Moral pelos ares

Tpm

por Redação
Tpm #69

Acidente de avião, atletas incríveis e políticos insanos. Onde é que vamos parar?

 
Este mês, quando chegou o momento de escre­ver a co­luna, tive uma dificuldade muito grande de es­colher um tema para discorrer nesta página. Tu­do que vinha à minha mente era triste, desconfortável ou vergonhoso. Esse foi o período do acidente com o Airbus da Tam, que todos dizem ter sido o maior acidente aéreo acontecido no Brasil pela quantidade de gente envolvida. Mas, quando me vem à men­te o tempo que os passageiros sofreram até morrerem, sem dúvida a queda do avião da Gol deve ter sido pior.

Mas não é sobre isso que gostaria de falar. O meu desejo é trazer idéias novas pra você, além do quê, sei que não tenho conhecimento técnico para opinar sobre o assunto, apesar de muitas vezes ter me sentido equi­parada em conhecimento a muita gente que andou fa­lando na mídia sobre o assunto. Também não quero in­correr no mesmo erro de outros parlamentares, que debateram a matéria sem o mínimo aprofundamento.

Assistimos à implosão do prédio onde o avião ex­plodiu, aos vários laranjas do presidente do senado, ao habitual “desaviso” do nosso presidente e ao descaso das autoridades. Às vezes é cansativo ser brasileira.

Até que me lembro dos nossos incansáveis atletas, que tanto orgulho sugeriram aos nossos egos. Re­ce­be­mos em São Paulo, entre o Pan e o Parapan, a 3ª edição dos jogos mundiais de cegos. Foram quase 2.000 atletas de 62 países que vieram competir. A de­legação bra­sileira ficou em 3º lugar, com 47 medalhas. Aqui vimos a salvação para os nossos sentimentos, já que é ne­cessário um drible mental para fugir dos pensamentos nas fatalidades.

Como nesse período consegui tirar férias e passar uma semana em Trancoso, achei que esse peda­cinho da Bahia deveria ser energia preponderante no texto, mas a primeira coisa que lembro é do pouso em Con­­gonhas, onde os passageiros bateram palmas no mo­men­to em que o piloto freou o avião. Alguns cho­­raram, como eu.

De avião, para Trancoso

Mas quero falar de Trancoso, onde a natureza e o homem conseguiram harmonia e beleza nos traços e mo­­vimentos do cenário. Fundada no século 16, tem uma arquitetura jesuítica. Uma igrejinha sobre o mor­ro de costas para o mar e face para o “quadrado”, espécie de campo de futebol gigante ladeado por casinhas. Estas eram dadas para os convertidos ao catolicismo. Até muito pouco tempo, início dos anos 80, Trancoso era muito semelhante ao povoado do século 16.

Conheci a cidade em 1990, mas Ricardo Salem, cons­­trutor que mora lá há uns 30 anos, ainda pre­sen­ciou o pa­raíso sem polícia, político ou padres – que vi­nham raramente de outras cidades para algum even­to católico. Quando alguém cometia algum delito, era ata­do à trave do gol no meio do quadrado, ex­pos­to aos olhares dos outros moradores. Imagine se atual­­men­te seguíssemos aqui a antiga orientação de pu­­nição de Trancoso? Na época, 5 mil ha­bitantes. Ho­je, 15 mil.

Nos enveredamos por um caminho, que, aos poucos, foi desvirtuando a moral do brasileiro. Onde foi na história que subestimamos a força da dignidade? Pelo caminhar deste texto, ainda temos o po­der de conduzir nossos pensamentos e atingir emo­­ções mais sublimes e genuínas.


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