por Marcela Paes

Famosa como a Biba do ”Castelo Ra-Tim-Bum”, a atriz, repórter e blogueira fala sobre a vida multitarefas

Crescer nem sempre é fácil para astros mirins. Michael Jackson, Shirley Temple e Macaulay Culkin que o digam. Mas abaixo da Linha do Equador, esta sina está longe de ser uma regra. Que o diga a atriz, jornalista, blogueira e escritora Cinthya Rachel. Famosa desde os 6 anos quando protagonizou um comercial para marca de sucos Tang e participou do cultuado programa infantil Castelo Rá-Tim-Bum, Cinthya frequentou o imaginário de quem foi criança nos anos 80 e 90.

A menina prodígio cresceu e aos 31 anos continua produzindo mais que nunca, apesar de ter dificuldade de se desvencilhar da sua imagem infanto-juvenil. Mas além de não ter interrompido a carreira de atriz, a santista é repórter do quadro "Sonhos Que Não Se Compram" no programa da apresentadora Eliana no SBT, mantém o blog Pensamentos Insanos - com média de 100.000 acessos mensais - e vai lançar ainda este ano o seu primeiro livro infantil, A Menina Que Queria Mudar o Mundo.

Trabalhos na televisão, o blog, crise dos 30, racismo e outras coisas foram os assuntos conversados na entrevista da garota que, como a personagem de seu livro, também parece querer mudar o mundo.

Como e quando surgiu a ideia de ter um blog?
O blog não veio nessa onda de blogs de agora, eu tenho desde 2006. Sempre gostei muito de escrever e ler. Comecei mais com os meus textos, mas não tinha essa coisa de ser um diário. Depois eu comecei a escrever sobre beleza para outros blogs como convidada. Aí as pessoas começaram e pedir que eu escrevesse mais textos sobre o tema, porque não existem muitas blogueiras que tenham pele negra ou falem de cabelo cacheado. Hoje em dia eu mesclo, falo sobre coisas mais pessoais e sobre beleza. Quase não falo sobre trabalho! Esse é um outro lado meu.

Sobre quais assuntos você mais gosta de escrever?
As pessoas gostam muito que eu fale sobre cabelo cacheado. Elas adoram! Já eu não tenho um assunto
favorito. Gosto de fazer textos. Os assuntos acabam aparecendo, não me programo. Às vezes eu vejo
algo e fico muito indignada ou não concordo e esses são meus assuntos favoritos. Gosto muito desses
momentos de desabafo.

Mas as leitoras preferem os textos mais cabeçudos ou o que interessa mesmo é aquele truque para o batom durar?
Por incrível que pareça é igual nos dois. O mesmo número de visitas é o mesmo, mas os textos pessoais
tem mais comentários, mais repostas. Um texto meu que tem muitos comentários foi o que eu fiz sobre
essa tendência de blogs com look do dia O que está acontecendo é que algumas meninas fazem isso só
para mostrarem como usam bolsas e sapatos caros. É mais para mostrar a sola do sapato vermelha... Fiz
um post bem irônico e bem humorado sobre isso e recebi mais de 100 comentários. Foi muito retuitado, eu nem esperava.

E os tutoriais em vídeo?
Comecei há dois anos. Eu não fazia, só que as pessoas me mandavam e-mail perguntando e eu não tinha me tocado que havia essa curiosidade. Muita gente perguntava sobre o meu cabelo. Se eu tinha química, como eu fazia para deixá-lo cacheado. Só depois disso me toquei que poderia usar o blog pra esclarecer essas dúvidas. O primeiro tutorial foi sobre blush pigmentado. As pessoas gostaram muito. Faço bem curto, ninguém tem paciência para coisas longas. O vídeos já foram vistos quase 1 milhão de vezes.

Você tem uma seção no blog chamada "Larga o pincel de blush e vá ler um livro". Qual é a repercussão disso? Dá pra exercer a vaidade e ainda assim ter assunto e opinião forte?
Difícil aqui no Brasil. As pessoas têm aquela ideia de que se uma mulher é bonita, não é inteligente. Uma das minhas paixões é ler, sempre foi, No começo do blog eu falava mais de livros. Por falar muito de beleza eu acabei deixando o assunto de lado, mas voltei a escrever e percebi que o retorno é muito grande. As pessoas realmente se empolgam. Compram os livros que eu indiquei ou me mandam e-mails indicando outros. Toda semana tem uma piadinha. Largue o blush e vá ler, sai da academia e vá ler um livro... Mas é uma piada. Acho que dá para balancear os dois, mas sem dúvida leitura é mais importante do que maquiagem. Mas se maquiar não faz mal a ninguém e é bom para a autoestima. Tem gente que acha que blog de beleza é futil, mas eu recebo e-mails super legais com histórias de pessoas que estavam tristes e foram recuperando a autoestima se cuidando e etc... Tenho um pouco de medo das pessoas só verem futilidade, mas eu gosto de falar de tudo mesmo! O blog sou eu. Não é um diário, mas escrevo sobre as coisas que estão acontecendo comigo. Quando minha sobrinha nasceu, eu escrevi sobre o assunto. Se leio um livro legal, escrevo também. Não consigo só falar sobre moda, look do dia. E uma diversão pra mim. Se for obrigação, não tem mais graça.

Então você não considera o blog um trabalho?
Um pouco. Porque eu tenho banner e me traz um retorno e acho que cada vez mais vai trazer porque a
audiência tem crescido. Por isso, de certa forma é um trabalho. Mas essa afirmação é complicada.
Nesses tempos de SPFW acontece uma coisa complicadíssima. Aquela disputa blogueiras versus jornalistas de moda. Acho que existem blogueiras que realmente merecem estar ali, que fazem um trabalho legal. Outras estão ali e não são boas, só ocupam o lugar em que poderia estar uma profissional.  Mas tem boas blogueiras e boas jornalistas. Mas acho que são duas coisas diferentes. Tem blogs super bem feitos. Mas alguns perderem aquela coisa do opinativo e estão fazendo textos muito imparciais e jornalísticos para não perder o jabázinho. Quando recebo algum produto e não gosto, procuro ser educada. Pode ser que não seja bom pra mim, mas que seja ótimo para outra pessoa. Mesmo assim, não deixo de dar minha opinião.

Como foi o começo da sua carreira como atriz?

Foi em um concurso que minha irmã quis ir, eu tinha 5 para 6 anos. Resolvi participar na hora e fiquei
entre as finalistas. Ganhei um book como prêmio e logo depois fui chamada para fazer o comercial do Tang. Foi muito de repente mesmo!

Com uma carreira tão longa você já deve ter trabalhado com muitos atores. Quem foram os  mais legais com quem você contracenou?
Não posso não falar do Cássio Scapin, o Nino do Castelo Rá-Tim-Bum. Contracenei com muita gente legal, mas a equipe do Castelo se dava muito bem. A gente gravava quase todo dia do meio dia às dez. Era uma convivência intensa. Não teve uma briga! O Cássio contava muitas histórias divertidas! Além disso ele é um ótimo profissional, engraçado. Ele faz tudo muito bem. Contracenamos durante um ano e meio.

Vi uma foto sua no blog com o Jorge Amado. Como foi conhecê-lo?
Eu fiz uma novela inspirada em um texto dele, mas eu lia os livros dele! Foi muito mais legal como leitora que como atriz. Eu fico meio besta quando conheço escritores que eu gosto. A minha profissão me traz a possibilidade de conhecer muita gente interessante. Não só pessoas famosas, mas de gente com histórias diferentes, com coisas que a gente pode aprender. Minha profissão é um privilégio.

 

"As meninas [ex-artistas mirins] fazem ensaio sensual por vários motivos. Um deles é a vaidade, porque todo mundo gosta de ser ver bonito. Outra razão pode ser a questão [de tirar] a imagem de criança"

 

Como é ter fãs que cresceram com você?
99,9% das pessoas me reconhecem na rua pelo trabalho no Castelo. É como se eu não tivesse feito mais
nada na vida [risos]. Mas eu não me incomodo nenhum pouco com isso. Quando eu era criança, eu assistia ao programa Bambalalão, na TV Cultura. E uma das pessoas que faziam o Bambalalão era o seu
João Acaiabe, que contava historinhas. Eu era louca por ele. Um dia eu estava na TV Cultura gravando e
ele passou pelo corredor. Eu pirei! Chorei, desacreditei de mim mesma. Depois até acabei fazendo um
curta com ele. Por isso, eu sei que as pessoas me veem um pouco assim. Porque infância é uma coisa
muito poderosa. As pessoas se sentem minhas amigas. Até no blog as pessoas me tratam tão bem, são
super receptivas. Também por essa imagem. Mas traz uma coisa engraçada porque as pessoas até hoje
pensam que eu tenho 12 anos. Elas se espantam. Muita gente lê meu blog e só percebe que sou eu
depois de um tempo.

Muitas artistas mirins acabam fazendo ensaios sensuais quando completam 18 anos para mostrar que cresceram. Já bateu essa vontade?
Eu acho que muitas meninas fazem ensaio sensual por vários motivos. Um deles é a vaidade, porque todo mundo gosta de ser ver bonito. Outra razão pode ser a questão da imagem de criança. As pessoas me enxergam como se eu fosse uma garota de 12 anos e isso me atrapalha bastante profissionalmente, porque acabo não sendo chamada para papéis porque as pessoas pensam que eu ainda sou criança. É muito louco isso. Eu nunca recebi convite. Já fiz uma foto para a Playboy, mas eu estava completamente vestida. Minha mãe me fala sempre nunca diga nunca, mas eu não pretendo fazer. Não tem muito a ver comigo. Eu ia gargalhar horrores [risos]. Não critico quem faz, mas acho que muitas se sentem obrigadas a dar esse passo pra mostrar que cresceram. Meus amigos me perguntam quando vai ser a minha vez [risos]. É complicado! O Castelo passa até hoje.

Você tem a intenção de desvincular sua imagem do Castelo?

Eu tenho vontade que as pessoas me vejam como eu sou, mas isso é bem impossível. A partir do
momento que as pessoas tem veem na televisão, você é um personagem. Até como repórter eu sinto isso. É um desejo meio louco, de que querer que as pessoas me vejam como eu sou. É difícil. Nem minha mãe sabe exatamente quem eu sou, nem meu marido. O que eu quero é que as pessoas me vejam
como... Uma mulher adulta que é mais que uma criança que fez um programa mega importante que marcou a vida das pessoas. Acho que é isso [risos]!

A pressão por ter um papel tão marcante quanto o do Castelo é grande?

De mim mesma de modo algum! Como eu comecei muito nova, eu sou muito desencanada com isso. Um
dia você está super em alta e outro dia não. As pessoas acham que você só está na TV se você está na
novela da Globo. Como pra mim isso é trabalho e não ser capa de revista, eu não coloco esse tipo de
pressão em mim. Eu gosto muito de escrever, tenho um livro infantil que vai lançado neste ano. Eu tenho outras coisas na minha vida. Lógico que se parecer outro papel marcante vai ser ótimo. É claro que eu sei que fiz muita coisa marcante na infância, mas não me pressiono. Não fico chateada, não me incomoda.

Que legal! Esse vai ser seu primeiro livro?
Já estou terminando o terceiro, mas esse é o primeiro que vai ser lançado. Acabaram de me mandar as
ilustrações! É muito legal ver o que eu escrevi  e ver o que estava na minha cabeça no papel. O nome é A
Menina Que Queria Mudar O Mundo
.

Atualmente você está atuando?
Como atriz eu não estou na televisão aberta. Faço muito institucional, além de ser repórter no Programa da Eliana. Tenho um quadro chamado "Sonhos que não se compram". O quadro é muito bacana, me divirto muito fazendo. Não são sonhos financeiros, são sonhos diferentes. Além disso dou aula de interpretação para crianças e adolescentes.

O que você mais gosta de fazer?
Difícil... Mas televisão é um vício. Eu me realizo. Sou muito ansiosa. Como o quadro é uma surpresa, a gente tem que ficar esperando a pessoa pra começar a gravar e isso me dá uma agonia! Mas depois que a câmera é ligada e eu começo a gravar é só alegria. Escrever também! É meu vicio secreto. Eu escrevo no blog, no meu diário, no iPad [risos]. Sou muito apaixonada pela palavra escrita. Tenho muitos lados! Cada um me satisfaz de um jeito. Sou geminiana! Depende muito do dia.

 

"As pessoas acham que você só está na TV se está na novela da Globo"

 

Você tem 31 anos. Rolou a crise dos 30?
Tenho textos belíssimos no blog sobre isso [risos]! É engraçado fazer 30! Você pensa: nao é mais 30!
Rolou uma mudança mental. Estou menos Poliana e sei mais o que eu quero. Acho que com 40 vai
melhorar, com 50 vai melhorar... Tento pensar mais em mim e me importar menos com que o outro está
achando. Tô na luta!

Você é casada e já tem uma carreira estabelecida. Existe muita pressão para ter filhos?
As pessoas sempre acham que sabem o que é melhor para você. Com 15 as pessoas perguntam se você
não vai namorar, depois se vai noivar e depois se não vai casar. Eu não casei na igreja e durante um
período as pessoas me perguntavam muito sobre isso. Depois que eu já estava morando junto, todo
mundo desencanou dessa pergunta e passou para pergunta dos filhos. Não acaba nunca (risos). Sinto a
pressão e cada dia eu reajo de um jeito. Às vezes eu vejo com brincadeira e às vezes fico meio brava.
Uma vez eu fiquei tão irritada que me perguntaram e eu disse: "Nunca!". A pessoa ficou pálida [risos].

Você já sofreu racismo, mesmo que sutilmente?
Racismo existe no Brasil e ponto final. Não adianta falar que não. A abolição da escravatura é uma coisa
muito recente e vai demorar muito tempo para isso acabar. Está na cabeça das pessoas. Aqui as pessoas
vêem um negro em um carro caro e já pensam que é jogador de futebol. Já aconteceu de eu estar em
uma loja e todas as vendedoras me ignoraram. Eu fiquei tão p* da vida que peguei minha bolsa e perguntei se teria que mostrar meu cartão de crédito para ser atendida. Todas ficaram constrangidas e vieram me atender, mas depois disso eu não quis comprar nada lá. Eu fico muito indignada com qualquer injustiça, não só racismo. Não é a toa que meu livro se chama A Menina Que Queria Mudar O Mundo. Também não pode acontecer que os negros se unam e fiquem contra os brancos. Aquela coisa de que negro só pode namorar com negro e não pode alisar o cabelo. Acho que todo mundo tem que provar que é bom trabalhando, independente de cor.

E na televisão brasileira, existe preconceito?
Existe. Não só porque só chamam negras para fazer papel de empregada. A razão é que existem muitos
personagens que não importaria quem fizesse. Podia ser loira, ruiva ou uma negra. Qualquer um poderia
fazer, mas normalmente chamam aquele biotipo que está em todos os canais. Branquinha de cabelo liso, 
isso está muito enraizado.

Quais são seus próximos projetos?
Que pergunta difícil! As melhores coisas da minha vida aconteceram sem planejar. Quando eu planejo
muito não acontece. Também não gosto da palavra projetos [risos]. Todas as ex-BBBs, ex-tudo, têm projetos e não fazem nada! Dá vontade de falar: "Tem projeto nenhum, larga de ser mentirosa!" [risos]. Mas tenho algumas coisas planejadas que eu não posso contar! Esse ano continuo no SBT e pretendo ampliar o quadro. Quero mostrar um outro lado meu. Esse lado mais divertido, de beleza... Um lado mais mulher, mas não tenho nada certo. Nem promessa de ano novo eu faço! [risos]. Mas só sei que 2012 vai ser bom! Você vai ver!

Abaixo, Cinthya Rachel em três momentos de sua carreira:

Vai lá: www.cinthyarachel.com

matérias relacionadas