por Luiz Alberto Mendes
Tpm #149

Acompanhamos as primeiras horas de liberdade da ex-detenta Graciana

Graciana está livre. Não é a primeira vez que deixa a carceragem, mas espera que seja a última. O escritor e ex-detento Luiz Alberto Mendes acompanha as primeiras horas de liberdade e segue com ela até sua casa. Um recomeço, de novo. 

Ontem, voltei à cadeia. Ou, melhor, passei a tarde do lado de fora da Penitenciária Feminina do Butantã, em São Paulo. Como o tema que atravessa a Trip deste mês é “recomeço”, recebi a missão de acompanhar o primeiro dia de liberdade de alguém que sairia da prisão e teria, necessariamente, que recomeçar sua vida. Comigo estavam o fotógrafo Caio e uma repórter da revista, Natacha. Cinco mulheres deixariam a prisão no dia em que estivemos por lá. Uma delas era Graciana.

Chegamos às 13h30 e esperamos por mais de 3 horas. Não fazíamos ideia de quem iríamos encontrar. Estávamos ansiosos, curiosos. Olhávamos para os lados, para o relógio, as pessoas que passavam nos observavam. De repente, ela foi saindo, esbaforida, apressada. Passou direto por nós, de tão nervosa que estava. Num salto, parece que se lembrou (a diretora da penitenciária havia conversado com ela, perguntado se poderia nos atender). Parou e nos procurou com os olhos.

Era uma senhora de 53 anos, forte, avermelhada, esbanjando saúde. Precisávamos fotografá-la saindo pelos portões, fazia parte de nosso plano de ação. Mas a mulher estava com pressa, muita pressa. Instantaneamente, voltei dez anos no tempo, quando também saí da prisão, depois de mais de 30 anos de cárcere. Na época, uma equipe da Trip foi me buscar na rodoviária de São Paulo, para me levar para casa.

Estava impactado, observando-a e imaginando o que se passava em sua mente e em seu coração. Graciana instalou-se entre mim e Natacha, no banco de trás do carro. Eu a olhava e me reconhecia em sua figura; pensava no que ela sentia e sabia que aquilo era impossível de ser explicitado em palavras. Estava tão engolfado pelas emoções que não conseguia sequer falar.

Voz verdadeira

Graciana é paulistana, como eu. Disse ser filha de um caso do pai, um imigrante italiano, com uma prostituta do interior paulista. A história que nos contou foi de que havia sido presa suspeita de ter roubado objetos em uma loja. Dizia-se inocente: seu companheiro havia roubado um tênis e colocado em sua bolsa. Respondeu rapidamente ao processo, sendo absolvida e solta. Já havia passado alguns meses e para ela estava tudo muito normal. Estava até trabalhando em um projeto de limpeza da prefeitura da cidade – varria as calçadas do centro antigo, próximo à região da Luz. Disse ter dois filhos, um de 22, outro de 12. O mais novo era “o centro e o motivo de sua vida”, a força que carecia para recomeçar aqui fora. O de 22 anos era seu orgulho; campeão sul-americano de muay thai e, segundo ela, “tudo de bom”. Seu filho mais novo estava em um abrigo. O padrasto saíra para roubar levando o menino e acabaram presos. Ele foi libertado, e o menino, por conta da ausência da mãe, ficou no tal abrigo (muito provavelmente a Fundação Casa, para crianças dessa idade). Sua documentação havia sumido, segundo ela. Então, no dia 29 de maio de 2014, foi ao Poupatempo retirar uma nova documentação. Pensava que trabalhando e estando documentada seria possível buscar seu filho no tal abrigo do Estado. Foi quando tudo veio abaixo: recebeu voz de prisão novamente.

Disse que não imaginava a razão, já que fora inocentada. Discutiu com o policial civil que prestava serviço naquele setor, mas não adiantou. O fato é que o promotor havia apelado da sentença do juiz que a inocentara. E conseguiu que ela fosse condenada a um ano e quatro meses. No momento em que a encontramos, havia acabado de cumprir seis meses de pena. Estava saindo para tirar os dez meses restantes em regime condicional pelo bom comportamento que manteve no tempo de prisão.

 

Eu a olhava e me reconhecia em sua figura; pensava no que ela sentia e sabia que aquilo era impossível de ser explicado em palavras

 

Eu a observava falando. No ar, captei algo de errado naquela história, principalmente em sua afirmação de inocência. Ela possuía tatuagens antigas nas mãos. Eu sabia reconhecer aquilo. É uma espécie de código, uma linguagem da cadeia – os detalhes sempre revelam inverdades, basta observá-los bem. Decidi intervir. Contei a ela que havia passado boa parte da minha vida preso, e que não estávamos ali para prejudicá-la. Foi então que ela relaxou, e sua verdadeira voz veio à tona.

Estava vivendo a “vida louca”, de roubos e drogas, desde os 15 anos, quando se casou com o seu primeiro marido – segundo ela, traficante. Já usara todo tipo de droga, participara de múltiplas ações condenáveis e estivera presa várias vezes – conta que são mais de 40 boletins de ocorrência contra ela. Fora processada em diversas situações e cumpriu longos anos de prisão anterior àquela de que estava saindo (a maior pena que cumpriu foi de sete anos, por roubo e tráfico). O que a indignava é que dessa vez era realmente inocente. O companheiro dela também havia sido preso e condenado. Mas, como réu primário, recebeu pena de ação comunitária e ela, pela reincidência, a pena de prisão. Na prisão, observou situações daquele tipo. Pessoas que haviam infringido a lei a vida toda e que, de repente, eram presas exatamente por crimes que não cometeram. Falava com rancor do companheiro que não a visitara e a deixara sem notícias de seus filhos. Fazia seis meses que não tinha nenhuma informação de seu povo nem tinha ideia do que iria encontrar em casa.

De repente algo brilhou em seus olhos. Começou a falar dos filhos com o maior carinho. O sorriso iluminava seu rosto cheio. Estava louca para escutar a voz deles. O número do telefone de um deles estava no celular que ficou em sua bolsa, guardada no Poupatempo do bairro da Luz, local onde foi presa. Sentimos sua angústia de mãe e decidimos ir até o local e tentar resgatar sua bolsa.
O trânsito estava horrível. A cidade, parada. Perguntamos algumas vezes se ela gostaria de comer ou beber algo – “Coca normal. É o meu único vício hoje”, disse. Quando chegamos, os funcionários do Poupatempo foram cordiais, facilitaram, e logo ela estava em posse da bolsa e de seu celular, onde, segundo ela, estava o número do telefone de seu filho.

“Cadeia é longa, mas não é perpétua”

Especulei um pouco com o policial civil do setor, que era o mesmo que lhe dera voz de prisão. Ele disse que cerca de 10% das pessoas que tiram documentação naquele Poupatempo têm problemas com a Justiça. Sua função era dar-lhes voz de prisão e levá-las para a Divisão de Capturas do Deic. A maioria era por questões relativas ao não pagamento de pensão alimentícia. O homem foi bastante educado e prestativo. Graciana afirmou gostar dele, pois a havia tratado com respeito na ocasião de sua prisão. O policial chegou até a telefonar para seu filho para avisá-lo.

O aparelho celular da nossa entrevistada estava descarregado e não havia como carregar por ali. Emprestei-lhe o meu. Trocamos os chips, mas não conseguimos ligar para o número que ela nos deu. A única solução seria ir direto para sua casa. Novamente pegamos o caminho de Pirituba.

 

Trabalhar é uma espécie de liberdade na prisão. Quem trabalha sai da "tranca"

 

Enquanto isso, Graciana foi falando, falando, contando episódios de sua vida, numa ordem cronológica confusa. Falou dos quatro filhos que havia perdido ainda recém-nascidos, de sua vida de roubos, drogas, prisões, muito sofrimento e inúmeros recomeços. Passamos pela tristemente famosa Cracolândia, e ela conhecia todo mundo por ali. Era querida por todos; as pessoas a cumprimentavam, sorrindo. Natacha, a jovem repórter que nos acompanhava, perguntou sobre como era dentro da prisão. Ela trabalhava internamente. Trabalhar é uma espécie de liberdade na prisão. Quem trabalha sai da “tranca”. Quem não trabalha tem os limites do “quarto” e do pátio de recreação como espaço de vivência. Dizia que a convivência na prisão era o “ó do borogodó”, o que significava o pior possível. Mas tinha escola de ensino fundamental e médio, biblioteca com livros de fácil acesso. Falou muito bem de um projeto levado por uma mulher chamada Patrícia, que promovia saraus poéticos toda sexta-feira. Ao final dessa conversa ela fez uma afirmativa: “Cadeia é longa, mas não é perpétua”.

Uma compaixão imensa

E agora, como ia ser, o que ela ia fazer? Estávamos ali para saber como seria aquele seu novo recomeço. No Poupatempo já nos deu provas de seus interesses. Aproveitou a oportunidade, por iniciativa própria, e deu entrada a um novo pedido de carteira de identidade. A primeira providência seria voltar ao lugar no dia seguinte e retirar seu documento. Reassumiria o seu antigo emprego, onde trabalhava antes de ser presa. Perguntei se seria assim fácil, ela afirmou que sim, era só “correr atrás”; e ela me pareceu muito disposta. Depois seguiria para o abrigo onde estava seu filho mais novo para resgatá-lo e trazê-lo de volta para casa. Seu filho mais velho estava em Santos na casa de amigos, já trabalhava e tinha vida própria.

Faltavam-lhe muitos dentes da frente; seu rosto era cheio; os olhos, muito sofridos. Embora estivesse com duas sacolas de roupas e seus pertences, a roupa que vestia era típica de uniforme de prisão semiaberta: calça jeans e camiseta branca lisa. Não estava muito diferente das pessoas de poucas posses. Conhecia roupas de marca e shoppings de luxo. Gostava de motos de altas cilindradas e se mostrou fascinada por grifes. Naqueles seis meses presa, não saiu nenhuma vez e não recebeu nenhuma visita de fora. A televisão do pátio de recreações era sua professora de consumismo.

Ela conversava bem, usava gírias e códigos de prisão – que eu precisava traduzir para a equipe. Facilmente vai se misturar às pessoas aqui fora, pensei. Mostrou os pulsos cortados e costurados, afirmando que fora uma tentativa de suicídio, quando não estava mais aguentando a vida que levava. Confessou crimes mirabolantes, espertezas incríveis e tentou passar uma imagem de que já havia sido uma ladra muito inteligente e esperta. A jovem repórter percebeu contradições e perguntou sobre datas. Muita coisa não parecia bater com as histórias que nos contava. Percebi que ela tentava parecer que havia sido
alguém importante no mundo do crime. Conheço a necessidade de fazer o automarketing na prisão, e ela, embora solta, ainda tinha a alma de presa. “Aquilo é o inferno”, disse.

Pensei que seria difícil ela conseguir um emprego decente por conta do passado, pelas tatuagens impossíveis de esconder e aquela boca sem dentes. Uma compaixão imensa me invadiu de súbito. Pensei que suas chances talvez fossem pequenas. Não sabíamos se era verdade a história do antigo emprego; dizia ser gari de ruas pela prefeitura, mas algumas informações não batiam. Ela e eu sabíamos: se quisesse permanecer fora da prisão, tinha, necessariamente, que trabalhar e ser registrada. Estava em liberdade condicional, o que obrigava a levar a carteirinha (que recebera ao sair) todo mês ao fórum para que fosse carimbada e assinada. E por lá exigiriam que ela trabalhasse, caso contrário o benefício jurídico poderia ser revogado. Ainda faltavam dez meses de prisão a serem cumpridos. Alguma coisa me doía naquela história toda. Não sei a razão, algo me dizia que aquele seria um difícil recomeço, sentia que as possibilidades eram diminutas. Mas ao mesmo tempo, olhando sua disposição e energia, conseguia enxergar uma luz no fim do túnel.

Volta ao lar

Finalmente chegamos à sua casa depois de longa viagem. Era além de Pirituba, já em Taipas. Entramos por uma viela e fomos andando – ela ficou entusiasmada por conta de uma série de aparelhos de ginástica que foram instalados pela prefeitura ao lado do caminho para sua casa.

Saímos da viela e nos aprofundamos por um corredor estreito, ladeado por um riacho sujo e casinhas mal construídas. Demorou até chegarmos a sua casa. No caminho, ela foi sendo reconhecida por vizinhos que a cumprimentavam sorridentes. Ela parecia querida naquele lugar também, os sorrisos eram verdadeiros, contentes. Seu sobrinho a recebeu com abraços e chamando-a de mãe. O rapaz estava visivelmente alcoolizado, era de uma cor cinza, magro, seco, andando feito um autômato. Adentramos a sua casa com ela à frente, um cão latia forte para nós – segundo eles, não mordia. Fiquei de olho nele.

Em sua casa ninguém a esperava, chegamos de surpresa. Um senhor com uma barriga enorme – parecendo o Seu Boneco, da Escolinha do professor Raimundo – levantou-se da cama e veio, entre surpreso e sorridente, até nós. Segundo o sobrinho, ele estava descansando, acabara de chegar do trabalho. Era o companheiro de Graciana, aquele que, segundo ela, havia deixado coisas roubadas em sua bolsa.

Ela chegou brava, cheia de valentia, encarou-o, gritando. Disse que estava havia seis meses sem ver o filho. Saímos do quarto prevendo uma briga física, pedimos para que ela discutisse aquilo depois que fôssemos embora. Nesse momento, diante de toda aquela indignação, entendi que sua história talvez fosse mesmo verdadeira. O homem havia colocado coisas roubadas em sua bolsa. Vanderlei, o companheiro, permaneceu passivo, todo o tempo.

Mostrou-se preocupado em saber quem éramos. Disse que tinha a impressão de que conhecia o nosso fotógrafo, Caio, de algum lugar. Algumas pessoas amigas dela foram chegando. Rolou uma pinga, dei até um gole para não destoar, e ficamos ali, rindo, conversando trivialidades.

 

Ela era profundamente densa e real. Numa palavra: consistente. Um retrato vivo do que é um ser humano com falhas, defeitos, virtudes, ansiedades, esperanças

 

Já estava escurecendo e tínhamos que voltar. Nos despedimos calorosamente. Em poucas hora de convívio nos afeiçoamos à Graciana. Sua vivência era comovente. Depois que vencemos suas desconfianças ela se tornou muito agradável, curtindo seus primeiros momentos de liberdade conosco. Os abraços e beijos foram sinceros e efusivos.

No carro, viemos conversando o tempo todo. Estávamos ainda inundados da presença física de nossa entrevistada. Ao fim e ao cabo, havíamos encontrado uma pessoa esplêndida. Ela era profundamente densa e real. Numa palavra: consistente. Um retrato vivo do que é um ser humano com suas falhas, defeitos, virtudes, ansiedades, esperanças. Seu sentimento, sua paixão de mãe era muito forte. Aquele era seu solo, sua segurança; a base de seu recomeço no nosso injusto mundo social. Aquela era sua afirmação de vida, acertar ou errar eram apenas fases ou estágios de seu projeto. Sair da prisão para ela era voltar a ser gente, ou seja: um ser de liberdade, com chances de alcançar a dignidade – e atingir a responsabilidade que lhe será exigida.

Colaborou: Natacha Cortêz
Agradecimentos: Secretaria de administração penitenciária do Estado de São Paulo 
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