por Mariana Lemos

É realizada hoje em Brasília a primeira Marcha das Mulheres Negras. O encontro destaca o papel do ativismo negro dentro do movimento

Cerca de 4 mil mulheres negras de todas as regiões do país estão reunidas hoje, em Brasília, em ato contra o racismo, o machismo, a violência e pelo bem viver. A manifestação, iniciativa de diversas organizações e coletivos do Movimento de Mulheres Negras e do Movimento Negro, é considerada histórica, pois representa a força da organização destas mulheres na reafirmação da contribuição econômica política, cultural e social das negras. Trata-se também de um forte posicionamento destas pautas dentro dos próprios movimentos de mulheres, muitas vezes apontados de silenciamento das pautas da negritude.

Maria Rita, do Blogueiras Negras, conta que em diversos espaços feministas ela “passa mais tempo tentando ser vista como mulher, que debatendo suas questões” e afirma que não é papel das mulheres negras serem didáticas. Adriana, da Feira Preta, o maior evento de cultura negra da América Latina, no entanto, pondera a importância das conexões, do diálogo. “Parece um processo infinito de conscientização para a aceitação e às vezes cansa. Mas, é fundamental a tolerância para a descoberta e muitas vezes não damos o tempo necessário para as transformações, não consideramos profundamente a complexidade dos processos de desigualdade em relação aos negros e negras neste país”, completa.

A mestre em Filosofia Política pela UNIFESP, Djamila Ribeiro, figura bastante popular na rede, afirma que também existe a responsabilidade da educação formal neste processo. “A teoria e prática precisam andar juntas. Nas aulas que tive não havia nenhuma teórica negra na bibliografia e isso mostra o quanto precisamos avançar”. Para todas essas mulheres, não é possível que em um país miscigenado como o Brasil, a teoria feminista ainda não aborde questões específicas da mulher negra.

Muitas mulheres não negras também estão em Brasília em apoio ao ato, indicando a importância de unir forças respeitando o protagonismo desta mobilização. A blogueira Jéssica Ipólito, que escreve no Gorda e Sapatão sobre racismo e sexualidade, afirma que a geração mais jovem de feministas negras veio para estabelecer uma outra práxis de organização e, consequentemente, de diálogo. “Somos muitas, somos diversas, pode ter quem se dedique a ser didática, pode ser que algumas de nós vá se dedicar a empoderar as meninas e mulheres negras, pode ser que algumas de nós consiga aliar ambas as coisas – e muito mais!”, completa.

Para Adriana Barbosa, a realização desta primeira edição da Marcha das Mulheres Negras é fundamental porque coloca em pauta o racismo estruturante que atinge estas mulheres em várias áreas: educação, saúde, trabalho, afetividade, entre outras. “Sobretudo, esta marcha visibiliza a ação política e o engajamento de mulheres negras que estão conectadas em todo o país, juntas e comprometidas pela defesa de igualdade de direitos”.

A ideia da marcha surgiu em 2011, em Salvador, Bahia, durante o Encontro Paralelo da Sociedade Civil para o Afro XXI. Desde então os movimentos de mulheres vem se organizando e mobilizando para o ato que acontece hoje. Está prevista ainda uma audiência entre as mulheres negras e a presidente da república Dilma Roussef. São esperadas, ainda, as ativistas Angela Davis e bel hooks, entre outros nomes importantes pela luta da igualdade racial e de gênero.

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