente – fazia isso quando éramos preteridos.

Conversávamos sobre tudo em casa. Me lembro de perguntar: ‘Se eu tomar muito leite, fico branca?’. Disse que queria ser branca pra ser modelo, que nunca tinha visto uma modelo negra. Minha mãe garantiu: ‘Você vai ser a primeira’. Outra vez, eu e minha irmã voltávamos da escola e uns garotos começaram a apontar e rir: ‘As meninas pretas! As meninas pretas!’. Ela gritou pra eles: ‘Vocês deviam olhar debaixo da saia da mãe de vocês pra ver se encontram algo mais colorido’.

Penso que sou uma espécie de intersecção de processos discriminatórios. Sou mulher, lésbica, gorda e negra. Nenhum é mais expressivo que o outro, cada um tem sua especificidade. Mas eu posso não dizer que sou lésbica ou me passar por homem – isso já aconteceu muitas vezes –, o recorte econômico também não precisa ser exposto, e posso perder peso até, mas não posso esconder minha negritude. Sou negra, aqui ou em qualquer lugar.

 

“Quando a violência verbal era pesada, eu respondia com agressão física”

 

O racismo nunca me enfraqueceu. Na verdade, alguns eventos me fortaleceram muito. Talvez o fato de estar na música sempre tenha me garantido um trânsito mais tranquilo. Outras mulheres negras vieram antes para garantir meu lugar. Minha geração é feliz porque colhe frutos de uma luta antiga. A música é um espaço legitimado.

O problema não é alguém desgostar de mim pelo que sou, mas eu ter meu direito de ir e vir cerceado, ter reduzidas minhas chances de participar de qualquer coisa por conta do ódio de alguém. Chega de a gente fingir que todo mundo é igual. Não somos. Por que é preciso negarmos a diferença pra podermos nos respeitar? Uma vez me disseram: ‘Eu não vejo cor’. Respondi: ‘Por quê? Você tem algum problema de visão? Veja a cor! Eu sou assim, sou preta’.”

Ser negra no Brasil é (muito) foda: Da atriz Juliana Alves à ministra da igualdade racial Luiza Bairros: mais de 50 mulheres discutem o que é enfrentar machismo e racismo ao mesmo tempo

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