por Sara Stopazzolli
Tpm #126

A índia Zahy e a luta para a preservação de uma aldeia ameaçada pela Copa 2014

Filha de uma respeitada pajé do Maranhão, a índia Zahy, 23 anos, lidera a luta para preservar a Aldeia Maracanã, ocupação ao lado do estádio carioca que periga ser demolida para a Copa

De segunda a sábado, Zahy acorda ao som de britadeiras e bate-estacas. Levanta da rede e espia da janela os homens de uniforme azul alterando o concreto do estádio do Maracanã. Ela não se importa. Segue sua vida como se estivesse no meio da floresta. Assa carne na fogueira, faz rituais, vive em comunidade. Mas também tem computador, Facebook, uma voz firme e a noção de que sua beleza por aqui é exótica e chama muito a atenção. E usa tudo isso por uma causa. Aos 23 anos, vive há quase quatro na aldeia Maracanã, ocupada em 2006 por 50 índios de 20 etnias diferentes para reivindicar a revitalização e o reconhecimento histórico do prédio em ruínas que já foi Museu do Índio e sede da SPI (antiga Funai). Os ocupantes querem transformá-lo em um centro cultural indígena que abrigue a história de seu povo.

Mas o imóvel, que pertencia à Conab (Companhia Nacional de Abastecimento), órgão vinculado ao Ministério da Agricultura, acaba de ser vendido ao governo do estado do Rio de Janeiro, que pretende colocá-lo abaixo para dar lugar a uma área de estacionamento e dispersão de público do estádio. Segundo a assessoria de imprensa do governo estadual, o projeto para a área está sendo definido. “A remoção dos índios ficará por conta do estado, que vai avaliar a melhor forma para que isso seja feito.” A Defensoria Pública da União iniciou uma ação para impedir a demolição do edifício, alegando que se trata de um patrimônio cultural e histórico.

Enquanto a Justiça não dá um parecer oficial, Zahy divulga sua causa. “Não estamos defendendo uma moradia pra gente. Cada um tem sua aldeia, seu canto independentemente daqui. Nossa luta é pela preservação”, explica ela. Durante a Rio+20, em julho passado, Zahy foi eleita a ativista indígena mais bela por um jornal carioca, e aproveitou a situação para expor suas ideias e reunir pessoas em um abraço simbólico em torno do Maracanã. Por meio da internet, divulga seus textos e os eventos mensais da ocupação, em que há contação de histórias, cantos, dança, venda de artesanatos, gastronomia indígena e aulas de tupi-guarani.

 

“Não estamos defendendo uma moradia pra gente. Nossa luta é pela preservação”

 

Há alguns meses, a moça foi personagem-título de um curta-metragem de Felipe Bragança que chama a atenção para a situação da aldeia. Zahy também já fez trabalhos como modelo, figurações na Rede Globo – como na minissérie As brasileiras, no episódio “A selvagem de Santarém” ao lado da atriz Suyanne Moreira – e seis meses de aulas no Tablado. Guida Vianna, professora no curso de interpretação, conta que viu em Zahy um grande potencial para as artes. “É uma pessoa muito interessante e sensível. Guardei imagens muito belas dela na aula”, diz. Zahy comenta que adorou a experiência. “Mas não sei se é isso que eu quero”, resume.

Ela conta também que já foi convidada por uma agência de modelos a fazer uma lipo na região do abdome, dar um trato no cabelo e na pele, com a promessa de ganhar muito dinheiro. Recusou. “Eu quero é lutar pelo meu povo e ter uma vida simples. Não quero ficar rica, quero ficar conhecida para ter poder de decisão”, solta. Ela nem sequer tem espelho em casa. “Viver na ocupação não é fácil, mas a gente se vira. Já teve época em que a aldeia ficou toda alagada. Meus primos choravam e eu incentivava todo mundo a seguir em frente. Sou a mais durona”, conta. E completa: “Às vezes me dá vontade
de desistir e voltar para a casa dos meus pais, mas tenho uma força maior. Nasci para ser líder. Eu quero morrer lutando pelo meu povo. Se a polícia chegar colocando a gente pra fora, não vou sair. Podem atirar em mim”.

Filha de Elzira, a pajé mais respeitada dos guajajaras do Maranhão, Zahy – lua, em tupi-guarani – tornou-se herdeira oficial da pajelança (que só será exercida quando a mãe falecer) aos 5 anos, em um ritual sob a lua cheia. Virou uma espécie de “filha de todos” e, com o passar do tempo, foi sentindo uma vontade imensa de cuidar e lutar pelo seu povo. Elzira conta que, desde criança, Zahy falava que queria conhecer o mundo. “Ela está caçando a vontade, o desejo”, diz. Aos 8, a pequena saiu de sua aldeia pela primeira vez, para ser alfabetizada no município maranhense de Barra do Corda, para onde seu pai levou a família. Lá, Zahy conviveu com as irmãs, brancas, fruto da primeira união do pai. Aos 17, trabalhou na Funai, como agente de saúde e auxiliar administrativa. Quando fez 18, ganhou o aval do pai para perder a virgindade – mais tarde do que a média de 11, 12 anos das outras índias da tribo – e resolveu procurar uma cidade do tamanho de seus desejos.

 

“Um índio de verdade pode morar na cidade, ter qualquer profissão e ser bem-sucedido que nunca vai deixar de ser índio”

 

A convite de dois primos, embarcou rumo ao Rio de Janeiro. Chegou na rodoviária e não havia ninguém para recepcioná-la. “Achei tudo estranho. Fiquei olhando admirada e curtindo porque eram coisas novas. Não senti medo. Sou mais macho que muito homem”, afirma.

Bicho do mato
Zahy conheceu a noite da Lapa e achou incrível a diversidade de tipos físicos – e a quantidade de gente que queria namorá-la. Mergulhou no mar pela primeira vez, mas não gostou do sal em contato com seus olhos abertos, nem da força das ondas. Viu o que era o tão falado metrô. Caiu diversas vezes na escada rolante e foi mangada pelos primos experientes. Aprendeu com eles a usar a internet e entrou no Facebook. Foi lá que, há cinco meses, conheceu seu namorado, o fotógrafo Diego Seguro, carioca da Tijuca, e levou o rapaz para morar na aldeia.

Para ela, viver na cidade não implica abandonar sua essência. “Muitos se perdem e renegam suas origens. Um índio de verdade pode morar na cidade, ter qualquer profissão e ser bem-sucedido que nunca vai deixar de ser índio”, defende. Segundo seu pai, Francisco do Nascimento, que a batizou como Euzilene Prexede do Nascimento Guajajara, Zahy é mestiça, “mas é índia, como a mãe dela”. Zahy concorda. Sente-se 100% índia e conta que é muito respeitada pelo seu povo. “Sei que não conquistei isso sozinha. Tem a ver com ser filha de quem sou. Mas também tem a ver com como eu soube lidar com isso”, diz ela, que tem a mãe como referência. “Ela nunca penteou o cabelo, não escova os dentes, nunca usou sandália nem sutiã. Tem gente que conquista o respeito através do dinheiro, do poder. Ela conquistou através da simplicidade. Salvou muita vida, ajudou muita gente”, conta ela. E revela ainda que, entre os índios, não existe preconceito quando uma mulher bela e jovem assume algum tipo de liderança. “Muito pelo contrário. Para nós é o máximo.”

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