por José Ivan de Lima
Tpm #78

Ginecologista fala sobre os prós e os contras do parto normal e da cesárea

A discussão entre os prós e os contras do parto normal e da cesárea não pode ser vista apenas pela lente dos que acham que “é natural, é bom”. Tudo bem: o parto normal sangra menos, tem menos risco de infecção, em geral a mulher tem uma melhor recuperação etc.

Não podemos esquecer que houve um avanço muito grande nos últimos anos no que diz respeito a antibióticos, analgésicos, anestésicos e técnicas anestésicas, quando estes são empregados na obstetrícia. Num parto normal com analgesia, a parturiente fica realmente tranqüila, e o acompanhante não fica tão estressado, uma vez que ele não presencia o sofrimento da gestante, as contrações dolorosas, a angústia e, muitas vezes, o medo estampado no rosto da parturiente. Até para a equipe médica, tudo flui com mais tranqüilidade.

Considero um retrocesso a gestante que mora em uma localidade onde dispõe de boas maternidades e berçários optar por parto domiciliar. Em obstetrícia aprendemos que o feto nasce com, sem e apesar do médico. Porém, não podemos esquecer que a pronta intervenção do obstetra em face a complicações do parto tem salvado muitas vidas. E essas complicações não avisam quando vão acontecer, cada minuto é muito importante na condução do caso. Todos já viram ou conhecem alguém que teve uma seqüela de uma anoxia cerebral, que ocorreu durante o trabalho de parto – é irreversível.

Outro lembrete: no parto normal, por mais que se tenha cuidado na prevenção da ruptura perineal, esta vai acontecer em maior ou menor grau, e, no futuro, essa paciente vai apresentar distopia (anormalidade) de bexiga, ou de útero, ou de reto, ou associações entre bexiga, útero e reto, principalmente nas multíparas (vários filhos). Qual a conseqüência? Incontinência urinária, deslocação do útero, incontinência fecal (rara), vagina “folgada”...

Com relação à cesárea, há de se considerar o seguinte: a chance de complicações fetais são menores (e até materna, dependendo de quem realiza o ato); a limpeza adequada da cavidade uterina diminui a incidência de retenção de restos placentários, diminuindo assim a duração e a quantidade da loquiação (sangramento proveniente da ferida placentária) e contribuindo para um menor risco de endometrite (infeções de cavidade uterina). O uso de bons analgésicos anestésicos usados na anestesia garante que a puérpera sinta menos dor no pós-operatório imediato, permitindo assim uma deambulação precoce e uma melhor recuperação pós-cesárea.

Falando da realidade crua do dia-a-dia do obstetra, vejamos o seguinte: na reportagem, é citado que uma das obstetrizes consegue cobrar mais de R$ 2.500 para fazer um parto. Parabéns! Pois bem: o obstetra tem que ter um consultório, tem que manter esse consultório pagando salários de funcionárias, taxas, impostos... e trabalhar para convênios. E vai receber por um parto normal ou cesárea, em média, R$ 300 a R$ 400, se for enfermaria, ou o dobro se for apartamento – e vai receber após um a dois meses, se o convênio não censurar o procedimento. E ainda tem que passar visitas todos os dias enquanto a paciente estiver internada, de dois a três dias. Um parto normal de primeira gestação dura em média 12 horas. Para acompanhar a gestante em trabalho de parto, o obstetra tem que cancelar as consultas agendadas ou faltar no seu emprego. E o que ele vai ganhar no parto não cobre nem uma coisa nem outra!

É muito “natural” ter parto domiciliar! Só que a parteira não faz o pré-natal, não trata as intercorrências clínicas e/ou cirúrgicas que surgirem no pré-natal e também não assume as complicações decorrentes do trabalho do parto.

* José Ivan de Lima é ginecologista obstetra há mais de 25 anos e, por trabalhar por muitos anos em hospitais que atendem um público de baixa renda, adquiriu grande experiência em partos normais. Gosta de realizá-los, desde que não haja o menor risco de complicações


Essa matéria é parte integrante da reportagem sobre parto em casa publicada na Tpm 78, de julho de 2008


Resposta da Redação:

Prezado José Ivan,

Agradecemos a gentileza de contribuir com nosso trabalho, expondo seu ponto de vista, de maneira sincera e informativa, em relação à reportagem sobre parteiras que publicamos na revista e no site da Tpm, em julho.

Não queremos aqui entrar numa discussão de quem está com a razão, até porque não acreditamos que um ponto de vista invalide o outro. Ao contrário, seu texto enriquece o nosso, soma ao nosso trabalho, já que traz à tona outros lados da questão e as conclusões de um médico experiente no assunto.

Vale reforçar que nós reconhecemos a validade – e até necessidade – da cesariana em determinados casos. De modo nenhum duvidamos da contribuição que os avanços tecnológicos e médicos dão para as mulheres e para a sociedade em geral. Com aquela matéria, pretendemos apenas expor uma outra realidade, levar informações às leitoras sobre um assunto tão corriqueiro e, ao mesmo tempo, sobre o qual muita gente não tem conhecimento. Por exemplo, desmistificando supostos empecilhos ao parto natural.

Nosso objetivo era chamar a atenção para o tema, num momento em que a cesariana, procedimento recomendado em 15% dos casos, passou a ser usado em 43% dos partos, muitas vezes por motivos outros que não a indicação médica e o intuito de preservar a saúde da mãe e do bebê. 

Justamente para não esbarrarmos na irresponsabilidade, fizemos isso com respaldo de dados de fontes como Ministério da Saúde e Organização Mundial de Saúde. 

Um abraço, 
Redação Tpm.

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