Malu Gaspar dá a cara a tapa

por Nathalia Zaccaro

Voz feminina do podcast Foro de Teresina, a jornalista infiltrada nos grupos bolsonaristas de WhatsApp diz o que pensa sobre internet, política, pandemia e quem manda no Brasil

"Quando meu filho era pequeno, eu contava história do Eike Batista para ele dormir", lembra a jornalista Malu Gaspar, conhecida por seus contundentes perfis publicados na revista piauí e por ser a voz feminina do podcast de política Foro de Teresina. Paulistana radicada no Rio, ela passou pelas redações do jornal Folha de S. Paulo e das revistas Veja e Exame antes de se aventurar no universo das opiniões e análises que marcam sua participação no podcast, e também no Twitter. "Eu achava que isso ia acabar com a minha credibilidade, que, se uma pessoa que gosta das minhas matérias não concordasse com minhas opiniões, ela iria achar meus textos ruins. Mas isso não acontece necessariamente. E eu não me meto em assunto que não entendo, você não vai me ver comentando novela. Não vou arriscar falar besteiras pra ter uma personalidade na internet. Acho que enveredar por esse caminho é querer virar influencer, e tudo bem, mas não é o meu caminho. Preservo os limites do que considero que seja jornalismo", conta.

A bagagem profissional de Malu traz para suas falas uma carga sempre potente de informações, apurações e furos que faz qualquer ouvinte se sentir uma mosca bisbilhotando os gabinetes de Brasília. "Tem várias razões pelas quais as pessoas falam. Você tem que saber aproveitar e não se submeter ao jogo de interesses das fontes. É legal estar ali sempre alerta, tentando descobrir onde está a verdade e onde estão tentando te enganar. Sou viciada nisso, é uma diversão, nunca me canso. Não fico brava nem irritada, acho que faz parte do jogo eles quererem mentir pra mim", conta.

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Na bancada do Foro de Teresina, entre os também jornalistas Fernando de Barros e Silva e José Roberto de Toledo, Malu costuma protagonizar embates de opinião e, com certa frequência, ser classificada como "isentona", por não apoiar claramente nem a direita nem a esquerda. "Eu não gosto de maniqueísmo. Se ser de centro significa não aderir facilmente a discursos de nenhuma bolha ideológica, então sou isentona. Se eu aderir fácil a qualquer versão, acabou minha capacidade de analisar criticamente as coisas. Eu brinco que sou radical de centro. Isso te tira da zona de conforto", define. 

Trocamos uma ideia com ela sobre pandemia, farialimers, grupos bolsonaristas do WhatsApp, jornalismo, Paulo Guedes e mais. Se liga:

Tpm. Estar em um podcast mudou muito a relação das pessoas com seu trabalho?

Malu Gaspar. Totalmente. Eu não tinha ideia de como essa coisa de a pessoa te ouvir enquanto lava a louça cria um vínculo. E a linguagem do podcast é mais pessoal, você está conversando. Tem uma coisa para a qual eu não estava preparada, e que envolveu uma adaptação difícil, que é o fato de que em um podcast você faz análises, dá opiniões. Presume-se que você diga o que pensa sobre os assuntos e isso é difícil pra quem está acostumado a fazer o que eu faço em geral, que é escrever reportagens. Eu tento ser detalhista e descrever cenas com o máximo de colorido possível, mas procuro ficar nos fatos. No podcast você diz o que pensa das coisas, o que acha que vai acontecer. No começo, fiquei preocupada em dar uma opinião sobre um deputado, um político, e depois ter que entrevistar aquela pessoa. Fiquei com medo de perder o acessos às fontes, porque elas podem não gostar das minhas opiniões. Mas desenvolvi técnicas e as pessoas foram se acostumando com isso.

“Parece que pra você ser razoável tem que dizer que enquanto morrer uma pessoa de Covid no mundo você não pode sair de casa. E não é assim”
Malu Gaspar

Você tem fãs? Sim, e é uma coisa que eu não tinha ideia que aconteceria. Fizemos algumas apresentações ao vivo e tinha gente ali querendo tirar foto. Eu entrei na casa das pessoas, é uma relação totalmente diferente. 

Você é bem ativa também no Twitter, a rede mais selvagem de todas. Como se sente por lá? Antes eu tuitava coisas do trabalho, em geral não dava muita opinião. Hoje faço tiradas irônicas, interajo com as pessoas. Tive uma experiência ruim em 2010. Eu estava comentando um debate presidencial e fui trollada por pessoas que eu conhecia e tinha uma relação profissional. Hoje diriam que fui cancelada. Inventaram mentiras que eu tinha embebedado uma fonte, me atacaram forte. Depois disso entendi que o Twitter é um veneno perigoso. Hoje sabemos disso, mas em 2010 não era tão claro. Aí parei completamente de usar e só voltei depois do podcast. Adotei um tom parecido com o do Foro, misturando análise e apuração. Me sinto mais livre, não é segredo para as pessoas o que eu penso. Fui entendendo que isso não desmerece o trabalho, mudou a compreensão das pessoas sobre quem eu sou como profissional. Eu sou bastante atacada ainda, quando critico o Lula e o PT, especialmente. Existe uma polarização, mas aprendi a lidar com isso e acho legítimo que as pessoas critiquem. Quando tem baixaria eu finjo que não vi, raramente respondo. Não vou ficar perdendo fio de cabelo com isso, se entrei nessa arena preciso lidar com as regras. Não xingo ninguém, tento manter a civilidade, não trato as coisas como Fla x Flu e nem chamo treta. Não é minha função.

Tem um lance de estar se tornando mais uma figura pública, personificando o trabalho. Como isso é pra você? Com toda essa mudança no Brasil e no cenário político mundial, já que a polarização não é um fenômeno brasileiro, as pessoas querem saber o que você pensa sobre os assuntos para se situarem em relação a você. Eu achava que isso ia acabar com a minha credibilidade, que, se uma pessoa que gosta das minhas matérias não concordasse com minhas opiniões, ela iria achar meus textos ruins. Mas isso não acontece necessariamente. Eu não me meto em assunto que eu não entendo, você não vai me ver comentando novela. Não vou arriscar falar besteiras pra ter uma personalidade na internet. Acho que enveredar por esse caminho é querer virar influencer, e tudo bem, mas não é o meu caminho. Preservo os limites do que considero que seja jornalismo. Mas mudou completamente a forma de ser jornalista hoje. Quantas pessoas têm vínculos trabalhistas com veículos? Cada vez menos. Os jornalistas trabalham para vários veículos e têm um site, ou YouTube, ou um podcast. A diversidade de vozes é maior, mas é preciso administrar a sua imagem. Você não pode ser cada hora uma coisa, isso sim tira credibilidade. Não acho bom pra mim como jornalista me meter em um trilhão de assuntos. Mas acho que dá pra fazer um jornalismo legal, com personalidade. As pessoas percebem se você for fake e, com o tempo, quem não tem conteúdo vai se perdendo. Eu aposto nisso.

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Você fez perfis de grande repercussão na piauí, sempre marcados por aspas fortes, como quando o Paulo Guedes disse que iria domesticar o Bolsonaro. Acha que pode ser mais difícil conseguir essas declarações agora que se coloca mais na internet?Acho que tem um risco, sim. Posso ter dificuldade de fazer determinados perfis, mas até agora não vivi isso de forma forte. Quando fiz o Paulo Guedes o podcast estava começando, não fez diferença. Depois fiz Carluxo [o vereador Carlos Bolsonaro] e acho que ele não teria falado comigo de nenhuma forma. As pessoas que falam comigo sabem com quem estão falando. Elas desenvolvem um diálogo porque acham que tem um valor me dar uma informação. Tento ser franca, isso conta. O Paulo Guedes foi assim. Não escondo da pessoa o que eu penso, uso isso como um ativo para ter um diálogo produtivo. Adoto uma postura solta, procuro realmente me interessar pelo que as pessoas estão dizendo. Um problema comum no jornalismo é perguntar já querendo uma resposta e, se vem outra coisa, parece que a pessoa não ouve. Você não precisa fingir que é neutro, você não engana ninguém assim. É mais produtivo e mais leal com a fonte e com o leitor que você seja quem você é. Não tento botar o cara em pegadinha. Depois, eu procuro saber se a pessoa gostou, tento manter um diálogo. Eu dou minha cara a tapa.

“A gente não pode ser negacionista ao contrário”
Malu Gaspar

E o que o Paulo Guedes achou do perfil dele? Ele não gostou das falas que as pessoas fizeram sobre ele. Achou que eu dei espaço para quem não devia. Isso sempre vai ser uma queixa. Ele reclamou, mas entendeu. Durante um tempo continuei falando com ele. Agora não mais, não sou setorista de Fazenda. Mas nos encontramos por acaso em voos e nos falamos, apresentei minha filha. Eu estava no meu papel e ele estava no papel dele. Com respeito. Isso é difícil em tempos de polarização.

Você não é setorista de Fazenda, mas está sempre metida com gente muito endinheirada. Por quê? Gosto de cobrir poder. Quando a economia encontra a política você entende como se forjam os rumos do país. Escrevi um livro sobre o Eike Batista porque achava que a história dele era uma metáfora do que aconteceu com o Brasil. Um momento de super opulência, riqueza extrema, pessoa delirando achando que o Brasil ia dominar o planeta. A história de como ele decaiu resume um pouco o sentimento que se viveu no Brasil na época, é uma janela para a história. Estou concluindo agora um livro sobre a Odebrecht, falando de Lava Jato e de como montaram esse império continental. E como estão enfrentando uma crise sem precedentes. Eu adoro me enfiar nesse meio e tenho muito interesse em ver a história do Brasil acontecendo. 

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Por que essas pessoas se deixam perfilar? Tem um pouco de ego e vaidade. Elas querem ser retratadas como são e eu prometo isso, porque é o que eu tento fazer. Mas elas acham que são de um jeito que nem sempre são. Todo mundo quer deixar uma marca na história, quer que a sua versão dos fatos prevaleça. E tem o interesse político. Tem momentos em que a narrativa sobre uma pessoas importa mais do que a própria vida dela. Tem várias razões pelas quais as pessoas falam. Você tem que saber aproveitar e não se submeter ao jogo de interesses das fontes. É legal estar ali sempre alerta, tentando descobrir onde está a verdade e onde estão tentando te enganar. Sou viciada nisso, é uma diversão, nunca me canso. Não fico brava nem irritada, acho que faz parte do jogo eles quererem mentir pra mim. Fico feliz quando consigo descobrir. Não faço pré-julgamento. Estou ali com uma pessoa que vai me dar uma informação e sou curiosa por tudo, não tem ninguém que não valha a pena.

“Entro em muitos grupos, vejo lá 'Família Bolsonaro Número 20' e entro. Entrei no do Sérgio Moro também, é um vício”
Malu Gaspar

Quando sai o livro sobre a Odebrecht? Antes do fim do ano. A Odebrecht criou um mecanismo de controle de governos em todos os continentes, é uma empresa gigantesca que fazia coisas que as outras não conseguiam fazer. Não é preto no branco, é cheio de nuances. A Odebrecht deu propina para todos os partidos. É a história do Brasil funcionando.

No Foro de Teresina você costuma ter uma postura mais de centro nas discussões. Como você enxerga sua posição? Isentona [risos]! Eu não gosto de maniqueísmo. Se ser de centro significa não aderir facilmente a discursos de nenhuma bolha ideológica, então sou isentona. Se eu aderir fácil a qualquer versão, acabou minha capacidade de analisar criticamente as coisas. Eu brinco que sou radical de centro. Isso te tira da zona de conforto. É muito mais fácil ser bolsominion ou de esquerda e ficar só no seu ambiente, em que todo mundo concorda. Eu não faço isso. No podcast, é difícil falar com dois homens e discordar, mesmo que haja respeito. Muitas mulheres falam comigo e dizem que ficam orgulhosas. Eu não tinha ideia disso. Passei a valorizar. Vi que isso ajuda outras mulheres a se posicionarem.

Você ainda está infiltrada em grupos bolsonaristas no WhatsApp? Sim, isso é super importante. Esse grupos antecipam tudo o que vai ser dito pelo presidente ou pelos deputados bolsonaristas. Tem todo tipo de fake lá. Existe uma retroalimentação do discurso. Eu me divirto, mas é instrumento de trabalho pra ver como eles estão pensando e o que vai vir. Vejo vídeos que eu não veria de outra forma, se eu não estivesse nessa rede. Eu me vicio e entro em muitos grupos, vejo lá "Família Bolsonaro Número 20" e entro. Tenho tipo 8 grupos. Entrei no do Sérgio Moro também, vou entrando, é um vício.

“Eu brinco que sou radical de centro. Isso te tira da zona de conforto”
Malu Gaspar

Você já falou no podcast sobre a politização da discussão sobre a pandemia e de como isso atrapalha na condução da crise. Como enxerga essa questão? Isso é um perigo, é um horror. Isso desloca a gente da realidade. As pessoas sensatas que entendem que ciência importa e que estão preocupadas com a vida dos outros não podem cair na armadilha que o presidente colocou pra gente. Ele politizou as coisas dizendo que quem toma cloroquina é de direita. A doença não é política. É um contra-senso ficar negando as coisas. As pessoas precisam trabalhar e as crianças precisam estudar. É uma tragédia essas crianças longe da escola. Parece que, pra você ser razoável, tem que dizer que enquanto morrer uma pessoa de coronavírus no mundo você não pode sair de casa. E não é assim, não tem como ser assim. A gente tem que escapar dessa armadilha que o bolsonarismo colocou pra gente. Não podemos politizar o vírus. Não adianta dar uma guinada de 360 graus e cair no mesmo buraco. Isso é ruim pra todo mundo. E a esquerda cai nisso quando diz que ninguém mais pode sair de casa e que a imunidade de rebanho não existe, que não há limiar a partir do qual se possa voltar às atividades. Isso me incomoda. A gente não pode ser negacionista ao contrário. 

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Você parece ter uma noção clara sobre quem manda no Brasil. Quem manda no Brasil? Não é o Olavo de Carvalho. São os novos líderes de Brasília, o pessoal da Faria Lima, que tem uma visão da política muito concreta, que recebe e encontra políticos e convive com essas pessoas. Eles pautam os políticos. Mas não é todo mundo no empresariado que manda, isso varia de acordo com o governo. É fácil saber quem são os políticos mais influentes do Congresso e temos que entender o que ele pensam e quais são os interesses deles. Rodrigo Maia, Davi Alcolumbre, Rogério Marinho, Ricardo Barros. E os empresários, a Fiesp, André Esteves. Esses caras definem os rumos do Brasil. Não tem mistério, não é segredo. 

Está muito em pauta agora a questão da expansão do auxílio emergencial e como isso pode representar uma ruptura do governo com o Paulo Guedes e o empresariado. Você acha que isso vai acontecer? Pra eles o que interessa é saber se o Brasil vai quebrar. Tem um caldo de condições que eles querem para desenvolver negócios. O auxílio emergencial não necessariamente é um problema. O crescimento do varejo neste trimestre foi maior do que o esperado porque o auxílio alimentou as comprar na Magalu, na Havan. Esses caras vendem ações para os 'farialimers' e botam dinheiro. Isso não é ruim. Ruim é fuga de capital, juros subindo, dólar alto demais. Não tem ideologia. É o pragmatismo que une o centrão, o mercado e o Bolsonaro. O presidente quer fazer obra, gastar em infra e pagar o auxílio emergencial porque precisa chegar em 2022. Se isso não quebrar o Brasil, tá ok. Mas, se os gringos que botam dinheiro nos fundos começarem a sair, isso vai ser problema. Do mesmo jeito que a Amazônia e o meio ambiente são um problemão pro mercado, e por isso o governo é cobrado todo santo dia. O auxílio não é necessariamente um problema para o mercado. 

Você é paulistana, cobre Brasília, mas mora no Rio. Por quê? Já moro no Rio há 15 anos, no Jardim Botânico. Eu sempre quis morar aqui, me sinto carioca de alma. Vinicius, meu marido, trabalha na Globo e recebeu um convite pra vir trabalhar aqui. Vim na aba dele. A gente se conheceu em Brasília, quando morávamos lá. 

Como está sua rotina? Tô sentindo muita falta de sair pra rua, tomar sol. Tô que nem toda mãe de classe média, no homeschooling e home office. 

Quantos filhos vocês têm? Rola papo de política em casa? Temos 2 filhos. Gabriel, de 12, e Marina, de 8. Sim, discutimos muito sobre política. Quando meu filho era pequeno, eu contava história do Eike Batista para ele dormir. A Marina sabe quem é Marcelo Odebrecht. Eles cobrem eleição junto com a gente, acompanham a apuração, fazer o que, né?

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