por Milly Lacombe
Tpm #166

É preciso muita luta para se livrar dos resíduos de séculos de patriarcado. Nada menor do que uma revolução pode nos tirar daqui

Eu tinha 9 anos quando fui arrancada de um jogo de futebol no recreio porque a diretoria de um dos colégios mais tradicionais de São Paulo havia se reunido e decidido que eu, uma menina, deveria brincar de boneca e não bater bola. Lembro da sensação de ser conduzida por uma das professoras a uma sala escura dentro da qual as garotas da classe celebravam o aniversário de uma boneca pálida, loira e de plástico. Sempre tive medo de bonecas porque a falta de vida delas me soava petrificante. Como petrificante foi ter que passar muitos minutos escutando “parabéns a você” para um ser inanimado enquanto ainda era capaz de ouvir os meninos gritando de alegria do lado de fora, o que indicava que embora eu fosse um dos melhores jogadores em campo minha ausência não era sentida. Da mesma forma, minha presença na sala escura tampouco era reconhecida.

É preciso que entendamos a violência para além da delinquência: o que a diretoria daquela escola fez comigo no outono de 1976 foi uma violência. Assim como é uma violência que o recado dado a meninas desde o berço seja: o importante é casar e ter filhos. E ele vem de todos os lados: das lojas de brinquedo, dos pais, dos professores, da comunidade, da propaganda. Ainda que muita coisa tenha mudado desde aquele recreio há 40 anos, a condição feminina segue lutando para se livrar dos resíduos de séculos de patriarcado.

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“Fascismo é a derradeira expressão da hierarquia patriarcal”, escreveu Virginia Woolf há mais de meio século. Para ela, a escola da vida não ensinaria a arte da dominação, ou a arte do poder e da matança, ou como adquirir terras, propriedades, capital. Num mundo mais feminino, a escola imaginada por ela ensinaria artes como medicina, matemática, música, pintura, literatura, e também a arte do sexo e do entendimento a outros seres humanos. O objetivo não seria segregar ou especializar, mas misturar. O objetivo não seria casar, mas amar. Só que, como escreveu Nicholas Kristof, colunista do New York Times, a grande ameaça a extremistas não são drones jogando bombas, mas meninas lendo livros. Em democracias, onde extremistas são mais raros, a perpetuação do patriarcado se faz pela propaganda e pela doutrinação, e segue funcionando como sempre.

Politicamente, somos moldadas desde pequenas: casar é transmitido como objetivo final. A mensagem vem das formas mais singelas e doces, como por exemplo dos filmes românticos que terminam sempre com um casamento. Não há conversas sobre sexo, relações humanas, convívio, e eles terminam onde deveriam começar porque todos os que já casaram sabem que é aí que a coisa exige atenção, dedicação, esforço. Não temos isso, temos o casamento como destino, os afazeres do lar como brincadeiras de criança e, depois, como realidade do adulto que “deu certo socialmente”.

Em 1910, Emma Goldman, misturou casamento e política quando escreveu: “Casamento nesses termos é como aquele outro arranjo patriarcal, o capitalismo. Ele rouba homens e mulheres de dignidade, de brilho, poda seu crescimento, envenena seu corpo, os mantém na ignorância, na pobreza, na dependência, e então institui a caridade, que rouba os últimos vestígios de autorrespeito”. E o professor britânico Timothy Morton disse a respeito do aquecimento global: “Colocar a natureza num pedestal e admirá-la de longe faz pelo meio ambiente o que o patriarcado faz pela mulher”.

Oprimidas e domesticadas

A crueldade do patriarcado se desdobra em muitas áreas do cotidiano e é assimilada sem que percebamos. Somos, por exemplo, encorajadas a acreditar que não emagrecemos porque não nos exercitamos o suficiente, mas não se fala do açúcar e de como as legislações aplicadas a ele nos matam lentamente. Quando as taxas de obesidade nos EUA ultrapassaram todos os limites aceitáveis teve início a febre do low fat, mas o que não contaram é que ao tirar a gordura eles acrescentaram açúcar. Claro que homens são vítimas também, mas a eles não está imposta a ditadura da magreza e da gostosura. E, depois disso tudo, o recado que chega é: você precisa malhar, manter-se decente para poder casar, ter filhos e seguir casada. O patriarcado é bom em nos culpar por suas mazelas.

Ao nos recusarmos a encarar o debate político que envolve o patriarcado, seguimos vivendo dentro desta distopia: oprimidas, domesticadas, doutrinadas para sermos mães e mulheres dedicadas, magras e obedientes. Alguns dos direitos mais fundamentais de todo ser humano são a criatividade e a liberdade, mas o patriarcado nos priva disso enquanto tenta convencer que a verdadeira liberdade é poder comprar dois sapatos pelo preço de um.

Liberdade é a possibilidade concreta de todos nós desenvolvermos as faculdades, capacidades e habilidades com as quais a natureza nos dotou e convertê-las em valor social. É o que desejamos àqueles que amamos, mas é o que deveríamos desejar a todo ser humano se percebêssemos que somos parte de uma mesma substância.

Demorei muitos anos para me livrar da ferida deixada pela diretoria da escola em que estudei, e incontáveis invernos para entender que eu não precisaria casar, ou sequer casar com um homem, para cumprir uma suposta função social e me sentir bem-sucedida. Foi uma longa travessia essa que me ensinou que casar não é fundamental, mas que amar é.

A menos que não nos acanhemos de encarar o debate político, arregacemos as mangas e lutemos contra a crueldade do patriarcado, não seremos capazes de sair dessa armadilha em que nos meteram. Nada menor do que uma revolução pode nos tirar daqui.

Virginia Woolf fica com a palavra final: “Como mulher, não tenho um país; como mulher, não quero um país; como mulher, meu país é o mundo inteiro”.

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