por Madson de Moraes

Livro mostra a opressão e a violência às quais foram submetidas Maria Bonita e outras cangaceiras

Se tinha algo que dava um prazer intenso a Lampião, além de apunhalar seus rivais ou os “macacos”, como os cangaceiros chamavam os policiais no sertão nordestino dos anos 30, era “cobrir uma fêmea”, o que, no linguajar deles, significava estuprar uma mulher enquanto ela chorava. Isso quando não era o caso de aplicarem uma “gera”, nome conhecido na região por estupro coletivo. Lampião, o chefe, era o primeiro da fila. Para ele e seu bando, o estupro ocorria porque “as mulheres queriam”. E após a morte de seus maridos, as cangaceiras ficavam à disposição de qualquer um que as quisessem.

Zé Baiano, cangaceiro do bando, gostava de marcar mulheres com ferros para boi com as iniciais do seu nome na face, genitália, nádega ou panturrilha. Se a mulher estivesse de cabelo ou vestido curto, era castigada pelo cabra. Criar os próprios filhos também era outro direito negado a elas. Dadá, estuprada quando tinha 12 anos por Corisco, nome proeminente do cangaço, classificava essa dor como “a maior do mundo”.

 

Relatos como esses, que revelam o terror que foi a vida das mulheres que entraram para o cangaço - e também daquelas que tinham a infelicidade de cruzar com o bando de Lampião -, ganharam visibilidade em Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço, livro recém-lançado da jornalista Adriana Negreiros. 

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A obra busca tirar das sombras uma rotina de opressão e violência a que eram submetidas cangaceiras como Maria Bonita, Dadá, Durvinha, Otília e outras dezenas de mulheres que foram raptadas com extrema violência pelos cangaceiros. Ou que decidiram seguir o bando por conta própria, sonhando com uma vida de riqueza, folia e aventuras que fazia parte do imaginário popular sobre o cangaço. Mas aquela era uma “vida miserável”, diria Dadá.

Pesquisar sobre o cangaço, conta Adriana, foi se deparar com violências absurdas que mais parecem saídas de filmes de terror. Várias das mulheres que entraram para o cangaço, aproximadamente 40 e muitas delas à força, viviam uma rotina de ameaça constante de morte tanto por parte de seus companheiros quanto da polícia, além dos estupros que sofriam.

“Os cangaceiros se julgavam no direito de fazer com elas o que bem entendessem, inclusive matá-las. No bando de Lampião, elas eram vistas como propriedade privada de seus homens”, explica a autora. Era uma “vida desgraçada”, como relatou Otília, uma das inúmeras mulheres que foram obrigadas a entrar à força para o cangaço. Ou entravam ou morriam na bala.

Transgressora? Sim
Fascinada pelo cangaço desde menina, Adriana costumava ouvir da avó materna a história sobre como, em 1927, a cidade de Mossoró (RN), onde ela nasceu, se organizou em trincheiras e botou para correr na bala os cangaceiros.

Mas, diferentemente da literatura sobre o período, contada pela perspectiva masculina, Adriana optou por escrever sobre o cangaço do ponto de vista feminino, um recorte raro na historiografia sobre o período, uma escolha que ela definiu como “política e feminista”.

“Nas narrativas sobre o cangaço, de forma geral, só há homens. De bandoleiros a soldados, passando por políticos e jornalistas, os personagens são todos do sexo masculino. O principal objetivo do livro é jogar luzes sobre as narrativas das mulheres, que são historicamente silenciadas – no cangaço e em qualquer outro episódio”. 

A escolha da jornalista em escrever um livro sobre Maria Bonita foi embasada por seu pioneirismo e importância: ela foi a primeira mulher a entrar para o cangaço - e por vontade própria. Após sua chegada, Lampião daria passe livre para outras mulheres.

Para Adriana, Maria Bonita tinha um comportamento transgressor: uma mulher do sertão dos anos 1930, machista e opressor, que teve coragem de largar o marido e dar uma banana para a moral e bons costumes para cair nos braços do homem que amava, um fora da lei, ainda por cima. Seu bom-humor com “risada de rapariga”, como definiria a cangaceira Durvinha, era criticado por outras mulheres do bando.

Feminista? Não
Considerar Maria Bonita feminista seria um exagero: se por um lado ela exalava empoderamento, por outro reproduzia o machismo violento do cangaço.

Apesar de a cangaceira ter intervindo em raras ocasiões para que Lampião não violentasse mulheres, ela não defendia as próprias companheiras quando eram condenadas à morte por adultério. Adriana relata que a Rainha do Sertão tinha por hábito, por exemplo, arrancar brincos de mulheres inimigas à força, rasgando-lhes os lóbulos.

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Quando recebeu a pena de morte por ter traído seu marido no bando, Lídia tentou clamar por sua vida para a primeira-dama do cangaço, que lavou as mãos. “As mulheres também agiam de forma machista, não se apoiavam e até incentivavam a execução de suas colegas quando cometiam adultério”, diz Adriana que, no entanto, defende que Maria Bonita não era uma sádica. “Não há relatos de que ela tenha cometido assassinatos ou participado de torturas.”

Para algumas das cangaceiras, entrar para aquela vida sofrida e penosa era uma aventura e a possibilidade de outra existência que não fosse o marasmo dos dias quentes e tediosos do sertão. Os cangaceiros eram vistos por muitos como heróis, homens que protegiam os sertanejos da violência da polícia, além de bem-sucedidos por ostentar muito ouro.

Era comum, afirma a autora, ver mulheres suspirando por Lampião. “Entrar para o cangaço representava, para muitos sertanejos e sertanejas, a única possibilidade de uma vida outra que não a sina de viver enfrentando a miséria e a seca.”

Maria Bonita só depois da morte
O livro mostra que Maria só se tornou Bonita após sua morte. No bando de Lampião, ela era apenas Maria de Déa (uma referência à sua mãe) ou Maria do capitão. Há duas principais versões para a criação do apelido.

A primeira teria sido uma criação de jornalistas do Rio de Janeiro e a segunda, uma “homenagem” dos soldados que participaram da emboscada feita a ela em 28 de julho de 1938, na grota do Angico, em Sergipe, que resultou em sua morte, na de Lampião e de boa parte do bando. As cabeças decepadas foram expostas ao público em excursões fúnebres por cidades alagoanas.

“Retratada pelas fontes oficiais como criminosa e perigosa, afinal, era preciso justificar sua morte e decapitação, a figura de Maria Bonita logo seria apropriada pela indústria do entretenimento, mas com uma roupagem romântica. Daí a origem do mito da mulher guerreira, da Joana D’arc da caatinga”, diz Adriana.

E, diferentemente de como a cangaceira foi retratada na minissérie Lampião e Maria Bonita, exibida pela Globo em 1982, em que Maria Bonita duela de arma em punho com a polícia em uma das cenas, seu dia a dia do sertão era outro. Cangaceiras não atiravam, com exceção de Dadá, e suas funções no bando se reservavam mesmo a satisfazer a selvageria sexual dos maridos e cuidar dos afazeres domésticos em meio a mandacarus e a aridez daquela vida.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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