por Bruna Bittencourt

Uma das mais influentes escritoras americanas vivas é tema de documentário íntimo que chega hoje ao Netflix

Quando Joan Didion não consegue avançar em algum texto, ela, literalmente, o coloca no congelador, protegido por um saco plástico. Quem revela a prática é sua editora, Shelley Wanger, numa passagem de Joan Didion: The Center Will Not Hold, o documentário que teve première no Festival de Filmes de Nova York e estreia mundialmente hoje (27), no Netflix.

Em apenas um dia, Griffin Dunne, sobrinho da escritora que também dirige o doc, arrecadou por meio de crowfunding o dinheiro necessário para levantar o projeto, que ganhou o aporte do serviço de streaming. No tom intimista que a proximidade entre os dois proporciona, eles repassam entre fotos de família, imagens de arquivo, trechos de livros e entrevistas a trajetória e a obra da escritora de 82 anos, que escreveu seu primeiro esboço aos 5.

São cinco décadas de ensaios, reunidos em livros como Slouching towards Bethlehem (1968) e The white album (1979) – que a colocaram entre as principais cronistas norte-americanas –, romances, como Play it as it lays (1972) e A book of common prayer (1979), e críticas. Para escrever seus textos, Didion acompanhou Jim Morrison em um estúdio de gravação, testemunhou uma criança sob efeito de LSD no auge da cultura hippie em San Francisco, cozinhou para uma das mulheres de Charles Manson e acompanhou o regime opressor de El Salvador.
Sempre de óculos-escuros e com cigarro em punho nas fotos, ela tinha com o marido, o romancista John Gregory Dunne (1932-2003), uma cumplicidade também na escrita. Os dois nunca entregavam um artigo sem que o outro fizesse sua leitura final. "Era do tipo de casal em que um completava a frase do outro", lembra o escritor e amigo Calvin Trillin. "Ele ficava entre mim e o mundo", diz ela no filme.


Dunne e Didion escreviam a quatro mãos roteiros para o cinema e moraram por mais de duas décadas na Califórnia. Harrison Ford, que foi carpinteiro antes de ator, cuidou da reforma da casa do casal, em Malibu. Ali, eles recebiam convidados ilustres, como Brian de Palma e Steven Spielberg – dizem que Warren Beatty tinha uma queda por Didion, algo de que Dunne achava graça.

Ele e a filha adotada do casal, Quintana Roo, morreram em um intervalo de dois anos, entre 2003 e 2005. Didion escreveu sobre o luto por Dunn, vítima de um ataque cardíaco enquanto jantava, e as complicações da saúde da filha em O ano do pensamento mágico, vencedor do National Book Award de 2005. "O mais difícil foi terminar o livro, porque, enquanto escrevia, estava em contato com ele." Já a perda da filha de 39 anos desencadeada por uma pancreatite aguda Didion pôs no papel em Noites azuis, de 2011. "Romances são também sobre coisas com as quais temos medo de lidar", diz. Sua editora conclui: "Joan sempre escreve para descobrir o que pensa e sente”.

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