por Thiago Iacocca
Tpm #121

A trajetória de Belita, uma das responsáveis pela Flip e pela reinvenção de Paraty

Izabel Cermelli, a Belita, participou da criação do principal evento de literatura do Brasil – a Flip –, é filha de uma das mais premiadas produtoras de cachaça do país e, aos 44 anos, resolveu voltar a morar na cidade que ajudou a reinventar

Ao encontrar Izabel Cermelli em Paraty, no fim de uma quinta-feira, sua aflição surpreende. Mesmo a cidade sendo cercada de praias e porções intocadas de mata atlântica – sinônimo óbvio de sossego –, Belita, apelido que já virou nome, estava lá, trabalhando e preocupada. Talvez o fato de ter deixado a loucura de São Paulo e retornado à terra natal há poucos meses ainda a influencie mais do que gostaria. “Às vezes não parece, mas sou muito agitada, quero fazer tudo ao mesmo tempo, vivo com meu BlackBerry, respondendo e-mails, tentando resolver tudo”, conta.

O sorriso genuíno e a pele bronzeada, porém, passam a sensação de que nunca viveu fora de Paraty. À vontade em uma roupa que parecia escolhida por quem trabalha em casa, solta: “De preferência, visto algo que dê para praticar tai”, diz, despretensiosamente.

Tai é o tai chi chuan que treina pelas manhãs. Uma vez, seu professor, ao indicar diferentes treinos para cada aluno, disse a ela: “Você fica quieta, Belita”, revela, rindo do ponto fraco, apesar de se mostrar contra o estereótipo da mulher que dá conta de tudo. “Quero conseguir fazer menos coisas e com mais intensidade cada uma”, pontua, deixando escapar um traço marcante de sua personalidade. O jeito simples de falar entrega uma mulher que parece não ter noção de sua força, mas que, ao mesmo tempo, não duvida de si mesma.

Flip
E foi assim, com esse jeito “sem querer, vai fazendo”, que Belita começou na produção da Flip, a Festa Literária Internacional de Paraty, em 2003, e virou diretora executiva da Casa Azul, ONG criada para que o evento acontecesse (entre outros projetos, estão a revitalização sustentável da cidade). Na época, ela era próxima de quem estava pensando o evento: a editora inglesa Liz Calder, o marido dela, o escritor Louis Baum, o editor Luiz Schwartz (fundador da Cia. das Letras) e o arquiteto Mauro Munhoz, seu ex-marido. “Pode começar com uma tarde, se for inesquecível, depois cresce”, resgata as palavras proferidas por um dos envolvidos, sem lembrar qual. Na reunião em que decidiriam quem produziria tudo, Belita herdou essa responsabilidade. Hoje, de volta a Paraty, acompanha tudo de perto. Mauro explica a vantagem de tê-la próxima do evento. “Ela é rigorosa e detalhista. Pelo fato de ter se formado em física, tem o pensamento estruturado, e a Flip precisa de todos os detalhes bem cuidados”, elogia.

A Festa Literária (que promove sua décima edição em julho e já levou escritores como Ariano Suassuna, Gay Talese e Sophie Calle) tomou proporções maiores do que imaginavam. “Brincamos que a Flip foi um bebê que nasceu de dentes e bigode”, diz. No primeiro ano, o que seria uma tarde com três escritores se transformou em um dia de eventos – 6 mil pessoas passaram por lá (em 2011, em cinco dias, contabilizaram entre 20 e 25 mil). Tiveram, portanto, que armar telões em pontos improvisados da cidade, pois muita gente ficou de fora. “Sabemos que não tem mais como crescer. Agora, precisamos cuidar da população e da cultura local, para que ela não perca sua identidade diante de tudo isso”, afirma Belita. 
Liz Calder destaca a participação da moça: “Desde o começo, ela foi muito importante para a criação e para a continuidade da Flip. Por ser da cidade, ajudou muito na relação com os estrangeiros”.

A casa das sete mulheres
Nascida em 1968, Belita é a mais velha da união entre um argentino e uma paratiense. O pai, Carlos Armando Cermelli, saiu da Argentina para escapar do serviço militar e, em passagem pelo Rio de Janeiro, resolveu ficar. Mesmo sem diploma, entrou para o escritório do arquiteto Sérgio Bernardes, onde encontrou sua profissão. Foi morar em Paraty por causa de um trabalho e, assim, conheceu a mãe de Belita. Maria Izabel merece capítulo à parte. Ela é um mito na cidade. Há 16 anos, passou a produzir, no sítio à beira-mar onde mora, a cachaça paratiense homônima – uma das melhores do país. Belita ajuda a mãe aos fins de semana. “Pra relaxar, fico colando rótulo e lacrando garrafa”, diz. Maria Izabel vê na filha a mesma força que carrega. “Izabelita é uma artista, tudo que quer fazer, ela faz. Tem dificuldade de lidar com os problemas cotidianos, mas resolve coisas complicadas como ninguém”, explica. Uma das irmãs, Mariza, 35 anos, corrobora a opinião da mãe. “Belita é extremamente divertida, inteligente e talentosa. Até quando decide entrar em crise, ela demonstra muito talento”, descreve, rindo.

 

“Meu trabalho é esse – por esse lugar [Paraty] e sua gente. Tanto o lugar quanto sua gente já me fizeram muito bem e espero retribuir”

 

Belita tem sete irmãs: quatro por parte de pai e mãe (Maria, Mabel, Mariza, Maíra), uma do segundo casamento da mãe (Maia) e duas da segunda união do pai (Sandra e Regina). Ela conta que tanta mulher junta criou até lenda. Nas ruas de Paraty, já foi surpreendida mais de uma vez com a pergunta: “Você sabe de uma ilha onde vivem sete mulheres?”. O folclore, que demorou a perceber que era justamente sobre sua família, foi alimentado pela reunião das irmãs nas férias. “A casa da minha mãe fica numa península, por isso parece que é uma ilha”, explica.

Idas e vindas
É lá que Belita, 44 anos, vive com a filha, Rosa, 6. Acorda às sete da manhã, pratica tai chi chuan, medita – o que só agora está encontrando tranquilidade para fazer – e, antes da escola, leva a filha para aulas de inglês, natação e cerâmica. A mudança, aliás, foi ótima. “A diferença é que em São Paulo você vive em ilhas. Ilha da escolinha, do clube. Aqui não, todo mundo se conhece. Se ela briga na escola com as amiguinhas, no dia seguinte, aonde for, vai ter de lidar com elas. Rosa está aprendendo isso e está muito mais consequente”, observa.

Em São Paulo (a primeira vez que morou na cidade foi nos anos 80, quando se formou em física na USP), Belita se achava alheia a tudo: sentia falta de conhecer o dono da padaria, de saber que os amigos estavam por perto. Para lidar com isso, pensou até em grafitar. “Queria desenhar conhecidos em muros pelos quais passava. Assim, no caminho, poderia cumprimentá-los”, conta, divertindo-se com a ideia. Comprou dezenas de sprays de tinta, mas confessa ter ido para a rua uma só vez. “Penso muito, mas sou difícil para executar”, solta.

Na década de 90, morou em Barcelona, Praga e Londres, onde o namorado fazia pósgraduação. Mas problemas pessoais e uma crise no namoro fizeram dessa uma das fases mais difíceis da sua vida. Em dezembro de 98, decidiu voltar de vez com a intenção de morar em Paraty. “Me senti cuidada pela cidade e pelas pessoas.” Porém, em 99 conheceu Mauro e foi morar em São Paulo novamente. Ficou casada com ele por 11 anos e tiveram Rosa. Questionada se a filha se parece com ela, responde: “Ela é a cara do pai. Mas é meio louca que nem eu, tem uma doideira parecida... Nós duas temos a capacidade de mergulhar numa história, somos mais mentais que físicas”, acredita.

Por falar em mergulhar, aos fins de semana, Belita “mergulha no azul”, como diz. Sai com Rosa na baleeira da mãe e vão até alguma ilha. Programa de garotas. Ela conta que, agora, o coração está descansando. “Hoje, sei como é difícil dividir uma vida. A relação a dois pode ser ótima, mas é preciso muito amor e que ele esteja acima de tudo”, teoriza. Diante da complexidade, diz acreditar em alternativas ao modelo tradicional de casamento, mas acha a questão delicada. Pensou que poderia viver em uma casa separada do ex-marido, mas viu que a atitude era uma tentativa inconsciente de não assumir que queria se separar. “Estávamos apenas encobrindo a difícil decisão de romper.” Se ela se casaria novamente? “Se me apaixonasse agora, com certeza.”

Por ora, anda em lua de mel com a cidade onde se criou e a qual ajudou a colocar na rota literária internacional. “Meu trabalho é esse – por esse lugar e sua gente. Tanto o lugar quanto sua gente já me fizeram muito bem e espero retribuir”, finaliza, já atrasada para seu próximo compromisso.

Créditos

Imagem principal: Pablo Saborido

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