por Bartira Bejarano
Tpm #97

No país das ondas perfeitas, a roteirista Bartira Bejarano reencontrou grandes amigas

 

Viajar muito tempo de avião nos faz perder a noção da hora. No entanto, sabia que era meia-noite porque acabara de carimbar meu passaporte em Bali após um dia na África do Sul e outro na China. Dois minutos depois estava assistindo às malas passarem na esteira do aeroporto. O tempo passava, o corpo cansado pesava, avistei as pranchas, alívio. Mas nada da minha mala. Assim aterrissei na Indonésia: sem mala, sem fuso e arrastando as pranchas até o primeiro táxi.

Chegar a Bali só com a roupa do corpo foi um choque. Já no hotel em Jimbaran, praia próxima ao aeroporto, lembrava da minha mala a cada segundo. O dia amanheceu e eu sem aquele pedaço de casa que trouxera comigo. Fazia muito calor, andei desnorteada por Kuta, bairro da ilha onde se concentra a maioria dos comércios, tentando comprar o que me faria falta, e a cada esquina descobria a natural desordem da cidade – permeada por um mar perfeito.

Nos primeiros dias, as ondas estavam bem acima dos meus limites; aliás, a Indonésia é o melhor lugar para testar os seus limites, sejam eles quais forem. Enfim, a mala chegou, dois dias depois, eu já tinha alugado um jipe e me perdido pela ilha. Encontrei grandes amigas da faculdade: Virginia e Carol, que moram na Austrália há, respectivamente, dois e cinco anos, me esperando em um dos bangalôs de Padang Padang, praia da região do Bukit (local que abriga as ondas mais conhecidas da ilha).

Percebi, então, que Bali podia ser um não paraíso rodeado por incontáveis bancadas de coral e infinitas ondas, macacos, motos, lagartos, ratos, turistas, templos, incensos, massagens, cigarros de cravo, ofertas, oferendas, estátuas, pratas, pedras, cavernas, florestas. De repente, às sete da manhã, um terremoto me acorda bruscamente, confundindo o chão e comovendo as pilastras do bangalô. Mesmo um pouco assustada, naquela hora senti toda a energia que pulsava na ilha – e que eu ainda não tinha conseguido canalizar. Existia uma magia no ar, tudo era intenso. Uma viagem impossível de relaxar, cada dia um novo caminho e uma aventura. O mar nunca havia me exigido tanto. E eu me perguntava qual seria a definição de paraíso. Inferno?

Mais de uma semana se passou e não saímos da região do Bukit, embaladas numa rotina de surf de causar inveja. Só que a Indonésia é o maior arquipélago do mundo e se divide em 13.677 ilhas banhadas pelo quente oceano Índico. Precisávamos explorar mais.

Optamos pela ilha de Java, ansiosas em conhecer a baía de Grajagan, apelidada de G-Land, famoso destino de surfistas ao sudeste de Java. Pouco antes de partir, Carol muda a rota para as ilhas Mentawai, em Sumatra, norte do país, e passa dias em um barco pegando ondas com novos amigos: tudo acontecia de repente, era difícil manter um roteiro. Eu e Virginia partimos à noite em uma van que viajaria madrugada adentro até atravessar a balsa que liga as duas ilhas.

O primeiro dia foi complicado: peguei a maior variação de maré já vista, mosquitos, banheiro a céu aberto e água salobra no “chuveiro”. Mas logo me adaptei àquela baía de corais, que é extremamente privilegiada. Uma máquina de ondas perfeitas que parece nunca acabar. Uma vez nelas, sentia uma energia inigualável, que pairava pelo ar e invadia os surfcamps.

Deixar a G-Land foi difícil. Depois de uma semana inseridas nessa natureza brutal, enfrentamos um dia de viagem, desta vez à luz do dia. Pudemos ver dezenas de vulcões ativos que se enfileiram formando uma paisagem incomum.


E lá estávamos nós em Kuta novamente, desviando das motos nas ruas estreitas e procurando um hotelzinho até decidir o próximo destino. Mas não duramos muito em Bali, partimos rumo à praia de Sanur e lá embarcamos para a pequena ilha hindu Nusa Lembongan. A travessia se fez sobre um dos canais mais profundos do mundo. Já na ilha, sou perfumada pelo cheiro das algas, característico do lugar, e surfo, em Shipwrecks, uma das ondas mais difíceis em que já estive. Como se não bastasse a força, ela quebrava em cima de uma bancada de corais afiados e de um navio naufragado. Depois veio o Nyepi day, o religioso “dia do silêncio”, em que não é permitida nenhuma atividade no mar. Tivemos que esperar o dia seguinte para voltar a Bali.

De volta ao bangalô de Padang Padang, sentia-me adaptada. Era a minha última semana e não queria ir embora. Carol já havia chegado de Mentawai cheia de histórias e Virginia já estava de volta à Austrália. Deixei o país em uma tarde de vento sul, certa de que eu havia conhecido, sim, o paraíso.

 

*Bartira Bejarano, 27 anos, é roteirista e sócia da Pipa Filmes, surfista e também professora particular de francês

 

DICAS
Quem leva Viajei pela South African até Hong Kong, parando em Johannesburgo, e a Cathay Pacific completou a viagem até Dempassar, em Bali. Foram dois dias para chegar (26 horas de voo mais o tempo das escalas). Você pode levar um pacote com até três pranchas. Sugiro pernoitar em uma das escalas para ir se acostumando com o fuso horário. South African Airways, R$ 4.465,50. Ao chegar a qualquer aeroporto da Indonésia, é cobrada taxa de R$ 47,50 para o visto de um mês.

Onde ficar A praia de Jimbaran é excelente para estada inicial em Bali por ser próxima ao aeroporto, ao lado de Kuta e no caminho para Bukit. Sari Segara Resort Villas & SPA , (62 361) 70-3647. Diárias a partir de R$ 237, com farto café da manhã. No Bukit, sugiro o Ayu Guna Inn, (62 361) 847-0687. Diárias a partir de R$ 15, sem café. Prefira os bangalôs aos quartos com pouca ventilação. Em Kuta, o New Arena Hotel é uma boa pedida, com diárias a partir de R$ 28, (62 361) 75-2974. A Clickhoteis oferece hospedagem no mundo todo. Reservas (11) 2196-2900. Em Kuta, há o Santika Premier Beach Resort, com diárias a partir de R$ 255, e o Kuta Beach Club, com diárias a partir de R$ 108, (62 361) 75-1261. Em G-Land, o G-Land Surf Camp tem a melhor localização. Reservas: Bali Sales Head Office, Poppies Lane II, (62 361) 75-0320. Pacotes de uma semana saem a partir de R$ 811.

Surf O surf na Insonésia é para quem tem experiência e preparo físico. As ondas quebram em bancadas de corais, são rápidas, longas e muitas vezes tubulares. Em Bali, as praias de Balangan e Serangan são mais tranquilas para os iniciantes. Tenha sempre uma tábua de marés em mãos e prefira cair na água na maré cheia. A melhor época para surfar é a dry season, de abril a setembro. Providencie pranchas maiores com bastante remada, mais de uma cordinha grossa e a botinha de neoprene para se proteger dos corais, que é fundamental.

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