por Juliana Sayuri

De Joan Didion a Nora Ephron, livro reúne autoras que marcaram discussões culturais e políticas do século 20

Ousadas, intrometidas, abusadas, elas conseguiram ocupar um lugar muitas vezes negado a mulheres: o debate público. Ainda assim, ficaram marcadas por adjetivos provocativos como os citados, como se estivessem se metendo onde não foram chamadas.

Este é o fio condutor do livro recém-lançado no Brasil, Afiadas: as mulheres que fizeram da opinião uma arte, da premiada jornalista e crítica canadense Michelle Dean.

No prefácio, a autora esclarece o título: a expressão “afiada” é elogiosa e, ao mesmo tempo, provocativa. Dizer que um autor é “afiado” é um elogio, quer dizer, incisivo, inteligente, perspicaz. Atribuir o adjetivo a uma autora, por outro lado, pode conter uma ironia implícita.

“Um objeto afiado, no final das contas, corta. Quanto mais pensava sobre isso, mais considerava quanto havia de fantasia em curso quando tais mulheres eram chamadas não só disso, mas de maldosas ou misteriosas, ou recebiam qualquer outro rótulo de tom vagamente ameaçador. A fantasia era de que eram destrutivas, perigosas e voláteis”, diz na introdução.

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Ao longo de 416 páginas, Michelle destaca dez mulheres que marcaram discussões culturais e políticas do século 20: a poetisa americana Dorothy Parker (1893-1967), a escritora britânica Rebecca West (1892-1983), a filósofa alemã Hannah Arendt (1906-1975), a ativista americana Mary McCarthy (1912-1989), a filósofa nova-iorquina Susan Sontag (1933-2004), a crítica californiana Pauline Kael (1919-2001), a escritora Joan Didion (1934-), a cineasta Nora Ephron (1941-2012), a jornalista ítalo-americana Renata Adler (1937-) e a jornalista checo-americana Janet Malcolm (1934-).

“Elas surgiram em um mundo que não tinha a menor disposição para ouvir as opiniões femininas sobre assunto algum. (…) Elas afrontaram abertamente todas as expectativas relacionadas a gênero antes que qualquer movimento feminista organizado tivesse atuado de forma a obter ganhos para as mulheres no seu conjunto. Com seu talento excepcional, conquistaram uma espécie de igualdade intelectual com os homens que outras jamais esperariam alcançar”, destaca a autora.

Misto de perfis biográficos, história e crítica cultural, o livro também cita a antropóloga afro-americana Zora Neale Hurston (1891-1960) e a dramaturga americana Lillian Hellman (1905-1984).

Entre as autoras abordadas, de diferentes repertórios e opiniões políticas, não há consenso sobre a etiqueta “feminista”: algumas vestiram a camisa do feminismo, outras oscilaram. E algumas até recusaram o rótulo, como Arendt. Dessas dissonâncias, porém, a autora buscou extrair uma mensagem feminista: “O feminismo deve dizer respeito, sim, à sororidade. Mas irmãs também discutem, por vezes chegando a grandes desavenças. O que nos define não é apenas termos nascido iguais. Se aprendemos alguma coisa com os debates sobre a intersecção de gêneros, é que a experiência que chamamos de ‘ser mulher’ é profundamente influenciada por ideias em torno de raça, classe e outras referências de caráter sociológico. Assim como pela personalidade individual”.

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Radicada em Los Angeles, Michelle escreve para publicações prestigiadas como The New Yorker, The New York Times Magazine e Slate. Nesta entrevista à Tpm, ela também se posiciona como uma mulher afiada, que faz da opinião uma arte. “Ser uma crítica mulher atualmente ainda é como ser uma criança diante do rei nu”, define.

A frase faz referência ao conto do autor dinamarquês Hans Christian Andersen: diante do “invisível” traje novo do imperador, apenas uma criança indiscreta e sincera tem a coragem de gritar “o rei está nu!”. Que a verdade seja dita – ou, como propõe a autora: “Você deve dizer o que quer dizer mesmo que não queiram te ouvir.”

Tpm. Como você escolheu as autoras para o livro?
Michelle Dean. 
Eu as escolhi porque elas foram vozes femininas que conseguiram romper barreiras e se fazer ouvir nacionalmente nos Estados Unidos, em uma época em que poucas escritoras mulheres tinham esse privilégio. Em parte, por talento; em parte, por reconhecimento como comentaristas únicas e perfurantes.

Conforme você destaca na introdução, nem todas as autoras se viam como feministas. Por quê? Bom, ser feminista significa algo específico de acordo com o contexto histórico. Antes, significava ser parte de um movimento em particular. Como digo no livro, as autoras eram “espíritos opositores”: elas não lidavam bem com os outros, o que significava que eram relutantes em se alinhar com uma bandeira política que viam como representação de algo específico. Nós não vemos mais o feminismo desta forma. Pensamos nele como um grande guarda-chuva, e não era assim antes.

Você se sente especialmente inspirada por uma das autoras abordadas no livro? Durante a pesquisa, Janet Malcolm era a escritora que mais me interessava, seguida de perto por Hannah Arendt. Mas, cada uma a seu modo, todas elas são inspiradoras: todas elas se posicionaram, defendendo posições impopulares para a época, com tamanha inteligência que as pessoas não puderam ignorá-las.

Na história dos intelectuais, vemos uma longa lista de autores homens escrevendo sobre o papel da intelectualidade, como Edward Said, Noam Chomsky, Norberto Bobbio, Pierre Bourdieu, Jean-Paul Sartre, Antonio Gramsci, entre outros. Durante sua pesquisa, você identificou o que as autoras abordadas no livro pensavam sobre seu papel como intelectuais? Penso que elas não se definiam tão a sério como os homens a respeito [de ser intelectual]. Costumo citar uma frase de Hannah Arendt – em uma entrevista no fim de sua vida, ela foi questionada sobre o efeito de seu trabalho sobre os outros e respondeu: “Sendo irônica, diria que esta é uma questão masculina. Homens sempre querem ser terrivelmente influenciadores, mas eu vejo isso como algo externo. Eu me imagino sendo influenciadora? Não. Eu quero mais é entender.”

Como jornalistas e intelectuais, nós frequentemente metemos o nariz onde não fomos chamadas. Como mulheres jornalistas e intelectuais, você acredita que somos vistas como um inconveniente ainda maior? Sim, penso que nós somos vistas como mais maldosas, porque as pessoas atribuem poderes destrutivos somente à mente intelectual feminina. É algo como uma neurose cultural. Todas as mulheres do livro eram constantemente acusadas de serem maldosas. E isso é algo que acontece com o meu próprio trabalho hoje. Para ser justa, como crítica, às vezes eu sou má, por motivos retóricos. Mas sou acusada de ser mesquinha – algo que nunca vi acontecer com meus colegas homens. 

Se fosse escrever um segundo livro, quais novas autoras você incluiria? Meu segundo livro não será sobre críticas. Se fosse, incluiria minha amiga Roxane Gay [ensaísta americana, autora de Má Feminista], Zoë Heller [jornalista britânica], Parul Sehgal [crítica literária indiana], Mark O’Connell [escritor irlandês] e Kathryn Schultz [jornalista americana]. O livro sobre a crítica contemporânea mundial seria, de muitas formas, mais diverso e vibrante.

Desde 2015, estamos vendo um novo momento para o movimento feminista no Brasil. Que dicas você teria para investigadoras brasileiras que pretendem realizar pesquisas, acadêmicas ou não, sobre o trabalho de autoras “afiadas”? Diria para elas que esta é uma história muito mais inspiradora do que já foi contada. Não existia só uma muralha de homens nesse contexto. Havia mulheres nos fios do que de longe pode parecer uma tapeçaria muito masculina. Metade da diversão da pesquisa do livro foi descobrir todos esses lugares, ao longo de um século, em que mulheres habilmente e inteligentemente se posicionaram por si mesmas.

Por fim, você se considera “afiada”? Devo dizer que sim. O livro não é autobiográfico explicitamente, mas pensei nele, sim, como uma cobertura autobiográfica pois eu sou uma crítica mulher imersa nesta cultura, e queria saber o que essas mulheres fizeram sobre essas questões que eu mesma estava encontrando. Ser uma crítica mulher agora ainda é um pouco como ser uma criança diante do rei nu, porque a verdade é que as pessoas não querem te ouvir. A questão do livro é que você deve dizer o que quer dizer mesmo que não queiram te ouvir.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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