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Criadas para casar

É preciso muita luta para se livrar dos resíduos de séculos de patriarcado. Nada menor do que uma revolução pode nos tirar daqui

Criadas para casar

em 28 de julho de 2016

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Eu tinha 9 anos quando fui arrancada de um jogo de futebol no recreio porque a diretoria de um dos colégios mais tradicionais de São Paulo havia se reunido e decidido que eu, uma menina, deveria brincar de boneca e não bater bola. Lembro da sensação de ser conduzida por uma das professoras a uma sala escura dentro da qual as garotas da classe celebravam o aniversário de uma boneca pálida, loira e de plástico. Sempre tive medo de bonecas porque a falta de vida delas me soava petrificante. Como petrificante foi ter que passar muitos minutos escutando “parabéns a você” para um ser inanimado enquanto ainda era capaz de ouvir os meninos gritando de alegria do lado de fora, o que indicava que embora eu fosse um dos melhores jogadores em campo minha ausência não era sentida. Da mesma forma, minha presença na sala escura tampouco era reconhecida.

É preciso que entendamos a violência para além da delinquência: o que a diretoria daquela escola fez comigo no outono de 1976 foi uma violência. Assim como é uma violência que o recado dado a meninas desde o berço seja: o importante é casar e ter filhos. E ele vem de todos os lados: das lojas de brinquedo, dos pais, dos professores, da comunidade, da propaganda. Ainda que muita coisa tenha mudado desde aquele recreio há 40 anos, a condição feminina segue lutando para se livrar dos resíduos de séculos de patriarcado.

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“Fascismo é a derradeira expressão da hierarquia patriarcal”, escreveu Virginia Woolf há mais de meio século. Para ela, a escola da vida não ensinaria a arte da dominação, ou a arte do poder e da matança, ou como adquirir terras, propriedades, capital. Num mundo mais feminino, a escola imaginada por ela ensinaria artes como medicina, matemática, música, pintura, literatura, e também a arte do sexo e do entendimento a outros seres humanos. O objetivo não seria segregar ou especializar, mas misturar. O objetivo não seria casar, mas amar. Só que, como escreveu Nicholas Kristof, colunista do New York Times, a grande ameaça a extremistas não são drones jogando bombas, mas meninas lendo livros. Em democracias, onde extremistas são mais raros, a perpetuação do patriarcado se faz pela propaganda e pela doutrinação, e segue funcionando como sempre.

Politicamente, somos moldadas desde pequenas: casar é transmitido como objetivo final. A mensagem vem das formas mais singelas e doces, como por exemplo dos filmes românticos que terminam sempre com um casamento. Não há conversas sobre sexo, relações humanas, convívio, e eles terminam onde deveriam começar porque todos os que já casaram sabem que é aí que a coisa exige atenção, dedicação, esforço. Não temos isso, temos o casamento como destino, os afazeres do lar como brincadeiras de criança e, depois, como realidade do adulto que “deu certo socialmente”.

Em 1910, Emma Goldman, misturou casamento e política quando escreveu: “Casamento nesses termos é como aquele outro arranjo patriarcal, o capitalismo. Ele rouba homens e mulheres de dignidade, de brilho, poda seu crescimento, envenena seu corpo, os mantém na ignorância, na pobreza, na dependência, e então institui a caridade, que rouba os últimos vestígios de autorrespeito”. E o professor britânico Timothy Morton disse a respeito do aquecimento global: “Colocar a natureza num pedestal e admirá-la de longe faz pelo meio ambiente o que o patriarcado faz pela mulher”.

Oprimidas e domesticadas

A crueldade do patriarcado se desdobra em muitas áreas do cotidiano e é assimilada sem que percebamos. Somos, por exemplo, encorajadas a acreditar que não emagrecemos porque não nos exercitamos o suficiente, mas não se fala do açúcar e de como as legislações aplicadas a ele nos matam lentamente. Quando as taxas de obesidade nos EUA ultrapassaram todos os limites aceitáveis teve início a febre do low fat, mas o que não contaram é que ao tirar a gordura eles acrescentaram açúcar. Claro que homens são vítimas também, mas a eles não está imposta a ditadura da magreza e da gostosura. E, depois disso tudo, o recado que chega é: você precisa malhar, manter-se decente para poder casar, ter filhos e seguir casada. O patriarcado é bom em nos culpar por suas mazelas.

Ao nos recusarmos a encarar o debate político que envolve o patriarcado, seguimos vivendo dentro desta distopia: oprimidas, domesticadas, doutrinadas para sermos mães e mulheres dedicadas, magras e obedientes. Alguns dos direitos mais fundamentais de todo ser humano são a criatividade e a liberdade, mas o patriarcado nos priva disso enquanto tenta convencer que a verdadeira liberdade é poder comprar dois sapatos pelo preço de um.

Liberdade é a possibilidade concreta de todos nós desenvolvermos as faculdades, capacidades e habilidades com as quais a natureza nos dotou e convertê-las em valor social. É o que desejamos àqueles que amamos, mas é o que deveríamos desejar a todo ser humano se percebêssemos que somos parte de uma mesma substância.

Demorei muitos anos para me livrar da ferida deixada pela diretoria da escola em que estudei, e incontáveis invernos para entender que eu não precisaria casar, ou sequer casar com um homem, para cumprir uma suposta função social e me sentir bem-sucedida. Foi uma longa travessia essa que me ensinou que casar não é fundamental, mas que amar é.

A menos que não nos acanhemos de encarar o debate político, arregacemos as mangas e lutemos contra a crueldade do patriarcado, não seremos capazes de sair dessa armadilha em que nos meteram. Nada menor do que uma revolução pode nos tirar daqui.

Virginia Woolf fica com a palavra final: “Como mulher, não tenho um país; como mulher, não quero um país; como mulher, meu país é o mundo inteiro”.

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