Na CNN Brasil,
Luciana Barreto não
quer ser a Ӊncora
negra”

por Dandara Fonseca

Jornalista e mestre em relações étnico-raciais, a carioca fala da falta de negros nas redações, representatividade, racismo e maternidade

Luciana Barreto não quer ser uma história única. Ela não deseja ser conhecida como a âncora negra da CNN, comparada à jornalista Maju Coutinho e muito menos ser tratada como uma super mulher que, por mérito próprio, chegou onde está hoje. "Quero apenas que esses espaços sejam democráticos para que todas acessem", explica. 

A opção pelo jornalismo nasceu da urgência de mostrar o que acontecia na Baixada Fluminense, região onde nasceu. "Eu e minha mãe vimos um barraco pegar fogo com duas crianças e isso não era notícia. As mazelas periféricas não eram notícia", conta a apresentadora. "Fui crescendo com o sonho do jornalismo para denunciar os problemas sociais". A partir daí, nem a rotina acordando às 3 horas da manhã para chegar às 8 horas na PUC-RJ, onde estudou como bolsista, a desanimaram. 

Conforme crescia na carreira e ocupava cada vez mais espaços de poder, Luciana percebeu que precisava estudar a fundo as relações étnico-raciais no Brasil. Em seu mestrado, mergulhou numa pesquisa sobre o discurso de ódio contra negros nas redes sociais, tentando entender as raízes dessa violência para oferecer uma forma de combate. 

Hoje, aos 43 anos, sua militância vai desde palestrar sobre diversidade para grandes CEOs do país até ensinar coisas básicas aos seus colegas de trabalho. "Brinco que quando entro em um lugar novo faço um trabalho gratuito de letramento racial. Vou falando, plantando uma semente para eles entenderem", conta. "Quando você abre a mente da pessoa branca dentro das redações, é um mundo sem volta. É como se você tivesse tirado uma lente do rosto."

Prestes a estrear na nova emissora, conversamos com Luciana sobre o avanço – ou retrocesso – do debate das questões étnico-raciais no Brasil, maternidade e o Visão CNN, programa em que ela quer continuar fazendo o que acredita ser sua missão de vida: representar diferentes olhares no jornalismo. 

Tpm. Em vídeo produzido pela CNN, você se emocionou ao relembrar sua origem periférica. O que significa para você chegar ao posto de âncora de uma emissora internacional? 

Luciana Barreto. Na festa de lançamento da CNN, quando estava falando e olhei para baixo vi o Vice-presidente, o Presidente da Câmara, o Presidente do Senado e um filme passou na minha cabeça. Um filme da minha origem, de toda essa história periférica, de tentar acessar muitas vezes esses locais de poder para falar sobre determinados assuntos. É um momento muito especial. Não digo mágico porque precisamos batalhar muito. O que eu queria frisar é a importância da gente parar de falar das histórias únicas, como a primeira pessoa a ocupar determinado cargo, porque isso leva muito ao discurso meritocrático, de que você conseguiu por esforço. Não queremos que essas histórias sejam únicas, mas sim que esses espaços sejam democráticos para que todas acessem.

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Algumas chamadas de matérias falavam que, se a Globo tinha a Maju  Coutinho, a CNN teria a Luciana Barreto. Isso reforça os perigos de uma história única, como diz a escritora Chimamanda Ngozi. Não temos que ser únicos em um espaço, até porque a gente reforça, como eu te digo, esse discurso do mérito. No meu caso é ainda um pouco pior porque tenho uma história de periferia, de pobreza, e muitas pessoas associam a uma questão quase de um ser especial, de uma super mulher, que não tem que existir.

Como foi sua infância na Baixada Fluminense e quando o jornalismo surgiu na sua vida? O jornalismo para mim é um desejo de infância e tem muito a ver com a Baixada Fluminense. Não era só sonho, era uma obstinação. Eu cresci em um lugar com muita desigualdade social, muita pobreza. Ninguém da minha família ou do meu bairro tinha acessado a universidade, fui a primeira. Eu via que a única forma de denunciar os problemas no entorno era através do jornalismo. Por exemplo: minha mãe era conselheira tutelar e vimos um barraco pegar fogo com duas crianças. E isso não era notícia, as mazelas periféricas não eram notícia. Então eu percebi ali que existia uma desigualdade no olhar para a notícia. Fui crescendo com o sonho do jornalismo para denunciar os problemas sociais. Depois de um tempo, pensei o quanto isso era desigual também no olhar das pessoas, das relações étnico-raciais. Meu jornalismo nasce como denúncia. Era um desejo de infância e foi se lapidando ao longo da minha carreira. 

Você teve apoio da sua família quando escolheu sua profissão? Como toda família pobre, eles achavam que ao você ter um pouquinho mais de capacidade intelectual você devia fazer um concurso público, pensar em ganhar um bom salário. Quando você fala que vai ser jornalista, e vêem que o salário não é alto, eles começam a pensar se não era melhor ter um cargo militar ou tentar um concurso público. Porque muitas vezes o que acontece com a pobreza é tentar garantir a sobrevivência. Mas jornalismo para mim nunca foi só uma profissão e uma forma de ganhar dinheiro. Jornalismo sempre foi minha missão de vida. 

Você sempre desejou trabalhar na televisão? Não, pelo contrário. Eu sempre quis trabalhar em jornal impresso, tinha o sonho de trabalhar no antigo Jornal do Brasil. Mas no ano em que entrei na faculdade, em 1997, ele abriu falência. Mesmo tendo bolsa de 100% na PUC, através de um projeto social, eu precisava me manter, pagar passagem. Meu trajeto era muito longo. Tinha que acordar por volta das três da madrugada porque pegava o ônibus das 4h15 para a aula das 8h. Então eu fazia vários bicos, como faxina, vender coisas, até conseguir o meu primeiro estágio, no Canal Cultura. Achava que a televisão era sempre uma transição e um dia ia chegar ao jornal. Mas fui passando de canal em canal, e em um belo momento me colocaram no vídeo. Já sabiam que era uma afeição minha, eu é que demorei a compreender. Até hoje gosto de escrever artigos, mas não foi possível manter a minha vida no impresso. 

A rotina era realmente muito corrida. Muito. Ainda fiz história ao mesmo tempo que o jornalismo, só não me formei. Tinha a PUC de manhã, à tarde eu fazia o estágio e à noite eu ia para a faculdade de história. Era enlouquecedor. Chegava em casa meia noite para acordar às 3h. Foi uma rotina louca que eu não consegui levar por muito tempo. 

E como surgiu a vontade de fazer um mestrado sobre relações étnico-raciais? Ao longo da minha carreira jornalística, por ser uma das poucas apresentadoras negras da TV, fui entendendo também um outro caminho de ativismo, que tinha a ver com mídia e racismo. Em uma viagem aos EUA, ainda no governo Barack Obama, conheci um projeto no Alabama, que tinha a ver com discurso de ódio, e me apaixonei. Era uma plataforma que ensinava aos professores e educadores de toda a rede pública de ensino do Alabama a combater o discurso de ódio, porque eles tinham uma diversidade muito grande lá. Percebi que no Brasil não tínhamos um estudo relacionado ao tema e resolvi pesquisar isso na minha dissertação de mestrado. 

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As questões étnico-raciais sempre foram presentes em sua vida? Eu acho que não existe um negro no Brasil que não é atingido por essas questões, por mais que ele fale que ele não presta atenção nos problemas sociais. Na minha casa não tinha essa discussão mas, como uma família miscigenada, havia todos os elementos das relações étnico-raciais. O tio, o primo, a tia que brinca de falar palavras racistas. Todos os elementos são postos à mesa, mas ninguém discute.

E o que você pensa sobre isso hoje em dia? A nossa racialidade é muito mal resolvida. Estudamos pouco sobre isso e agora quanto mais você trata essa questão como um tabu, quanto mais você tenta minimizar dizendo que ela não existe, mais ela se agrava. Hoje palestro para grandes empresas no Brasil e percebo que muitos CEOs estão querendo discutir e resolver o problema da diversidade, a forma de contratação dentro da sua própria empresa. Não falar sobre é a pior solução. O Brasil ainda precisa sentar à mesa para discutir as relações étnico-raciais, que são resultado de 350 anos de escravidão. 

No podcast do Trip Com Ciência você fala da importância da inclusão de pessoas diversas no jornalismo. O que se ganha com essa diferença de olhares? A pauta ganha porque a redação está sempre cheia de olhares únicos. Uma pessoa com outro olhar abre um mundo totalmente novo, que outras sequer pensaram. O jornal ganha porque ele não é mais do mesmo. Outro dia, estava vendo uma editora grande discutindo questões de tiroteios no Rio de Janeiro e todos os comentaristas tinham o mesmo olhar. Provavelmente vieram de uma mesma raiz, um mesmo tipo de educação. Eles falavam coisas que não condiziam com as ideias de muita gente igual a mim. Faltava uma visão de mundo, uma vivência. O público precisa de fatos para formular a análise na cabeça dele. Se tudo é dado com uma única visão, fica muito pobre.

Segundo dados da Énois, os cursos de jornalismo do país têm quase 40% de negros (pretos e pardos), mas esse número cai quase pela metade nas redações. Você percebeu isso onde trabalhou? Desde o primeiro momento. O tempo inteiro isso me incomodou e me incomoda. Onde eu entro faço um trabalho gratuito de letramento racial. Vou falando, plantando uma semente para eles entenderem. Você já percebeu que aqui não tem um estagiário negro? Você já percebeu que aqui não tem um profissional negro? E por aí vai. Esse trabalho, que eu brinco chamando de letramento racial, é o beabá mesmo, o básico. Quando você abre a mente dessa pessoa branca dentro das redações é um mundo sem volta. É como se você tivesse tirado uma lente do rosto, ela começa a observar o mundo de outra maneira. Já vi isso em muitos chefes. Eu brinco que faz parte constranger o branco, tirar a pessoa daquela zona de conforto. Isso serve para aquecer o nosso debate.

Como mudar essa situação? Temos que mudar os critérios da sociedade, porque muitas vezes eles são racistas. Por exemplo: se você quer contratar alguém e quer que ela chegue 5 da manhã no trabalho, você já exclui uma pessoa periférica que não tem um ônibus que comece a rodar tão cedo. É um exemplo bobo para entender como temos que pensar nos critérios que a gente utiliza para dar oportunidades na sociedade.

Temos visto muitos casos de jornalistas tendo comportamentos racistas. Um dos mais emblemáticos ocorreu com o William Waack, um dos principais nomes da CNN. Isso foi uma questão para você ao aceitar o convite? Olha, eu não falo sobre isso. Porque, além de ser uma questão um pouco mais delicada, diz respeito a um colega de trabalho e a um contrato que não foi feito por mim. Tenho questionado muito as pessoas em relação a isso porque nas redes sociais tenho sido cobrada por algo que eu não preciso responder. Para você ver como é um sistema louco, os meus pares brancos não são cobrados. É uma inversão de valores. A gente vive o tempo inteiro em uma sociedade que te exige dia e noite. Exige inclusive que você responda pelo ato de alguém, por uma contratação que não é sua, enquanto os pares seus ficam todos na zona de conforto. E eu fui questionada. Isso não é insano? Eu te pediria que a gente não tratasse desse assunto. 

Além de ver poucos negros na redação, poucas mulheres estão em cargos de poder. Vimos recentemente, por exemplo, Patrícia Campos Mello sendo diminuída como jornalista. Você já passou por alguma situação parecida? Além de estar atenta a todas essas questões de equidade, eu sou uma mulher negra, então estou com a antena ligada o tempo inteiro. Você percebe, por exemplo, que o entrevistado continua falando em cima da tua fala e, quando seu par homem questiona, ele se cala e espera terminar a pergunta. Isso não passa despercebido para mim e acho que não vai passar despercebido para muitas pessoas. Esses dias eu me impressionei com uma jornalista grande, que eu admiro, falando que nunca tinha pensado sobre essas questões. Porque elas são muito presentes nas nossas vidas, no dia a dia. 

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Como você reage nessas situações? Eu sou uma pessoa que avança. Eu não sou uma pessoa que fico presa nas redes sociais, que volta para ficar respondendo perguntas. Eu estou sempre pensando em como posso trabalhar uma política pública para isso, o que seria bom para termos mais inclusão nesse espaço. Nós somos muitos, e existem aqueles pares que estão preparados para a contenção. Tem gente que está sempre ali voltando, discutindo, debatendo. Eu admiro demais, mas gosto de tratar direto com o CEO de uma empresa, por exemplo, e explicar a ele a necessidade da diversidade. Articular é meu dom, atacar o cerne daquele problema. 

Você é mãe. Já foi questionada em algum momento no campo profissional por conta disso? Eu fui para o Rio de Janeiro trabalhar na TV Brasil e tive vontade de ser mãe lá. Era uma empresa um pouco menor, não tinha a pressão que temos em outros espaços, mas seria leviano da minha parte falar que foi fácil conciliar tudo isso. Se você tem uma responsabilidade, acorda de madrugada e volta para cada de madrugada, não é a mesma coisa. Eu fui para o Rio de Janeiro, em um jornal que me deixava em uma posição muito confortável, e lá eu vivenciei a maternidade. Ficava muito fora de casa, mas tive todo um espaço para cuidar da minha filha, foi muito bom. A minha força triplicou depois que fui mãe e não consigo hoje imaginar a minha profissão sem a maternidade. Ela me trouxe uma outra visão do mundo e é muito positiva para mim e para as empresas que me contratam porque ela me fez uma profissional ainda mais dedicada.

Como será o Visão CNN, programa que você vai apresentar na nova emissora? O Visão CNN é um jornal de notícias com muita análise, com foco em economia, internacional e política. Temos análises de São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, além de jornalistas espalhados pelo Brasil inteiro, dando um panorama desses focos. A nossa ideia é sempre ser uma notícia mais trabalhada analiticamente, onde o telespectador vai poder degustar de vários ângulos. Essa é a ideia: trazer um produto com muita análise e aprofundamento.

Créditos

Imagem principal: Divulgação/CNN Brasil

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