por Vanessa Ruiz
Tpm #133

Que ditadura é pior: Ter que andar coberta ou ter que estar “em plena forma”?

Que ditadura é pior: Ter que andar coberta ou ter que estar “em plena forma”? Uma brasileira traz algumas respostas de Dubai, nos Emirados Árabes

A conversa estava na metade quando minha entrevistada, uma extrovertida voluntária que ajuda na adaptação de brasileiras em Dubai, lançou o convite: “Quer ir a um casamento ?”. Já tinham me avisado que essa era uma forma de Jamile introduzir a cultura árabe às novas moradoras dos Emirados. Jamile Mussa Haikal, 50 anos, vive no Oriente Médio desde os 26, quando uma paixão que sobreviveu a um longo namoro a distância se transformou em casamento com um árabe – e rendeu a conversão da brasileira ao islã. “Depois de dois anos a distância, ele disse: ‘Minha família quer que eu case com uma mulher daqui, mas quero me casar com você. A única coisa que peço é que você se vista como a minha família’”, conta Jamile, na sala da casa em Sharjah, um dos sete Emirados, sem véu mesmo diante de um homem estranho à família, meu namorado, que acompanhava a entrevista.

Apesar de Jamile não se importar, a história é outra na esfera social. Assim que entramos, ela fecha as cortinas: “É para ninguém ver que ele está aqui conosco”. Um agravante: meu namorado vestia bermuda. Para demonstrar respeito, deveria estar de calça comprida – ao contrário do que chega a nós, as regras não têm só um gênero no islã. Mas, à exceção da cortina fechada, não houve problema nem quando o marido de Jamile, Hassan, passou pela sala. “Meu pai era sírio, vivo a cultura árabe, mas sou brasileira!”, diz ela. O par de Havaianas de Hassan e a paçoca servida com café mostram o amálgama de culturas naquela casa.

Jamile tinha familiaridade com a cultura árabe desde bebê, mas nunca tinha usado véu. “Quando meu marido pediu, pensei: ‘Não me interessa outro homem me olhar, mesmo. Já fiz minha escolha’.” Além do hijab, que cobre o cabelo, Jamile passou a usar também a abaya, túnica geralmente escura que serve para encobrir o formato do corpo. “A primeira coisa que as pessoas pensam é ‘coitada’. Por que coitada? Porque a mulher escolheu uma religião, outros costumes?”, questiona.

Escolhas estéticas
Em 2012, o trabalho como repórter de Fórmula 1 me levou a conhecer, em um curto espaço de tempo, alguns países islâmicos. Não me esqueço de quando, na Malásia, me aproximei de duas jornalistas locais cheia de curiosidade – e ingenuidade – para perguntar se trabalhavam normalmente. O que me atraiu? O hijab que usavam, como se ele fosse indício automático de restrições sem fim à mulher. Não era. “Sim, trabalhamos normalmente e cobrimos outros esportes também”, disseram.

A viagem seguinte foi para o Barein, onde dirigi carro sozinha e pedi informação a policiais sem véu e sem ser incomodada. Depois, fui a Dubai, minha primeira visita aos Emirados. Uma passada no supermercado de rede francesa – país, aliás, que afetou as tradições islâmicas ao proibir que qualquer pessoa frequentasse lugares públicos cobrindo o rosto – revelou um corredor cheio de abayas de vários tipos, com golas e mangas decoradas em cores diferentes, a maioria cheia de brilho. Uau! Quer dizer que a túnica não é de um tipo só, toda preta, todo mundo igual? Não, a abaya não é de um tipo só e não elimina escolhas estéticas ou julgamentos de classe social.

Minha experiência vestindo uma abaya foi rápida, meio turística, mas forte. Depois de conhecer Dubai, estive em Abu Dhabi e resolvi visitar a Grande Mesquita Sheikh Zayed. Por se tratar de um templo religioso, o grau de restrição é maior do que nas ruas dos Emirados e é preciso vestir uma abaya que eles mesmos oferecem, e que já vem com um véu acoplado (um capuz, na verdade) por praticidade.

Baú de ouro
Cobrir meu corpo daquela maneira gerou um turbilhão de questionamentos. Era aquilo mesmo o que eu estava sentindo? Alívio? Uma sensação de conforto veio do caimento desengonçado da abayagenérica, e aquilo foi contraditório para mim. Quer dizer que acho legal viver “escondida” sob um manto preto? Pensei que sim e me achei estranha. Depois entendi o porquê do conforto: chamar a atenção somente por fatores estéticos sempre me pareceu injusto e desgastante, e, de alguma forma, vestir aquela túnica me poupava disso.

"É raro ver uma menina árabe que tenha como única meta casar"

Por um segundo, fui capaz de me imaginar caminhando por uma calçada brasileira de abaya, sem ouvir de desconhecidos bobagens que ainda há quem chame de galanteio, mas que são simplesmente falta de respeito. Os pensamentos, então, acenderam nova luz de alerta: a opção pelo véu seria a resposta contra a incapacidade masculina de respeitar uma mulher? Já que não conseguem mesmo nos respeitar, melhor nos cobrir?

Mas aí eu conheci Maisoon. A mais velha dos seis filhos de Jamile tem 22 anos e faz faculdade de relações internacionais. Como a mãe, caminha pela vida na consciência de servir como ponto de encontro entre o islã e quem quer saber mais dele. Falando um português quase perfeito, Maisoon apareceu na sala usando o lenço que cobre o cabelo. Ela é cidadã dos Emirados e foi criada sob os fundamentos islâmicos em casa e na escola, seguindo a sharia, código de leis islâmico que rege o direito naquela sociedade – o Estado não é laico. Mas o véu não diminui em nada a energia de uma garota que nasceu para ser independente.

“O baú de ouro dela são os estudos. Ouro mesmo, ela compra depois”, diz Jamile, depois de explicar detalhes sobre dote e casamento nos Emirados. Maisoon garante que essa visão sobre o papel dos gêneros não é exclusiva de sua família meio árabe, meio brasileira: “É raro ver alguma menina [árabe] da minha idade que tenha como única meta casar”.

 

"Religião é uma coisa; o que você faz dela é outra totalmente diferente"

 

Como havia acontecido na Malásia, a naturalidade de Maisoon (que estuda em uma universidade de classes mistas, com garotos e garotas) tirou a carga de confusão das minhas reflexões sobre cobrir ou não o corpo, e sobre a interpretação ocidental dos costumes islâmicos. “Religião é uma coisa, tradição é outra”, ela explica, quando questionada sobre os exageros que se cometem em nome do islã.

Para nós, ocidentais, é mais fácil chamar “tudo aquilo lá” de “mundo árabe”. Mas a visão homogênea engana. Os Emirados Árabes são muito mais abertos do que países como Arábia Saudita, Kuweit e Iêmen no que diz respeito, por exemplo, à vestimenta feminina. Turistas e expatriadas têm liberdade total, embora atraiam olhares se excederem os limites sutis de pele exposta. Nos Emirados, depende da família. Não é incomum ver mulheres mais velhas usando o niqab, véu que cobre cabelo e boca, e deixa somente os olhos à mostra. Por outro lado, vi uma adolescente andando com a abaya aberta, como se fosse uma capa, exibindo sua roupa sem que se chamasse a polícia por isso.

A burca, famosa aqui por causa das imagens do Afeganistão, é ainda outra coisa: uma peça única que cobre da cabeça aos pés com um tecido tipo rede na altura dos olhos para a mulher poder enxergar. Só que, nos Emirados, burca é uma máscara metálica que vai da ponta do nariz à testa, deixando os olhos livres, e que é usada junto com o véu e a abaya.

Os planos de Maisoon, de véu e abaya, poderiam ser os mesmos que os meus. Ela ama o Brasil, onde passa férias e onde pretende fazer carreira diplomática, como enviada do governo ou da ONU. Vê-la ajeitando o véu com habilidade me deu vontade de aprender. Como mal consigo fazer uma trança, deixei que ela o fizesse enquanto me arrumava para o tal casamento. Elas insistiam: eu não precisava cobrir o cabelo. Mas, se eu estava na chuva, era para me molhar.

Conquistando a sogra

O evento aconteceu num grande salão onde só entravam mulheres (a festa é sempre para a noiva e convidadas da família). Os homens fazem uma celebração menor, que nesse caso acontecia ao mesmo tempo, do lado de fora, e podia ser acompanhada pelas mulheres por um telão. Depois de muita comida, música e garotas se exibindo para as possíveis futuras sogras, a cantora anunciou que o noivo entraria para buscar a noiva. Todas correram para buscar suas túnicas e véus. Os vestidos voltaram a ser um mistério.

Aquilo tudo faz sentido ali. Os jogos que jogamos aqui, incluindo o de sedução, se dão da mesma maneira. Da mesma forma que tenho dificuldade de fazer topless na praia, elas têm dificuldade de mostrar o cabelo e os contornos do corpo para estranhos. Há países islâmicos em que liberdades individuais são ignoradas num nível inadmissível? Sim. Mas há muçulmanos que interpretam esses costumes como inadmissíveis pelo próprio Corão. Uma edição inteira da Tpm não daria conta das diferenças entre os países e as tribos da Ásia e da África que se reúnem sob o islã. Antes de fazer associações levianas, procuro lembrar o que Maisoon ensinou: religião é uma coisa; o que você faz dela é outra totalmente diferente.

*colaborou na ilustração Ian Herman

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