por Milly Lacombe
Tpm #172

São tempos de grandes conquistas para as mulheres, mas também de desespero, angústia, dúvidas e isolamento

Chegamos aonde nenhuma outra mulher jamais chegou. Somos presidentes de nações, CEOs de corporações, pilotos de aviões. Temos filhos sem precisar casar, casamos sem precisar ter filhos, transamos com quem quisermos, como quisermos, quanto quisermos. Por que, então, estamos tão angustiadas? Por que nos sentimos confinadas? Por que não somos livres? O que deu errado?

Mudamos nossas vidas, mas não mudamos as instituições que as regem. Os mecanismos de opressão foram se atualizando conforme ganhávamos espaço profissional e, surpresa!, estamos começando a entender que tantas conquistas, no trabalho e na cama, nos levaram a um lugar de esgotamento. Deu ruim. Deu muito ruim.

Trabalhar, afinal, nos emancipou do que exatamente? Nos redutos mundanos do machismo nada de fato mudou, e, nas miudezas do cotidiano, ainda não temos voz.

A mulher ainda é a grande vítima da opressão social. Somos objetos. Bundas, peitos, buracos. Na rua, ainda somos olhadas como coisa a ser devorada. Ainda somos abusadas. Invadidas. Violadas. Verbal e fisicamente. Ainda somos usadas para fazer a máquina do consumo girar. Mas o sistema é tão cruel que é preciso ser de um certo tipo para ter utilidade no capitalismo: branca, magra, jovem, recatada.

Mas podemos transar. Muito e com quem quisermos. E estamos fazendo justamente isso. Em série. Estamos gozando? Conhecemos nossas vaginas? Sabemos o que nos dá prazer? Ou estamos apenas reproduzindo a lógica fálica do “mais” e do “novo”. Mais corpos, mais transas, novos corpos, novas transas. A seriação do consumo, do descarte, do próximo. É assim que queremos transar? Estamos sexualmente completas? Estamos chegando a novos lugares, novas sensações? Não é o que parece.

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Um jogo viciado

O que mudou? Por que parece que não saímos do lugar? Há algumas explicações.

A primeira diz respeito ao fato de não termos de fato alterado um jogo de regras criadas por homens ignorantes, mas apenas nos inserido nele. A segunda é termos deixado de entender que as conquistas sociais deveriam ter sido para todas, e não apenas para um grupo específico de mulheres. A terceira é a falta de entendimento de que não se batalha por inclusão apenas para um recorte social: a onda da liberdade deve banhar todas as minorias políticas: gays, negros, trans, refugiados, índios etc. E a quarta é a noção de que o grande inimigo não é um gênero, mas a estupidez.

Então, a menos que consigamos entender essas limitações, o feminismo, conceito que o historiador israelense Yuval Harari categorizou como a grande descoberta do século 20 ao lado do computador e do antibiótico, terá fracassado – e continuaremos nos sentindo sufocadas, ainda que tenhamos pisado no topo do mundo.

Sem a consciência dessas coisas cairemos no paradoxo do Barão de Lampedusa, personagem de O leopardo, romance sobre a unificação da Itália: “É preciso mudar tudo para que as coisas permaneçam como estão”. Ou no de Alice: “Aqui você precisa correr tanto quanto puder para permanecer no mesmo lugar”.

São tempos de grandes conquistas, mas também de desespero, angústia, dúvidas, isolamento.

Só que existe ali naquele canto um grupo de mulheres cantando uma música que talvez todas possamos dançar. São as mulheres negras, são as filhas de Rosa Parks, e de Carolina de Jesus, e de Conceição Evaristo e de Iemanjá. Elas nos convidam a cantar com elas. Nos chamam para sambar. Nos oferecem séculos de resistência, de sobrevivência, de decência. Mulheres que sabem que o silêncio é um lugar cruel porque ele nos faz sofrer sem ter recursos para deixar de sofrer. Silêncio é falta de voz. Falta de vida. Falta de dignidade. Mulheres que entenderam há muito tempo que não adianta celebrarmos um sistema que é incrivelmente capaz de gerar riqueza e indecentemente incapaz de distribuí-la.

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Abaixo a lógica bruta

Mulheres que sabem que não há liberdade sem creches, sem assistência social, sem licença-maternidade, sem licença-paternidade, sem equiparação salarial, sem que as cidades sejam planejadas também para o feminino, sem o direito de interromper uma gravidez indesejada, sem representatividade legislativa, sem poder sair à noite sozinha e não ter medo.

Em uma das cenas da sétima temporada de Game of Thrones, a jovem e audaciosa Lyanna Mormont explica que quer ir à guerra porque não planeja ficar tricotando em frente à lareira enquanto homens lutam por ela. Até pouco tempo esse seria um discurso feminista, forte, libertador. Mas talvez tenhamos percebido, enfim, que a liberdade é não ir à guerra. Liberdade não é pegar em armas. Liberdade não é reproduzir a lógica bruta de um sistema cruel, explorador e competitivo.

Liberdade é justamente sentar em frente ao fogo, quem sabe tricotar, quem sabe tomar uma taça de vinho com quem se ama, quem sabe apenas dançar sozinha. Liberdade é entender que o feminino – ou a capacidade de colaborar, e de cuidar, e de se mostrar vulnerável – pode invadir todos os seres humanos, e que ao imaginar um futuro feminino não estamos sugerindo um futuro sem homens, porque tecnicamente nem poderia haver futuro sem eles, mas apenas tentando alcançar uma realidade dentro da qual o amor e o afeto se sobreponham ao medo e à raiva. Um mundo no qual a coragem para dizer “eu te amo” silencie a vulgaridade de dizer “eu te odeio”. Onde coisas como cor da pele, orientação sexual, identidade de gênero, saldo bancário e verdades anatômicas sejam ficções políticas e não interfiram na forma como nos relacionamos uns com os outros, e com a Terra. Um mundo no qual entendamos que o feminino e o masculino fazem parte de todos nós e que, a despeito de sexualidades, do mesmo modo que existem homens cheios de feminino, há mulheres cheias de masculino: do que nos serviria, aliás, um planeta com muitas Margaret Thatchers no poder?

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Sem a consciência de todas essas coisas o que existe é um simulacro de liberdade, e isso não nos ajuda porque liberdade não é ambição, é condição. A menos que alcancemos liberdade para todas e para todos, ficaremos com a estranha sensação de termos corrido velozmente para chegar a lugar nenhum; e, pior, para permanecer angustiadas porque perceberemos que, nesse corre maluco e solitário, deixamos alguma coisa fundamental pelo caminho: a nossa própria humanidade.

Então, se não convidarmos a sociedade a jogar o jogo que ainda temos que inventar, e decidamos não mais provar que sabemos e podemos jogar o jogo desse sistema destrutivo, explorador e individualista, não teremos um futuro. Nem feminino nem masculino. E, nesse caso, o futuro terá simplesmente deixado de ser.

Créditos

Imagem principal: Samuel Lenzi

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