Que Pedrinho Fonseca é bom com as palavras, e melhor ainda quando as reúne com imagens, a gente já sabe. Lembra dele da Loja de Histórias? Por lá, o escritor pede fotos preciosas de leitores e entrega de volta textos especialmente feitos pra elas. Depois do sucesso de seu primeiro projeto na internet, ele apresenta um novo, no qual celebra seus filhos através de imagens deles e cartas “babonas” escritas por ele.
Do seu pai é nome da criação, que tem a vontade de agraciar e responder apenas a João e Irene. A ideia é criar uma espécie de livro infantil que os dois possam ter acesso quando adultos, “O livro, este blog. As histórias aqui, reais. E os infantis são meus filhos”, explica o escritor. Por isso, o diário virtual vai sendo construído como uma linha do tempo, trazendo momentos do crescimento das crianças, sempre narrados pelo seu pai. Nas palavras do autor: “Esse aqui é um blog de pai para filhos. Com todo o amor que tenho dentro e fora de mim”.
Aqui, um texto inédito de Pedrinho, especialmente escrito pra Tpm:
“Espero que coisas prováveis prevaleçam. Que eu viva muito – e meus filhos mais ainda. Portanto, espero também que eles se despeçam de mim – e não eu, deles. Nessas esperas e esperanças, eu alimento os dias com o que há de mais clichê, como acordar ao lado de João e Irene, poder passar cada vez mais tempo na vida deles, que já não é a minha, mesmo eles ainda sendo dependentes de mim. Acompanhá-los na caminhada, mesmo que ainda nem saibam andar (Irene nem desconfia e João já corre, mas tão desengonçado quanto um pato em fuga descendo uma ladeira). Suas comidas, suas dores, seus olhares, suas vontades, suas decepções, suas conquistas. Tudo isso faz parte dessa história clichê que quero ter e escrever, deixar registrado no blog. E se um dia eles lerem, um dia como este, só que na vida deles (e não na minha), que eles tenham a certeza de que a melhor história que eu pude escrever contava algo sobre um pai que descobriu, nos filhos, a si próprio.”
"Irene, quando você olha para mim, assim, tenho certeza de que nada me falta. Do seu pai, Pedro" / Créditos: Arquivo pessoal Pedrinho Fonseca
"João, você é engraçado. Do nada, hoje, enquanto eu trabalhava, aproximou-se lentamente e, de súbito, gritou: " vou atacar você, enimigo". Sim, você diz "enimigo" e não "inimigo". Tento corrigir, sei que você sabe qual o jeito certo de dizer a palavra – mas no ímpeto de me atacar enquanto estou desprevenido, sai "enimigo" mesmo, porque a essa altura o que importa é você me derrotar. A gente luta muito. São lutas duras, com muita técnica, somos exímios espadachins (com o detalhe que você também é bom no sabre e no florete, e não apenas na espada dos Thundercats). Hoje, durante a luta, você me ameaçøu de diversas formas. – Pai, eu vou arrebentar você. – Pai, chegou a sua vez. – Pai, vou soltar um pum na sua mão. Aí foi demais, filho. Peguei o sabre de luz azul que você deixou cair e parti para cima, usando a técnica mundialmente difundida pelos Jedi"s. Você não teve chance. E ao final da batalha, com os pés em cima do seu peito, você ali, derrotado, caído, no chão, eu disse: – João, I"m your father. Adoro nossas batalhas, filho. Do seu pai, Pedro." / Créditos: Arquivo pessoal Pedrinho Fonseca
Créditos: Arquivo pessoal Pedrinho Fonseca
"Irene, ainda vou repetir isso muitas vezes. Sim, seu pai repete as coisas. Repete coisas. Repete tudo. Repete. Vê? Usa a desculpa de ser estilo literário. Um dia você vai rir disso. Enfim, voltando ao assunto que ainda vou repetir muitas vezes. É bom dizer logo, a primeiríssima vez, e registrar aqui nesse nosso bate-papo unilateral (por enquanto, eu sei, porque você vai falar logo, logo). Estudiosos se digladiam quando esse assunto surge. Uns dizem que sim, outros dizem que não, alguns citam psicanalistas (desconfie), outros falam de termos técnicos como REM – um dia, escute uma banda com esse nome; velharia, eu sei, mas escute. O fato é que a maneira de acordar diz muito sobre o caráter da pessoa. Amanhã você completa 6 meses e eu posso te garantir. Em cada um dos seus dias de vida, você acordou sempre assim, sorrindo. Todos os dias. Todos. Eu disse todos. Eu sei, estou repetindo – mas não por estilo ou insistência. Mas por se tratar de um recado importante. Acordar sorrindo, sim, filha, comprova o bom caratismo, o bom pracismo e, principalmente, o estado de espírito real da gente. Amanhã você irá acordar assim, do mesmo jeitinho. E eu vou te encher de beijos, como sempre faço. Repetidamente. Do seu pai, Pedro." / Créditos: Arquivo pessoal Pedrinho Fonseca
"João, ontem você fez a coisa mais importante da semana –acho– bem ali, embaixo de um carro. A gente jogava bola –estou tentando fazer você gostar de futebol, mas sem espaços urbanos apropriados, como na minha época: ruas de barro, terrenos baldios e garagens de prédio vazias, está difícil. Assim, jogamos bem ali no quintal frontal do casal mais amado da paróquia, Juca e Pio. Você, Tomé, Dodó e eu, ali, jogando, brincando, uma alegria. Eis que a bola correu sem controle depois de um pontapé meio canelado da nossa lateral direita mais linda da zona oeste, Dodó. E a bola saiu em disparada até esconder-se, presa entre o chão de concreto e o fundo de metal do carro de Pio, distante de nós. Fiquei olhando sem me dar conta do que estava prestes a presenciar. Você agachou, olhou onde estava a bola e veio o lance mágico do dia, filho. Você deitou no chão, esticou a perna, criando uma alavanca, tirou a bola com classe e voltamos a jogar. A vida resume-se a isso, filho. Quando algo prende a bola, a gente precisa correr atrás, usar as alavancas, devolvê-la para o jogo rapidamente e continuar como se nada tivesse acontecido. Será assim nos seus relacionamentos, nos seus trabalhos, com os seus amigos, com a gente, sua família. Bola sempre para a frente. – Toca, toca, estou livre aqui na esquerda. Do seu pai, Pedro" / Créditos: Arquivo pessoal Pedrinho Fonseca