por Natacha Cortêz

A quadrinista argentina fala de sua estreia como escritora com o romance ”Segredos de menina”


Depois de uma carreira de mais de 20 anos dedicada às tirinhas e ao sucesso Mulheres Alteradas, a quadrinista argentina Maitena Burundarena, 51, estreia como escritora com Segredos de menina (ed. Berinvá; 2013). Por causa do romance, conta à Tpm, resgatou memórias da adolescência e para algumas pode olhar de perto pela primeira vez. Com referências autobiográficas fortes e uma temática que foge do universo feminino que costumava tratar nas tirinhas, a autora traz uma narrativa envolvente, difícil de largar. "Me encontrei escrevendo uma história com um cenário de religião e política, dois temas que não tinha vontade de tratar antes."

Na Buenos Aires do fim do governo peronista, a protagonista de Segredos de menina, uma adolescente de 12 anoscresce em uma família de direita, católica, numerosa e centralizada na figura da mãe, uma senhora depressiva, pouco paciente e sem ouvidos nenhum. Inclusive, é para a própria mãe que a autora dedica o livro, e mais, diz que mesmo com os tantos anos de desentendimentos com ela, é sempre a mãe sua musa mais recorrente, inclusive nos quadrinhos. "Ela é a rainha das alteradas."

Conversamos com Maitena sobre sua estreia como escritora, as nuances de seu romance e sobre o feminismo em suas obras. "Nunca me propus a fazer feminismo com o meu trabalho, isso foi acontecendo. Porque meus personagens falavam das coisas que me preocupavam, das diferenças entre a vida dos homens e a vida das mulheres."  

Por que trocar os quadrinhos por literatura? Já era uma vontade antiga? Basicamente porque posso. É um verdadeiro privilégio poder se dedicar ao que você quer, e eu sempre tive vontade de escrever, mas meu trabalho como quadrinista ocupava todo meu tempo. A troca aconteceu pela necessidade de fazer algo diferente, de provar outras coisas e de sair da zona de comodidade.

No processo criativo, qual é a maior diferença entre escrever quadrinhos e escrever um romance? Aliás, quanto tempo levou para escrever? Bem, meus quadrinhos são para rir, em compensação, o romance é para chorar. [risos] Levei quatro anos pra escrevê-lo, e o fiz inteiro três vezes. Foi um romance de iniciação em vários sentidos. No sentido temático, porque a protagonista tem 12 anos, mas também no formal porque fui aprendendo como escrever um livro. 

Li que sua história é autobiográfica. Quanto autobiográfica ela é? E como foi revisitar memórias tão fortes, antigas e íntimas? O romance tem muitos elementos autobiográficos, mesmo assim é uma ficção. Inclusive, posso dizer que a memória é em si mesma uma construção. Nem todos os irmãos têm os mesmas recordações de todas as coisas, não? De toda forma, para escrever o livro, embarquei em uma viagem ao passado que me foi muito comovente. Abrir portas que estavam fechadas e olhar dentro delas, em alguns casos pela primeira vez na vida.

Imagino que você deve ter lido e relido o livro. Como é ler fragmentos de sua própria história? O distanciamento como leitora agora, e depois de tantos anos, te traz novas percepções? O tempo e a distância mudam muito a maneira de ver as coisas. Poder olhar com o distanciamento de agora ajuda a compreender tudo de forma mais fácil. Além de todas as coisas inesperadas que aparecem quando se escreve. Pensei que escreveria um romance de aventuras e sexo, e me encontrei escrevendo uma história com um cenário de religião e política, dois temas que não me ocorreram quando comecei a escrever.

Como a linguagem usada em Mulheres Alteradas influenciou na escrita do romance? O fato de ter escrito tantas conversas coloquiais entre os personagens de Mulheres Alteradas me deu muita flexibilidade nas negociações, como treinar o ouvido para ouvir vozes. Isso em um romance pode ser muito útil.

Sentiu falta do desenho enquanto construía a história de Segredos de Menina? Não. Mas em algum momento enquanto eu escrevia, necessitei desenhar personagens para sentir como eram, então fiz alguns rascunhos a lápis. Também desenhei o mapa do bairro onde acontece o romance. E esbocei algum cenário, quase sem pensar, em alguma hora solta.

Já pensou em misturar literatura e desenho? Tem algum plano assim? Já fiz graphic novel no final dos anos 1980, quadrinhos eróticos de várias páginas... E agora estou desenhando um conto de Cortázar para um livro que vai ser editado por causa do centenário do seu nascimento. Não descarto em nenhum momento fazer algo nesse formato. Quem sabe? A vida é tão imprevisível! Mas, neste momento, meu projeto é escrever outro romance.

Como leitora, quem você costuma ler? Quem são seus escritores preferidos? Aliás, tem mulheres que escrevem e que você admira? Gostaria que falasse delas. Meus escritores preferidos mudam continuamente, mas digamos que Raymond Carver, Mario Levrero, Roberto Bolaño e Alan Pauls, estão no pódio sempre. As escritoras Carlson Mc Cullers, Dorothy Parker, H.M Holmes, Ann Beattie, também. E tenho uma nova favorita, que com menos de 30 anos escreveu um livro que me deixou tremendo (de inveja!), a mexicana Valeria Luiselli, autora de Los Ingrávidos. Eu gosto da escrita que mergulha no mundo da percepção, a observação da linguagem não-verbal, que é onde muitas vezes se diz as coisas mais importantes. Alice Munro também possui esse registro com muita profundidade.

 

"É muito fácil para uma mulher de 25 anos que estuda, trabalha, vota, dirige, tem uma máquina de lavar roupa e toma pílula anticoncepcional dizer que o feminismo é antiquado"


Em uma entrevista para o programa Roda Vida (TV Cultura), aqui mesmo no Brasil, você diz que sem o feminismo ainda estaríamos todas passando roupa. Como o feminismo te ajudou no seu trabalho? E como o feminismo te ajudou na sua própria vida? Quando, aos 20 anos, li O segundo sexo, de Simone de Beauvoir, entendi tudo o que intuía que estava ruim. Ela dizia algo que ainda hoje é polêmico para muita gente: não se nasce mulher, torna-se mulher, e na década de 1940 falava que ser mulher é uma construção cultural, o que hoje em dia, com a necessária/saudável aceitação do transexualismo, é um tema muito atual. Também Um teto todo seu, de Virginia Woolf, iluminou meu caminho em um momento fundamental da vida. Em casa, tive o modelo de mãe que abandonou a carreira profissional para criar os filhos e os reprimiu a vida toda! Mas havia outra vida possível. Nunca me propus a fazer feminismo com o meu trabalho, isso foi acontecendo sozinho. Porque meus personagens falavam das coisas que me preocupavam, das diferenças entre a vida dos homens e a vida das mulheres.

Ainda sobre o feminismo, acha que hoje ele ainda faz sentido permanecer? Dizer que sou feminista não é “cool” hoje como era antes. Mas o feminismo é o movimento político que maiores mudanças tem gerado no último século. É muito fácil para uma mulher de 25 anos que estuda, trabalha, vota, dirige, tem uma máquina de lavar roupa e toma pílula anticoncepcional dizer que o feminismo é antiquado. Mas se olharmos nas classes mais baixas da sociedade, ainda é necessário um enorme trabalho para libertar as mulheres da sujeição à cultura machista.

 

"Ah, minha mãe. Toda a vida me desentendendo com ela e mesmo assim é minha musa mais recorrente!"


Também na entrevista para o Roda Viva você fala sobre a influência de sua relação com sua mãe na construção do romance. A dedicatória do livro também é pra ela. Como a personalidade dela te influenciou como escritora? Aliás, a personalidade dela foi inspiração pra criação de Mulheres Alteradas? Ah, minha mãe... Toda a vida me desentendendo com ela e mesmo assim é minha musa mais recorrente! Mulheres Alteradas é dedicado a ela, a rainha das alteradas! Mas escrever Segredos de menina me ajudou a vê-la de outra maneira e poder compreendê-la. Ao mesmo tempo, pude me aproximar dela e dizer isso - foi genial. Morreu um ano antes de eu terminar o livro, e sua partida me serviu para construir com maior liberdade a mãe da protagonista, que acredito que se transformou no personagem mais interessante da história. Uma mãe maniaco depressiva – o que agora chamam de bipolar - que dirige a casa da cama, muito em sintonia com os anos 1970. É incrível como muitas pessoas me disseram: "Minha mãe era assim também!". 

Vai lá: Segredos de menina, ed. Benvirá, R$ 29,90

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