por Flavia Guerra

Mulheres que contaram nas redes sociais seus primeiros assédios escrevem uma carta para si mesmas quando mais novas

Minha pequena eu,

Antes demais nada, ouça sua mãe. Quando ela disser, impávida como sempre, para pisar nos pés, dar cotoveladas e, se preciso, gritar com os que se esfregam em você no ônibus lotado a caminho da escola, ouça, não se envergonhe e faça como ela diz. Não se feche em sua timidez de menina, que não sabe ainda o que fazer com os seios que não são formados o suficientes para que te chamem de mulher, mas que já são grandes o suficiente para atrair olhares.

Você ainda vai aprender a lidar, e até a brincar, com o poder de fazer com que os homens te mirem com um olhar de cobiça. Mas lamento dizer que a sensação de medo e de estar em um filme surreal que você vai sentir aos 14 anos, quando um homem fingir pedir informações e, no fundo, não passar de um exibicionista que se masturba na sua frente, não vai passar. É uma pena que a primeira vez que você estiver diante de um homem ‘em riste’ vai ser nesta situação. Eu gostaria que essa lembrança viesse de um momento romântico com seu primeiro namorado. Mas não virá. E isso não podemos mudar. Mas, olha, posso te dizer que depois do medo, vai ficar uma memória até engraçada disso, um bom causo para contar.

Mas, tirando os pequenos grandes assédios que até hoje todos acham normal – e que somente agora muitas de nós têm coragem de abrir a boca para falar sem medo de serem taxadas de ‘histéricas na TPM’, o que posso te dizer é: Não tema. Você vai aprender que, para sua sorte, este cara que te assustou é só um frustrado incapaz de se relacionar com mulheres reais, que precisa exibir seu membro, enquanto se masturba, para meninas que saem correndo quando o veem em ação.

De toda forma, você vai ter medo e correr quando o vir. Se eu, a caminho do trabalho, às seis da manhã, numa rua de subúrbio ainda meio escura, me deparar com o mesmo homem, também vou ter medo. Mas não vou mais correr. Vou gritar, vou esculachar. A não ser que, como ocorreu outro dia, ele esteja armado. Algumas coisas nunca mudam. Eu, você daqui a algumas décadas, fui abordada, na rua de casa, por um homem armado. Pensei: ‘por favor, Universo, que não seja um maníaco.’ Era “só” um ladrão. O que me fez lembrar que aos 13 anos – enquanto lia Christiane F. Cheia de medo você se deparou com uma amiga, suando, esbaforida, logo após ser perseguida na rua de acesso à escola por um tarado. Não passe tantas noites assustada com isso. Eles, infelizmente, estão por toda parte. E ainda hoje, mais do que nunca, andamos ressabiadas, longe dos cantos das ruas, olhando para trás, prontas para correr a qualquer momento. Às vezes, como você vai fazer com o ‘tarado do carro’, corremos até cansar.

E preste atenção do lado de quem você vai sentar no cinema. Mas aprenda também a, antes de mudar de lugar, pisar no pé do sujeito desconhecido que se esfrega em você e, antes de levantar, mandá-lo em alto e bom som, para que todos ouçam, para o consultório do terapeuta. Tenha fé que as coisas vão melhorar. Esteja certa de que você e suas amigas e primas não devem ter vergonha dos assédios que sofrerem. Fale sobre os acontecidos com elas. Não se encolha, não chore, não se esconda. Não finja que nada está acontecendo quando algum homem, para quem você não deu a menor liberdade, não lançou nenhum olhar e nem deu abertura, passar do ponto que você considera saudável para você. Sua sensação de conforto é a medida de todas as coisas.

Quando você tiver 18 anos e seu chefe te disser para levantar a blusa e mostrar a barriguinha que “assim você convence quem quiser a fazer o que ele quer que seja”, não se cale. Mande-o levantar, ele, a camisa e negociar com o ‘pessoal da fotografia’ as fotos que ele quer para já.

E abra a boca na hora, sem medo de ser taxada de louca, sem vergonha de ser, mais uma vez, por  ser violada em seu direito de apenas ser.

Fica firme, beijo

...

Flávia Guerra, hoje com 37 anos, escreveu um depoimento em seu Facebook para a campanha #PrimeiroAssedio sobre todos os assedios que sofreu quando criança. 




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