por Chris Campos
Tpm #131

Tpm quis saber de Bruna Lombardi e Chris Campos o que é, afinal, ser prendada

De gerações diferentes, a atriz Bruna Lombardi – educada para se casar – e a jornalista Chris Campos – incentivada a trabalhar – trilharam caminhos opostos aos que supostamente deveriam seguir. Tpm quis saber de cada uma o que é, afinal, ser prendada


Quando era criança, todas as mulheres da família tinham habilidades hoje consideradas excepcionais. Mulheres prendadas, para usar o vocabulário moderno. Isso porque, antigamente, ninguém se gabava dos próprios dotes. Executavam-se as tarefas ditas de mulherzinha com a naturalidade de quem, hoje, passa uma camada de extrabrilho sobre as unhas antes de ir para o trabalho.

A palavra prendada ninguém mencionava. Mas reconhecíamos as qualidades de uma e de outra em um campeonato silencioso. A avó Luiza – que costurava e cozinhava divinamente – adorava elogios, mas não dividia a receita do bife. Já a vó Lourdes fazia crochê, cozinhava horrores e tinha a despensa mais organizada do Brasil.

Porcelanas e tricô

Entre as tias, era difícil decidir qual era a mais dada às atividades manuais executadas com primor. Três pintavam porcelana; duas tinham letra de professora e, por conta disso, não foram poucas as vezes em que roubei seus caderninhos de receitas para treinar caligrafia. Todas eram Nigellas antes de a própria nascer e faziam, juntas, mais pontos de tricô do que os exibidos em todas as edições da Martha Stewart. Vez ou outra competiam discretamente, só para ver quem fazia o ponto mais complexo do fim de semana ou a melhor sobremesa do Natal.

Já minha mãe nasceu para ser artista. Até hoje acho que seria felicíssima sobre o palco. Dona Myrna virou prendada na marra. Quando casou, levou debaixo do braço anotações que fariam Jamie Oliver tombar de desgosto. A primeira delas: “como fazer um bife”, muito provavelmente errada, já que minha avó não liberava os segredos do tempero matador.

Do estágio zero prendada, passou a profissional. Em pouco tempo conhecia todos os truques: de engomar lençóis a tingir cortinas com chá. Tomou as tarefas um pouco como arte, um pouco como ofício. Mas seu espírito livre a impedia de assumir esse lado com o orgulho das cunhadas. Sempre preferiu o papel de Myrna polêmica, a que “causa” com cabelos de todas as cores, a que se rebela contra injustiças, a que assiste a desenho animado com os filhos e chora de rir com o Frajola até hoje.

Um dia ela inventou que o forno de casa não funcionava. Nenhum bolo jamais cresceria ali. Todos sairiam solados, feios, branquelos como pudins de pão ou tostados além da conta, como algumas de suas inúmeras tentativas. Praticamente uma praga doméstica. Eu, que assava bolinhos desde os 2 anos, tomei a questão como defesa de honra da casa. Aos 10, provei que daquele forno sairia bolo bom, sim. E nunca mais parei. Acho que, no final das contas, saí um pouco artista, como minha mãe, um pouco diva do lar, como minhas avós.

Ser prendada, atualmente, é uma questão de escolha. Fiz a minha com orgulho. O lado pink da força me fez enxergar no universo doméstico o foco do meu trabalho. Se eu acho que todas as mulheres devem ser prendadas? Claro que não! O mundo seria um grande (e chato) seriado americano dos anos 50. É justamente nas diferenças que mora toda a graça dos dias de hoje.

*Chris Campos, 41 anos, foi diretora de redação da Tpm de 2002 a 2003, é dona do blog casa da chris e autora do recém-lançado Como ninguém pensou nisso antes? – 25 temas com boas ideias para sua casa, ed. marca alpha, R$ 66

Logo de cara vou confessar um defeito: sou muito impaciente. Já fui pior. Já fui muuuuito impaciente. Hoje sou uma pessoa zen vivendo um ritmo frenético, cercada por projetos loucos, gente alucinada, espremendo horários dentro de uma agenda insana. Em resumo: uma pessoa zen dentro de uma centrífuga.

O problema de gente impaciente é que é um grande desafio realizar trabalhos manuais como bordar, cortar um tecido reto, fazer origami, uma colcha de retalhos, enfeitar delicadamente um bolo e assim por diante. E aí você fica com aquela sensação de não ter jeito para isso.

Fui tudo, menos uma garota prendada. Crochê? Tô fora! Aulas de trabalhos manuais? Ia ao cinema. Lia um monte de livro, escrevia, tirava fotografias, até desenhar conseguia, mas era meu limite. Uma vez, nas férias, fui com amigos para Ubatuba. A geladeira cheia de mantimentos… para serem feitos. Eu não sabia fritar um ovo. Por alguma razão, minhas amigas tinham uma infinita esperança de que eu pudesse salvar todos de morrer de inanição. Mesmo sabendo que eu não sabia nada, elas contavam comigo.

A cozinha e eu

Depois de passar a manhã surfando e depois que os pacotinhos de biscoitos terminaram, todos me olharam com ar de desolação, como se esperassem algum sinal de liderança. Eu não tinha a mínima ideia do que fazer. Mas, por isso tudo e mais a fome, tive que arriscar. Entrei na cozinha como quem entra num laboratório em Marte. Abri os alimentos como quem precisa detectar qualquer sinal de contaminação. Pedi ajuda, todos pareciam prestativos, dispostos, mas depois de três minutos houve total dispersão.

De repente, vi que precisava me jogar no desconhecido sem medo, naquela certeza de que quando a gente se atira no abismo as asas aparecem. Sem saber cozinhar arroz, resolvi transformar um pobre peixe congelado em alguma coisa que a gente pudesse comer com batata, couve e cebola. A única coisa que sabia é que precisava descongelar.

Tudo o que aprendi foi com esforço e em função da minha impaciência. Fui obrigada a passar por infinitos treinos de paciência. Hoje sei o que a paciência significa. Se o peixe ficou bom? Não sei. A fome era tamanha que deixou a impressão de ter sido um sucesso. E com esse incentivo fui me especializando em molhos. Hoje faço com facilidade. Trabalho na paciência amorosamente. Vou de iquebanas a jardins zen. Aprendi a olhar demoradamente para o céu, a contemplar o jardim e a prestar atenção nas pessoas. Plantei árvores e as vejo crescer com felicidade. Arrumo gavetas perfumadas, separo minhas roupas pelas cores.

E por uma dessas ironias do destino escolhi fazer uma das coisas mais difíceis do mundo: escrever roteiros de cinema. Ofício que exige, por sua natureza cheia de complexidades, uma infinita paciência, em que uma pequena mudança pode desmanchar toda a trama e implica começar tudo de novo, como uma Penélope moderna. Me tornei, com muita dificuldade, uma mulher prendada.

Escrevi num livro meu que o caos é a ordem espontânea da natureza. Para criar a gente precisa dar ordem ao caos, uma ordem particular, essa é a criação. O tempo é o melhor mestre que existe.

*Bruna Lombardi, 60 anos, é atriz, escritora, poeta, apresentadora e roteirista de cinema. Atualmente está filmando Amor em sampa

 

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