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Foi por medo de avião

Foi por medo de avião

em 17 de julho de 2007

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Nina Lemos, a repórter com mais medo de avião de toda a redação, se submete a um curso de duas horas especialmente para quem tem medo de avião. Ela aprende que existem nuvens assassinas no céu. Mas que a gente não deve pensar no que vai acontecer “se” o avião bater numa delas

“Curso para perder o medo de avião? Isso é coisa de madame, não é?”, João, o motorista da redação, pergunta enquanto me leva até o consultório da psicóloga Rosana D’Ório, que oferece ses­sões que prometem ajudar quem (como eu) passa mal ao pri­mei­ro indício de turbulência. Ele continua. “Porque pobre não tem desse negócio. Pobre quando entra num avião é porque morreu algum parente no Norte e a família fez uma vaquinha para aju­dar a enterrar o corpo. Aí ele toma uma cachaça, e pronto.” Jo­ão é um sábio. E admito que sou uma madame que tem medo de avião. Uns 15 anos de análise resolveram boa parte do problema. Sim, já deixei de viajar por medo. Hoje, entro na boa em um avião. Mas sou daquelas que ficam olhando pela janela para ver se há al­gum indício de nuvem (atitude normal dos medrosos, como me ex­­pli­cou Rosana). Então, foi com interesse pessoal (e não só pro­fis­sio­nal) que me submeti a uma sessão de duas horas com a psi­có­loga, ex-aeromoça e especialista em acidentes aéreos (o que por si só é apavorante, pois faz a gente lembrar que, sim, aciden­tes aéreos são raros, mas acontecem). Será que eu resolveria o pro­blema que centenas de horas no divã criado por Freud não de­ram jeito?

Bem, um pouco, admito. Rosana me deu muitas informações úteis. Na sessão de duas horas (a maioria dura até cinco horas) e a R$ 100 – ela também dá workshops mais extensos (e intensos) pa­ra as mais apavoradas que eu, com duração de 12 horas e di­rei­to a visita a uma aeronave – aprendi muito sobre o funcionamento dos aviões.

Ao contrário do que temia, Rosana não me hipnotizou. Ela começa pergun­tan­do sobre a nossa vida. E sobre o nosso me­do. No meu caso, expliquei, o temor maior é de turbulências. Pois bem. Ela vai me contar toda a verdade. E até me mos­trar uma cena de um avião sendo atin­gi­do por um raio. Depois de ver a minha ca­ra de pavor, ela responde, calma: “Mas o avião não caiu, não é?”.

A psicóloga explica que mostra coisas apavorantes para que a gente (passageiro-paciente) encare a realidade e não as fantasias na hora de voar. Faz sentido. Mas ela me contou que existe uma nuvem perigosíssima, cheia de gelo dentro. Se um avião en­trar em uma delas, bate no gelo. Medo. “Mas não se preocupe. O radar mostra pontos roxos onde estão essas nuvens e nunca um comandante vai entrar em uma delas. Eles desviam. Estou te explicando isso pa­ra que você saiba por que acontecem as tur­bulências, ok?” Tá bom. Em seguida, ela re­pete o mantra: turbulência não derruba um avião! E me convence de que um vácuo po­de fazer a aeronave des­cer um pouco, mas não vai derrubá-lo no chão. Ok. Vou ten­tar acreditar.

Ela também me ensina técnicas de controle da mente. Além de repetir o mantra, devo parar de falar a palavra “se”. “Não entre nessas de pensar ‘se o avião cair, se a turbulência aumentar’. Troque o ‘se’ por ‘ainda’ e pense: o avião ainda não caiu.”

Começo a gostar dessa coisa de programação da mente. E resolvo que não vou mais me torturar com pensamentos do tipo: “e se eu me apaixonar?”. Daqui pra frente serei corajosa e falarei: “ainda não me apaixonei”. Será que existe curso para medo de amar? Tá, viajei (e nem foi de avião). Após ver slides e descobrir que depois da situação de pânico existe uma pior, chamada “terror”, em que a pessoa pode desmaiar (medo), fui submetida a relaxa­mentos e aprendi exercícios para fazer no avião. A idéia é que a gente controle a respiração e, retendo partes do corpo, consiga liberar adrenalina (que acalma) mesmo sentado. Existe desde um exercício com as pernas levantadas até uns mais discretos, para executivos. Pergunto por que os executivos têm essa mania irritante de serem discretos, mas fico sem resposta.

Se vou usar os exercícios em caso de turbulência? Claro! E, como não sou executiva, não serei nada discreta. Mas a turbulência AINDA não aconteceu. E, claro, mesmo se acontecer, lembrarei, “turbulência não derruba avião”, “turbulência não derruba avião”.

Vai lá: Dessensibilização do medo de voar, Rosana D’ Ório, psicóloga, (11) 8162-5935, rosanadorio@uol.com.br

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