por Ricardo Calil
Tpm #106

Aos 28 anos, Tainá Muller vai direto ao olho do furacão para ser vilã na novela de Gilberto Braga

Aos 3 anos, ela aprendeu a ler sozinha. Aos 11, teve a primeira crise existencial. Foi de estudante de jornalismo a modelo internacional e a revelação do cinema independente em tempo recorde. Aos 28, vai direto para o olho do furacão: ser vilã na novela de Gilberto Braga. Com vocês, a mutável Tainá Müller

Tainá Müller não vê o furacão se aproximando. Ela ainda encontra tempo para se preocupar com detalhes, com gentilezas. Pedir desculpas porque a faxineira faltou e ela não teve tempo de passar aspirador em seu apartamento cheio de pelos de gato. Contar que se sente mais livre caminhando com o novo cabelo curto, que deixa à mostra sua tatuagem de estrela na nuca. Tomar um suco de laranja e comer pão com manteiga na chapa na padaria perto de casa.

"Você não é aquela atriz do... Tropa de Elite 2?", pergunta discretamente a atendente da padaria. "Eu adorei o filme." Depois Tainá me conta: "As pessoas sempre fazem essa pausa antes de terminar a pergunta. Eu nunca sei se elas vão falar de Cão sem Dono [o filme de 2007 em que ela estreou como atriz], de Revelação [a novela do SBT que protagonizou dois anos depois] ou de Tropa de Elite 2 [o fenômeno de público em que faz o papel pequeno, mas marcante, da repórter que denuncia as milícias cariocas]". Eu comento que, daqui a um mês, ela não vai ter mais dúvidas; vai saber exatamente por qual trabalho as pessoas a reconheceram. E ela, quase displicente, pergunta: "Você acha mesmo?".

O furacão tem nome: Insensato Coração. E data para alcançar Tainá: ela entra na trama em meados de fevereiro. Não se trata de uma ventania qualquer. É uma novela das nove da Globo. É uma obra de Gilberto Braga (em parceria com Ricardo Linhares). É um papel de vilã. Basta lembrar dos estragos causados por Maria de Fátima em Vale tudo (1988) ou Laura em Celebridade (2003). E o papel de Tainá tem potencial: patricinha desbocada que acoberta as amantes do pai em troca de recompensas monetárias e namora um rapaz que vai se descobrir gay.

Aos 28 anos, a atriz gaúcha ainda não compreende até que ponto sua vida vai mudar. Sabe que nos próximos meses trocará o apartamento onde recebeu a reportagem da Tpm, em Higienópolis, São Paulo, por outro na Lagoa, Rio de Janeiro. Sabe que passará menos tempo com o namorado, os amigos, os gatos. Mas tem apenas uma vaga desconfiança de como será a rotina de superexposição, de abordagens nem sempre delicadas dos fãs, de passos seguidos pelos paparazzi. "Eu vi o que aconteceu com o Julinho. Outro dia umas meninas chegaram nele histéricas. Parecia a beatlemania." Julinho é o ator Julio Andrade, namorado de Tainá há três anos, o mordomo Arturzinho de Passione.

"Como atriz, eu posso sussurrar, gritar ou falar no megafone. Agora é a hora do megafone, hora de sair da arrogância de me fechar no microcosmo do pequenismo"

David Lynch

Tainá também entende que não será mais vista apenas como a musa do underground gaúcho, como a revelação do cinema alternativo, como a garota dos shows burlescos no Studio SP, casa noturna da rua Augusta. "Como atriz, posso sussurrar, gritar ou falar no megafone. Agora é a hora do megafone. Quero falar com muita gente, quero brincar com o preconceito, sair da arrogância de me fechar no microcosmo do pequenismo. E não é qualquer trabalho: é uma vilã do Gilberto Braga e do Ricardo Linhares."

Os autores retribuem o elogio. "Tainá mostrou sensibilidade para o papel e ótimo entendimento das motivações da personagem. E ela me disse que não tem nenhum pudor em fazer uma personagem que talvez venha a ser odiada", conta Ricardo Linhares. Gilberto Braga é mais direto na explicação: "Ela é ótima atriz, inteligente e bonita".

Em momento profissional parecido, Julio Andrade conta que a chegada à televisão "foi uma mudança batalhada, desejada por nós dois". "Queremos surfar mais de uma onda. Eu tenho certeza de que a Tainá vai se sair bem nessa porque ela é muito determinada." A geminiana Tainá completa: "Gosto de andar na contramão, de quebrar minhas próprias expectativas. Às vezes, isso significa fazer uma novela da Globo depois de um filme independente. Mas eu quero sempre voltar para meus projetos. Sou um ser mutável".

Ela também é uma garota precoce - o que sempre a fez se sentir "fora de compasso" com o resto do mundo. "A Tainá fez tudo muito cedo e muito bem. Ela podia ter sido uma ótima pianista, uma ótima bailarina. Para mim, é natural vê-la na novela das nove. Sempre achei que ela ia ser uma Madonna. Ou maior que Jesus Cristo", exagera a sério Titi Müller, irmã mais nova e VJ da MTV - que define Tainá como "intensa e dramática, na tradição das mulheres da família".

Aos 3 anos, primeira filha de um casal humilde de Porto Alegre, Tainá começou a ler sozinha, do nada. "Meus pais chamavam as visitas para me ver lendo o jornal. Eu me sentia uma aberração, o próprio Homem Elefante do filme do David Lynch" - ela ainda vai citar o cineasta americano, conhecido por suas tramas e personagens bizarros, muitas vezes durante a entrevista.

Aos 11, ela teve a primeira crise existencial, "por não conseguir conceber quais eram os limites do universo". Foi a primeira de muitas. "Crise existencial, seu nome é Tainá", ela diz sorrindo (hoje ela as mantém sob controle com terapia e meditação transcendental).

"Gosto de quebrar minhas expectativas. Às vezes, isso significa fazer uma novela da Globo depois de um filme independente. Sou um ser mutável"

Como havia pulado um ano de escola, chegou à faculdade de jornalismo com 16 anos. Em pouco tempo estava se revezando entre as aulas, os trabalhos (assistente de direção e de montagem e VJ da MTV local) e as noites com amigos nos bares de Porto Alegre. Aos 19, estafada, cochilou ao volante e sofreu um acidente grave, com perda total do carro, mas com ferimentos leves. Decidiu que era hora de dar um tempo do jornalismo e lembrou do conselho de um amigo para tentar a sorte como modelo, apesar de estar longe dos padrões da profissão, com seu 1,68 metro de altura. Também recordou as palavras do escritor Fabrício Carpinejar: "Tainá, você é tão simpática. Não vá se esconder no gelo de uma ilha de edição". Carpinejar provavelmente queria dizer "adorável" ou "encantadora". Mas ele vive de escolher palavras que não são as mais óbvias.

A chegada ao mundo da moda foi tardia, mas como sempre tudo aconteceu rápido. Ela deixou umas fotos na Ford Models e, um mês depois, voou para longe do frio das ilhas de edição: Tailândia, Hong Kong, China. Ali viveu situações surreais, "lynchianas", como posar de vitrine viva toda pintada de preto, enquanto o prefeito de Bangcoc discursava à sua frente. Meses depois, estava na Itália, vivendo num apartamento com 12 modelos russas, sem se comunicar. Em uma viagem com amigos, viu neve pela primeira vez e teve uma epifania: percebeu que queria viver de imaginar, que queria se reconectar à menina que passava os dias inventando histórias na Porto Alegre da década de 80. Aos 22 anos, descobriu que queria ser atriz.

Passou um tempo em São Paulo, fez um curso com a preparadora Fátima Toledo, pagou as contas com trabalhos de modelo. E, então, surgiu o convite para ser assistente de direção do longa Cão sem Dono, adaptação do livro O Dia em Que o Cão Morreu, do escritor Daniel Galera, seu namorado na época. Ela foi incumbida de entrevistar as candidatas a protagonista. Nenhuma agradou os diretores Beto Brant e Renato Ciasca. Até que um dia Brant falou: "A gente precisa de alguém como você". E ela respondeu: "Então sou eu. Quero ser atriz". E assim começou o trabalho que iria mudar a vida de Tainá, em vários sentidos. Logo em sua estreia, ganhou prêmios de melhor atriz em festivais importantes e pôde pisar no acelerador da carreira (em quatro anos, seu currículo inclui filmes como o chinês Plastic City e o inédito As Mães de Chico Xavier, novelas como a global Eterna Magia e o programa A Liga, da Band). De quebra, fez par com Julio Andrade, que viria a se tornar seu namorado. Detalhe importante: a personagem de Tainá tem muito dela própria, e o de Julio é uma espécie de alter ego de Daniel Galera.

"Meus pais chamavam as visitas para me ver lendo o jornal [aos 3 anos]. Me sentia uma aberração, o próprio Homem Elefante do filme do David Lynch"

Jung

Eu pergunto: "Você já refletiu sobre o significado de namorar uma pessoa que, grosso modo, representou seu namorado anterior num filme?". Tainá respira fundo antes de responder: "Claro... Por isso eu digo que o roteiro da minha vida foi escrito pelo David Lynch. Eu tenho um sonho recorrente, em que sou levada pela correnteza do mar. A minha terapeuta diz que, para Jung, o mar representa aquilo que não podemos controlar. O que aconteceu com o Julio foi uma dessas coisas que não podem ser controladas pela razão. Foi uma questão de sincronicidade [as ‘coincidências significativas', não casuais, analisadas por Jung]. Elas estão em toda parte na minha vida", revela.

Tainá dá mais um exemplo: os retratos que ilustram este perfil. A Tpm decidiu rodeá-la de origamis de tsurus, a ave sagrada do Japão que representa sorte, felicidade, saúde. Tainá teve uma surpresa ao chegar ao estúdio e encontrar o cenário da foto: seu símbolo pessoal é um pássaro. Ela então mostra ao repórter que desenhou um pássaro na parede de seu quarto. E conta que Julio desenhou outro para a capa de um livro de poemas que ela escreveu e que aguarda publicação. "Mas, para mim, o pássaro representa acima de tudo a liberdade que eu quero ter."

MAQUIAGEM BRUNO MIRANDA (CAPA MGT) ASSISTENTE DE FOTO GUILHERME DE ALMEIDA ASSISTENTE DE MAQUIAGEM LAIZA SILVA PRODUÇÃO ANA LUIZA TOSCANO VESTIDO POP UP STORE, COLARES PAULA VELLOSO E NEW ORDER VESTIDO BIANCA RANUCCI ESTILO DRICA CRUZ

OS ORIGAMIS DAS FOTOS FORAM FEITOS POR MEIRE AKAMINE E ANDRE SIMMANK. O TRABALHO PODE SER ENCONTRADO NO WWW.ARTEMPAPEL.COM.BR

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