por Martha Medeiros
Tpm #121

Em abril, a escritora Martha Medeiros visitou o Atacama. Aqui ela conta o que viu por lá

Pra quem gosta de roteiros menos óbvios, o deserto do Atacama, no Chile, é uma pedida sem erro. Qualquer época é a ideal para aterrissar em sua paisagem lunar – não por acaso a Nasa utiliza o local como laboratório de testes.

Uma vez lá, muda-se o olhar, muda-se de pele. A terra penetra no corpo e a aridez consolida nosso primitivismo como se fosse um carimbo de entrada.

O vilarejo de San Pedro de Atacama tem muitas pousadas simples, mas, para quem prefere rusticidade com sofisticação, indico o Hotel & Spa Tierra Atacama, cujos quartos dão vista pro vulcão Licancabur.

Entre os passeios obrigatórios está o vale de La Luna. O vento esculpiu uma paisagem singular e alaranjada que contrasta com o céu de azul intenso. Deserto em technicolor.

Reserve um entardecer para o Salar do Atacama. A variação de cores refletidas nas montanhas é alucinante, parece que estamos dentro de um quadro. O local é repleto de cristais de sal e frequentado por flamingos, dezenas deles.

Passeio bacana foi o trekking pelo valle de Guatin, cuja atração são os cactos gigantes. A caminhada não é fácil, avança-se por pedras úmidas, margeia-se um rio, e o desafio é ficar de olho no caminho sem deixar de observar a vegetação hostil e deslumbrante. Momento Indiana Jones.

Encarei também uma cavalgada de duas horas no deserto. A primeira hora foi moleza, e o visual, pra variar, era de enlouquecer. Na segunda, a ficha caiu: está pensando que é Athina Onassis? Doíam as costas, doíam as pernas, e a bunda, sem comentários. O visual? Que visual?

No último dia, meu namorado resolveu escalar o Toco, um vulcão alto e íngreme, que exige preparo físico adequado. Ele fuma três carteiras por dia. Adequadíssimo. Peguei outro rumo e fui conhecer as famosas lagunas altiplânicas, que ficam a uma altura também considerável, 4.000 metros acima do nível do mar.

Quanto ao vilarejo de San Pedro: bem- vindos ao faroeste. A rua principal, Caracoles, de terra batida, tem agências de excursões, lojas de artesanato e alguns restaurantes, sendo o Adobe o mais animado, com uma fogueira no meio. E os botecos são lotados de aventureiros – San Pedro é o point da azaração.

Compras? Pra quem está nessa vibe, melhor trocar de destino.

O Atacama é o deserto mais alto do mundo, então rola, sim, um desconforto. Eu acordava várias vezes durante a madrugada com a boca ressecada e uma ligeira falta de ar. Recomendam dormir com dois travesseiros, e que melhor ainda é dormir sentado. A segunda opção passo: me sentiria uma índia velha. Mas os dois travesseiros, aprendi.

Queria ter ido de bicicleta até a laguna Cejar (uma pedalada de 18 quilômetros), mas as pernas já não me obedeciam. Em minha última manhã, fiquei à beira da piscina do hotel curtindo a paisagem mágica à minha frente. No deserto, o meio ambiente é tão soberano que ninguém se atreve a violar seu aspecto selvagem. A anatomia da cordilheira, a luminosidade, a profusão de estrelas no céu, o contraste entre a dureza mineral do solo e a leveza do ambiente, tudo é um convite à reverência. Só a natureza se exibe, só ela se impõe. Não passamos de humilde plateia.



Vai lá: Tierra Atacama Hotel & Spa – www.tierraatacama.com

Martha Medeiros é escritora e já publicou 21 livros. O próximo, Um lugar na janela, sairá pela editora L&PM no segundo semestre

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