por Carol Ito

Cinco especialistas em cultura pop elegem ficções que abordam o futuro feminino, além de Handmaid’s Tale

A segunda temporada de Handmaid’s Tale – baseada no livro homônimo de Margareth Atwood, escrito há mais de trinta anos – estreou em 25 de abril. A obra retrata um país chamado Gilead, no qual as mulheres têm os direitos vetados e algumas são feitas prisioneiras de casais que querem gerar filhos, devido às baixas taxas de fertilidade locais. A nova temporada mostra o destino dramático das personagens que desobedeceram as leis brutais de Gilead, incluindo Offred, protagonizada por Elisabeth Moss.

Convocamos cinco especialistas para falarem de outras ficções que imaginam o futuro feminino, nem todas (ufa!) tão sombrias como Handmaid’s Tale. São elas: Ana Rüsche (escritora e autora de tese de doutorado sobre O conto de Aia), Renata Corrêa (roteirista e escritora), Gabriela Franco (editora-chefe do site Minas Nerds), Anne Quiangala e Dani Razia (integrantes do site Preta, Nerd e Burning Hell).

Ana acredita no poder da ficção para criar possibilidades de mudança. “A gente já é o sonho de nossas bisavós. Quando você imagina alguma coisa, ela já começa a existir”, reflete a escritora.

No cinema

A atriz Chalize Teron brilhou em Mad Max: Estrada da Fúria (2015) interpretando a corajosa Imperatriz Furiosa, uma guerreira que luta contra a sociedade que explora a capacidade reprodutiva das mulheres, escravizando mães para fornecerem leite e obrigando as férteis a engravidarem. “Mad Max coloca o masculino e o feminino como valores em conflito, em uma alegoria anabolizada da condição das mulheres ao longo da história ocidental”, comenta Renata.

Outra trama que mostra um futuro sombrio é Advantageus (2015), disponível na Netflix, em que mulheres passam por procedimentos estéticos surreais para não parecerem velhas ou fora dos padrões de beleza. Jacqueline Kim roteirizou e protagonizou o filme, interpretando uma mãe que luta por um futuro mais digno para a filha, apesar de estar desempregada por ser “velha” demais.

Nas séries

Para Ana, a série de ficção científica Star Trek: Discovery (2017) “ajuda a consolidar a imagem de mulheres na ciência, em lugares de comando e inteligência”. A história é protagonizada pela atriz negra Sonequa Martin-Green e pela asiática Michelle Yeoh, uma diversidade inédita na franquia Star Trek.

No Brasil, a série 3%, da Netflix, com segunda temporada prevista para 27 de abril, aborda a questão do privilégio e não discute especificamente o futuro feminino, mas imagina como seriam os direitos reprodutivos e sexuais numa sociedade distópica. As mulheres não podem ser mães quando são selecionadas entre os 3% mais aptos para viver no Maralto, uma espécie de terra prometida, onde não existe miséria, como explica Renata.

Na literatura

Imaginar um futuro sem desigualdade de gênero é um desafio complexo, mas a norte-americana, Ursula Leguin foi além. A mão esquerda da escuridão (de 1969, relançado no Brasil em 2014) retrata um mundo em que ninguém possui gênero definido e todos podem desempenhar as mesmas tarefas. “A sacada é que o livro deixa bem claro que gênero é uma construção social, como propôs Simone de Beauvoir. A própria ideia de mulher é colocada em perspectiva. Há necessidade de classificação? De segmentação?”, reflete Ana.

O romance Kindred - Laços de sangue (de 1979, lançado em português em 2017), da norte-americana Octavia Butler, dá um passo para trás para pensar o futuro. A protagonista Dana, uma mulher negra que vive na década de 1980, viaja em uma máquina do tempo até a época em que seus antepassados eram escravizados. A grande questão do livro, para Ana, é: “como fazer com que as pessoas escravizadas, principalmente mulheres, imaginem que poderia existir um futuro de liberdade?”.

Nos quadrinhos

A webcomic independente Lizzie Bordello e as piratas do espaço, de Germana Viana, publicada desde 2013, é uma aula sobre conviver com a diversidade. As protagonistas, que  possuem diferentes corpos e gêneros, vivem em uma nave e exploram o espaço, lutando contra vilões machistas e homofóbicos que aparecem pelo caminho.

Na série de gibis Y: o último homem (de 2002, lançados no Brasil em 2003), do norte-americano Brian K. Vaughan, o mundo entra na era matriarcal, depois de uma praga matar todos os homens do planeta, exceto um. Gabriela comenta que “a HQ consegue mostrar a pluralidade entre as mulheres, mesmo com um protagonista homem, com uma trama que não é maniqueísta, nem romântica, apenas diversa”.

Nos games

O enredo de ReCore (2016) se passa em um futuro pós-apocalíptico, no qual a humanidade e os robôs passam a habitar outro planeta. Mas as coisas não saem como o planejado. Joule Adams viaja até uma das colônias e tenta descobrir o que deu errado. “A protagonista é jovem e autônoma. A narrativa é focada na sua missão de descobrir o que ocorreu com sua espécie e, nesse meio tempo, não há ênfase em relacionamentos, nem sexualização”, observa Anne.

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Por fim, um game que tem acompanhado gerações: Tomb Raider (criado em 1996), no qual a arqueóloga Lara Croft luta contra zumbis em busca de artefatos valiosos. No início, a personagem era sensual. Mas isso mudou com o tempo, afirma Anne: “A partir de 2000, houve uma reinvenção. Desde o design, que passou a mostrar uma mulher mais realista, até o fato de ela não usar a o corpo como arma de sedução”. Para Dani, é “libertador” jogar com uma protagonista que não precisa ser salva por alguém”.

Créditos

Imagem principal: Divulgação

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