por Mariana Perroni

O corpo humano estabelece suas resoluções diariamente, e não no dia 31/12

O corpo humano estabelece suas resoluções diariamente, e não no dia 31/12

Esse ano eu não fiz nenhuma resolução de ano novo. E fiz questão de escrever esse texto quando a chuva de escritos repetitivos sobre o tema já tivesse acabado. Porque, depois de tudo que eu passei em 2013, cheguei à conclusão de que eu não sou tão esperta e perpicaz quanto eu imaginava. Passar horas de plantão em uma UTI com mais de dez vidas sob minha responsabilidade é cafézinho em comparação a gerenciar minha vida pessoal. 

Acho engraçado como pagamos de seres racionais supremos e nos orgulhamos por ser o topo da cadeia dos seres vivos porque achamos que fazemos uso da razão. Será? Na verdade, eu acho que quem realmente sabe usar a razão é nosso organismo. Essa máquina que carregamos de um lado para o outro diariamente lida muito melhor (e mais rápido) com problemas e situações inesperadas da vida do que nossa mente.  

O corpo humano estabelece suas resoluções diariamente, e não no dia 31/12. De uma forma bem simples, o modus operandi é assim: "Tá tudo funcionando legal? Ótimo, mantenhamos. Tem algo errado? Tenta consertar. Não deu? Corta. Logo e antes que dê problema.". Isso tudo feito por meio de uma série mecanismos bioquímicos que existem para lidar com coisas que sabidamente fazem mal ou têm o potencial de se tornarem extremamente danosas para ele no futuro. Alguns exemplos:
 
- No nível microscópico, cada célula tem uma sequência em sua programação genética que faz com que, na presença de um defeito de funcionamento impossível de reparo, ela aborte a missão. Algo do tipo "Esta célula se auto-destruirá em 10 segundos". O nome disso é morte celular programada (aliás, a origem do câncer está ligada a uma falha nesse mecanismo).
 
- Num nível um pouco menos microscópico, numa gestação de até três meses que tenha potencial de gerar  danos para o organismo da mãe ou um ser vivo incapaz de sobreviver, um aborto espontâneo ocorre nos primeiros três meses
 
- E numa esfera nada microscópica, se vc ingere algo que seu organismo não sabe processar  e ainda tem o potencial de fazer mal (como álcool em excesso ou alguma comida estragada), ele simplesmente te faz vomitar. 
 
Então, em 2014, eu não vou aprender uma língua nova, não vou fazer ginástica TODO dia, nem me matricular na dança de salão. Vou me contentar apenas em prestar mais atenção nas lições que o organismo me fornece diariamente e aprender a ser mais como ele. Parar de querer consertar tudo e aprender que não há nada errado em desistir, abortar ou vomitar na hora certa. Especialmente nos relacionamentos, amizades e vínculos falidos. Antes que quem acabe se auto-destruindo seja eu mesma. 
 
Desejo a vocês um bom 2014, com uma generosa dose de albendazol para acabar com os parasitas da nossa felicidade.
 
**Mariana Perroni é médica clínica e intensivista. Atua em consultório e UTIs de São Paulo/SP**

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