Cinco moças e suas portas ambulantes abrem o que há de mais interessante na capital Zagreb

Cinco moças e suas portas ambulantes abrem o que há de mais interessante em Zagreb, capital da Croácia, e fecham a jornada pelo leste europeu embevecidas pelas cores do mar Adriático

 

 

Primeira vez em Zagreb. Era dezembro. Um frio de rachar. Só me lembro de caminhar. E muito. Oito horas por dia, cinco dias, muita neve na cabeça, pés molhados, caderninho e caneta na mão. A mão sem luva ficou toda queimada e a bateria da câmera fotográfica não resistiu ao frio. O mau humor inevitável de brasileira congelada me fazia gritar por dentro: "Quero ir embora daqui! Quem disse que a Croácia é a nova Grécia?".

Voltei em maio do ano seguinte. Dessa vez, éramos cinco mulheres, cinco portas caminhantes e mais sete portas fixas a serem instaladas em pontos estratégicos da cidade. Explico. Dirijo OPOVOEMPÉ. Ana, Graziela, Manuela, Paula e eu fazemos intervenções coreográficas e instalações que dialogam com o cotidiano e a cidade. Todo o sofrimento invernal foi parte da pesquisa para fechar nossa participação no Urbanfestival, organizado pelas geniais garotas croatas Sonja e Vesna. A proposta desse festival é especial: colocar arte no espaço público e repensar a cidade. Em 2008, o tema era How We Regret, ou Como nos Arrependemos. E foi com essa questão que levamos nossas portas às ruas de Zagreb.

Confesso que, antes do início dessa história, tudo que era Croácia, Sérvia, Bósnia, Macedônia e Eslovênia se misturava na minha cabeça numa nebulosa de notícias mal lidas nos jornais e em imagens de filmes do bósnio-herzegovino Emir Kusturica. Coisa de quem terminou a escola antes da guerra que separou a Iugoslávia comunista de Tito. A Croácia, ou melhor, a Republika Hrvatska, é hoje um país que vive a transição de um passado comunista para a futura entrada na Comunidade Européia. É apaixonante de muitas maneiras diferentes. A cultura, a natureza, as cidades, as pessoas. O mais bonito é que esse povo, muito crítico e um pouco reclamão, se abre de um jeito impensável diante de um sorriso ou de uma tentativa de comunicação. E, numa intervenção na rua, onde nem se fala a mesma língua, de repente alguém coloca o coração na sua mão.

 


Vibrante e sossegada

Impiedosa no inverno, Zagreb é maravilhosa na primavera. Cheia de parques, numa simples caminhada dá pra ouvir passarinhos, deitar entre margaridinhas, respirar um ar fresco delicioso e ver muita gente na rua. A pé, de bicicleta, tomando sorvete ou bebericando nos cafés das calçadas, os croatas aproveitam. Gente alegre, os homens bonitos te olham nos olhos e te paqueram de um jeito nada agressivo. Uma vida ao mesmo tempo vibrante e sossegada, onde os muitos velhinhos têm espaço pra passear nos bondes e nos mercados.

Fomos acomodadas pelo festival em apartamentos simpáticos em prédios residenciais. Deu pra ouvir vizinha tocando piano, dar de cara com senhorinha vendendo queijo caseiro na porta de casa, conhecer a moça da padaria da esquina. Aliás, as pekarnicas estão em toda parte, vendem folheados e pães, alguns deles maravilhosamente integrais, herança dos austríacos que por ali passaram.

 


Tiros de canhão e poetas amados

Ficamos perto de Ilica, a rua mais longa da cidade, que dá na praça principal, Josipa Jelacica, a famosa "praça do cavalo". Lá, é o centro vital de Zagreb, onde tudo acontece. Dali, passando pelo mercado de Dolac, pode-se subir para Kaptol e Gornji Grad, a Cidade Alta. Foi sobre esses dois morros que Zagreb foi fundada e lá estão os prédios mais antigos, as ruazinhas mais estreitas e a famosa catedral, cuja torre pode ser vista de toda a cidade. Dizem que, no início do século, um poeta escalou o alto da torre só pra ficar lendo, apreciando a vista. Causou um dos maiores tumultos de que os antigos têm notícia. Mas não deve ter feito metade do barulho que se ouve todos os dias às seis da tarde: um tiro de canhão é disparado pontualmente desde tempos esquecidos. Atrás de Gornji Grad, fica o parque de Tuskanac, uma caminhada imperdível pela zona mais rica da cidade, com luxuosas casas antigas e muitas estátuas de poetas.

Na Croácia, como em outros países eslavos, os poetas e escritores são muito amados e dá uma peninha pensar que a gente nunca vai compreender aquela língua de sonoridade tão bonita. Croata e sérvio são a mesma língua com pouquíssimas diferenças. Mesmo assim, os croatas ligam reclamando se a televisão ousa passar algum filme com legendas sérvias. Minha amiga Janja, filha de pai croata e mãe sérvia, só utiliza o sobrenome croata e não conta a origem da mãe. Herança de uma guerra que não atingiu Zagreb e da qual não se fala mais. Os únicos a comentarem sobre ela por livre e espontânea vontade são os taxistas, mas nenhuma conversa compensa os preços caríssimos que eles cobram. Melhor ir de bonde ou a pé, já que é tudo muito perto.

Vale a pena sair do centro e atravessar o rio Sava para conhecer Novi Zagreb, área construída durante o regime comunista. Na arquitetura, fica visível o modelo de sociedade: grandes prédios residenciais, muita área de lazer e muitas escolas. No meio dos brinquedos dos jardins- de-infância, estão mais de 90 bunkers abandonados à espera de que as autoridades resolvam o que fazer com eles. Enquanto isso, bandas de rock usam o espaço para ensaios clandestinos. Vivemos 15 dias de uma vida cultural agitada. O festival, uma bienal de artes gráficas com direito a balada no museu, exposições e lançamentos todas as noites.


A nova Grécia?

Depois do fim do festival, nos separamos. Ana, Gra e Paula foram para Hvar, um paraíso na terra. Eu e Manu, contrariadas, seguimos pra outro trabalho em Portugal. Só que não resisti. Eu, que seis meses antes quis sair correndo da Croácia, voltei pra terminar minha viagem em Split, no mar Adriático. Afinal, tínhamos feito um trabalho sobre arrependimento e eu me arrependeria muito se não tivesse posto meu pezinho naquelas águas.

Se em Zagreb fica clara a influência do império austro-húngaro, as praias são absoluto sonho. Traços das passagens dos romanos e dos turcos otomanos estão por toda parte. Uma natureza fantástica com mar azul, montanhas e lindas cidadezinhas medievais como Trogir. Se você tiver a sorte de ter amigos croatas, talvez experimente vinho e azeite feitos em casa pela família.

Para mim, ficou faltando Dubrovnik, que os croatas juram ser o lugar mais lindo do país. E, de tudo isso, fica a certeza de querer voltar e explorar mais. A Croácia não é a nova Grécia. É ainda outra coisa.

 

 

DICAS

Leia Slavenka Drakulic e Dubravka Ugresic. As duas excelentes autoras contam tudo sobre a cultura croata em seus romances e ensaios. Ambas têm vários títulos publicados em inglês, dê uma olhada em www.amazon.com. Você irá aproveitar muito mais a viagem.

Consulte o Tourist Board pelo site www.zagreb-touristinfo.hr. A moeda local é a kuna: 1 euro vale 7 kunas.

COMO CHEGAR Do Brasil, é mais barato voar para Zagreb. A Lufthansa tem bons preços via Munique (o preço de uma passagem ida e volta sai cerca de R$ 2.200). Da Europa, vale investigar os preços da German Wings para Split, Zagreb ou Dubrovnik.

 

 ZAGREB

 ONDE FICAR Consulte www.inzagreb.com ou www.intacta-apartmani.hr.

Os apartamentos são bonitinhos. Dependendo do número de pessoas, é mais barato que hotel. O preço inclui cozinha, internet e faxina. Pode-se combinar translado do aeroporto.

PARA COMER Tip Top Restaurante perto do Teatro Municipal, ponto de encontro de poetas dos anos 60. Experimente o risotto nero de sépia. Prato do dia entre 50 e 80 kunas. Na Gandulicéva, 18. VInodol Pátio agradável. Massa com trufas por 40 kunas. Na Nikole Tesla entre 8 e 10. Cevapi Fast-food tradicional, herança dos turcos. Em todos os mercados.

PARA SAIR Bacchus O favorito, descolado, pátio gostoso e jazz de primeira, na Trg Kralja Tomislava, 16. www.bacchusjazzbar.net. Seven Muita gente das artes e universitários, na Kaciceva, 7.

NÃO DEIXE DE IR Tuskanac Vale a caminhada subindo a partir do Britanski Square, onde aos sábados acontece uma feirinha de antiguidades. Croatian Association of Artists Nesse prédio, que um dia foi uma sinagoga, acontecem exposições sempre bacanas, na Trg zrtava fasizma BB. Booksa Tome um chá exótico com muitos livros, super-relax, na Marticeva, 14D. Park Prirode Medvednica Passeio nas montanhas, basta seguir os sinais da trilha para chegar ao topo. Uma casa antiga serve comida típica da região. No english menu.

PRAIAS Consulte os horários dos ônibus saindo de Zagreb no: www.akz.hr/En.htm. A linha expressa leva cinco horas até Split e custa 180 kunas. No ônibus NÃO tem banheiro. A rodoviária fica em frente ao porto de onde partem ferrys pra diversas ilhas, inclusive Hvar. Os horários são restritos, vale consultar www.jadrolinija.hr. Em Split, visite o Palácio de Diocleciano. A ilha de Hvar tem duas cidades: Hvar e Stari Grad. Alugue uma bicicleta pra rodar pelas praias mais distantes. Faça topless. De Split, pode-se atravessar o Adriático até a Itália, uma viagem de dez horas com Blue Line ou Jadrolinija. O preço é o mesmo, só mudam os horários. Dá pra viajar no deck por 46 euros ou pagar por cabine e banheiro.

CLIQUE www.urbanfestival.hr - O UrbanFestival é promovido anualmente em Zagreb, desde 2001, pela [BLOK] - Local Base for Culture Refreshment. Seu objetivo é promover eventos artísticos que modifiquem espaços públicos por meio da participação dos cidadãos. www.opovoempe.blogspot.com - OPOVOEMPÉ existe desde 2004 e é dirigido por Cristiane Zuan Esteves, autora desta matéria. Com as atrizes Ana Luiza Leão, Graziela Mantoanelli, Paula Possani e Manuela Afonso, o grupo faz intervenções coreográficas e instalações que dialogam com o cotidiano e a urbanidade.

 

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