por Lia Hama
Tpm #163

Após quatro anos de viagens espirituais pelo Brasil, Marina Abramovic lança filme e fala sobre incorporar entidades, ayahuasca, coração partido e DNA galáctico

Num cenário de solo avermelhado e pedregoso que parece de outro planeta, Marina Abramovic relata uma conversa que teve com uma xamã chamada Denise em sua última visita ao Brasil. “Ela me disse: ‘Você não se sente em casa em lugar nenhum porque não é deste planeta. Seu DNA é galáctico, vem de estrelas distantes. Você veio ao planeta Terra com um propósito: ensinar os humanos a transcender a dor.’”

A cena inicial do filme Espaço além – Marina Abramovic e o Brasil dá uma ideia do que vem pela frente. O documentário, dirigido por Marco Del Fiol e produzido pela Casa Redonda, mostra a jornada espiritual da artista sérvia de 69 anos nos mais longínquos recantos do país. Em busca de “pessoas e locais de poder”, Marina e a equipe de filmagem percorreram mais de 6 mil quilômetros, entre 2012 e 2015, e encontraram pelo caminho xamãs, médiuns e guias espirituais que os levaram a participar de diversos rituais sagrados. O objetivo, segundo a artista, foi buscar inspiração para seu trabalho e, ao mesmo tempo, passar por um processo de cura num momento em que enfrentava problemas pessoais, incluindo o fim de seu relacionamento amoroso com o artista italiano Paolo Canevari.

Ao longo de 86 minutos, acompanhamos Marina tendo alucinações depois de ingerir chá de ayahuasca num ritual xamânico na Chapada Diamantina, Bahia; a vemos participar de uma sessão de João de Deus em Abadiânia, Goiás, na qual o médium corta com uma faca o globo ocular de um paciente; a observamos deitada numa cama rodeada de cristais em Corinto, Minas Gerais; e comparando um templo no Vale do Amanhecer, Distrito Federal, a um cenário de um filme de Stanley Kubrick. 

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O longa-metragem teve sua estreia mundial em março no Festival South by Southwest (SxSW), em Austin, nos EUA, e estreia nos cinemas brasileiros no dia 19 de maio. A artista virá à première em São Paulo. Na ocasião será lançado o catálogo de sua exposição Terra comunal + MAI, que ocorreu ano passado no Sesc Pompeia.

De Atenas, na Grécia, onde participou de uma série de workshops sobre arte performática, Marina conversou por Skype com a Tpm e falou sobre sua road trip.

Tpm. Qual foi a experiência mais difícil em suas jornadas espirituais pelo Brasil?

Marina Abramovic. Tomar ayahuasca, sem dúvida. Foi uma das experiências mais difíceis de toda a minha vida. Fiquei traumatizada porque perdi o controle da minha mente. Meu trabalho como artista performática é todo voltado para controlar o corpo e a mente, como quando permaneço longos períodos em jejum ou numa mesma posição. Na primeira vez em que tomei o chá, tinha tanta vontade de ter aquela experiência que ingeri uma dose de elefante e fiquei completamente fora do ar. Senti muito medo e me convenceram de que eu deveria passar por uma segunda experiência para perder o trauma. Foi o suficiente, não quero passar por aquilo de novo. Os xamãs dizem que é o espírito da planta que entra no seu corpo, que ele carrega um conhecimento, mas não me senti bem. Só de lembrar, me dá arrepio.

O que você achou do resultado do filme? Fiquei feliz com o corte final porque tivemos que fazer muitas escolhas pelo caminho. O Brasil é um país continental, não foi possível cobrir todas as pessoas e todos os locais de poder. São muitos. O documentário acabou de estrear no festival SxSW, em Austin, estou ansiosa para ver a reação do público porque não é um filme comum. Vou participar da sessão de estreia em São Paulo naquele teatro projetado pelo Oscar Niemeyer [Auditório Ibirapuera]. Espero que o público brasileiro goste.

“Tomar ayahuasca foi uma das experiências mais difíceis de toda 
a minha vida. Ingeri uma dose de elefante e fiquei completamente 
fora do ar”

No início das filmagens, você enfrentava problemas pessoais, incluindo o fim de seu casamento. Encontrou um novo amor? Tomo cuidado para não me apaixonar perdidamente porque não sobreviveria a mais um coração partido. Essas viagens significaram um longo processo de cicatrização. Depois disso, fiquei em paz. Amo, mas não com tanta intensidade. Ou talvez porque simplesmente não tenha encontrado a pessoa certa. Tenho o projeto de um novo filme, Seven Deaths, que aborda essa questão: como é possível que mulheres, como a cantora lírica Maria Callas [1923-1977], morram por causa de amor? Como é possível nos apaixonarmos a ponto de nos perder de nós mesmas? É um belo tema que surgiu a partir da minha própria experiência.

Num ritual de xamanismo em Curitiba, você tem uma dificuldade enorme de quebrar um ovo que carregaria seus traumas do passado. O que aconteceu? Racionalmente e cientificamente não é possível explicar o que aconteceu, mas foi real: eu não conseguia quebrar aquele ovo de jeito nenhum. Agora, toda vez que fico doente, penso: “Preciso quebrar ovos de novo para tirar as negatividades”. A xamã Denise, que comandou o ritual, é muito especial, possui uma energia feminina muito poderosa.

Você tem ou teve algum líder espiritual? Uma pessoa que teve um impacto muito grande na minha vida foi Ling Rinpoche [1903-1983], primeiro mestre do Dalai Lama. Nos encontramos na Índia em 1981, dois anos antes de sua morte. Naquela época, eu estava muito interessada no budismo tibetano, que é bem diferente do xamanismo no Brasil. As diversas culturas me interessam e sempre por uma questão de trabalho: na arte performática é preciso pesquisar diferentes formas de explorar a energia do corpo. 

“Às vezes, me sinto rodeada por espíritos que me protegem. Faz parte do processo criativo do artista, que encontra inspiração em contato com o mundo invisível”
Marina Abramovic

O Brasil tem potencial para se tornar um destino turístico para viagens espirituais? Poucos lugares no mundo têm tanto potencial como o Brasil, um país cheio de pessoas com poder espiritual e com vastas áreas naturais preservadas. Para mim, jornadas espirituais não estão relacionadas apenas com pessoas, mas com lugares cheios de energia, e isso o Brasil possui em abundância.

No filme, os xamãs e médiuns falam muito sobre as entidades, como se fossem a coisa mais normal do mundo. Você também conta que conversava com seres invisíveis quando criança. Continua em contato com eles? Como adulta, não deveria responder isso, mas, sim, continuo. Existe essa coisa esquisita em relação aos artistas, parece que eles nunca amadurecem, permanecem sempre como crianças. Não posso me comparar com João de Deus, que incorpora 32 entidades diferentes, um verdadeiro exército de entidades. Mas às vezes, nos meus sonhos ou quando estou sozinha, sinto como se estivesse rodeada por espíritos que me protegem. Também tenho uma intuição muito forte. Acho que faz parte do processo criativo do artista, ele encontra inspiração em contato com o mundo invisível.

O que mudou na sua arte desde que você começou a participar desses rituais espirituais? É difícil dizer, mas sei que a minha ideia de performance mudou, agora o que me interessa é o público, o público é a obra. Entendi que preciso dar ferramentas para que o público embarque em sua jornada pessoal. Às vezes, a visão sobre essa missão fica embaçada porque me perco pelo caminho, mas procuro manter o foco e seguir em frente.

Você é uma espécie de guru das artes, com admiradores espalhados pelo mundo, incluindo celebridades como Lady Gaga e Jay-Z. Sinto que o que está acontecendo na minha vida hoje é o resultado de 45 anos de trabalho. Vou completar 70 anos de idade. Olhando para trás, vejo que pus toda a minha energia, sacrifiquei a minha vida pessoal em nome do trabalho. Há uma ordem matemática no cosmos: quanto mais energia você coloca em algo, mais recebe de volta. Acho que estou colhendo os frutos do que plantei. É maravilhoso ver que a arte performática não está morta, que há um monte de jovens artistas se dedicando a ela. Agora mesmo estou em Atenas, na Grécia, dando aulas sobre performance.

Em que outros projetos você está trabalhando? Estou terminando meu livro de memórias, que será publicado pela editora Penguin em setembro. O livro vai ganhar traduções em 12 países, incluindo o Brasil. Tenho viagens marcadas para Suécia, Dinamarca, China e Qatar.

No filme, a xamã Denise diz que você não é deste planeta, seu DNA é galáctico. De onde você vem? Não sei, mas devo vir de uma estrela bem distante! [Risos] Conheci um escritor de ficção científica em Los Angeles chamado Kim Stanley Robinson. Ele me contou que eu apareço no livro dele, 2312, que se passa no futuro. Faço performances em asteroides. Comecei a acreditar que vim mesmo de outro planeta.

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