por Natacha Cortêz
Tpm #149

Adeptos de relações mais livres questionam a exclusividade afetiva e sexual

Indissolúvel, heterossexual e monogâmico. Foi sob esses três pilares que o casamento foi inventado. Mas hoje só um deles vive intocado: a exclusividade afetiva e sexual. O caráter indissolúvel e a heteronormatividade já caíram por terra, vencidos pela possibilidade do divórcio (garantido por lei desde 1977 no Brasil) e pelo reconhecimento legal das uniões homoafetivas (declarado pelo Supremo Tribunal Federal em 2011). Já a monogamia permanece como tabu social e única possibilidade para grande parte das pessoas. “Nos acostumamos a esse padrão, mas sabemos que, na prática, ele pode não funcionar, ainda mais hoje”, diz a psicanalista Maria Lucia Homem. “Essa dinâmica foi enfraquecida em nome de uma lógica mercantil que também afeta a seara dos relacionamentos. É muito difícil se satisfazer apenas com um parceiro quando as ofertas são tantas e de tamanha acessibilidade.”

Em 2012, um homem e duas mulheres que já viviam juntos há três anos oficializaram a união em um cartório em Tupã, interior de São Paulo. A relação foi legalizada por meio de uma escritura pública de União Poliafetiva. Foi o primeiro registro do tipo no país. Rodrigo da Cunha Pereira, advogado e presidente do Instituto Brasileiro de Direito de Família (IBDFAM), afirma que, embora não exista uma legislação que regulamente essa questão, o direito deve proteger mais a essência do que a forma ou a formalidade que envolve a família: “Uma relação a três pode afrontar o princípio da monogamia, mas deve ser ponderada com o princípio da dignidade humana e o da responsabilidade”. Para ele, a questão maior não é a jurídica (ou a falta dela), mas como isso é visto em nossa cultura. “Todas as questões que envolvem uma prática sexual diferente do lugar-comum costumam dar medo, e por isso as pessoas ficam tão incomodadas.”

O fato é que relações não monogâmicas – ou não exclusivas – são uma opção para os insatisfeitos com o padrão vigente. Segundo uma pesquisa publicada neste ano no periódico Journal of Social and Personal Relationships, de 4% a 5% dos norte-americanos se consideram em um relacionamento não monogâmico consensual, embora a maioria prefira esconder a escolha. “Essas outras formas de amar não significam que a família vai acabar, tampouco o casamento entre dois indivíduos. Mas é importante notar que há uma crise e que há alternativas”, afirma Maria Lucia. A psicanalista Regina Navarro Lins, autora de O livro do amor (ed. BestSeller), comenta que a tendência é justamente a de não haver mais um padrão para os relacionamentos. “Acredito que, no futuro, se uma pessoa quiser ficar para sempre casada, tudo bem. Se outra quiser morar com três parceiros, tudo bem também.”

Os números, no entanto, insinuam que as mudanças são lentas – ou silenciosas: em geral, continuamos buscando arranjos monogâmicos de longa duração. As últimas Estatísticas do Registro Civil, divulgadas em dezembro de 2013 pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que o brasileiro tem se casado mais. A taxa de nupcialidade legal (o número de casamentos para cada mil pessoas de 15 anos de idade ou mais) passou de 5,6% em 2002 para 6,9% em 2012. Só que as mesmas estatísticas também indicam que no Brasil as pessoas se divorciam mais e ficam menos tempo juntas. A taxa de divórcios foi de 2,5% em 2012, a segunda maior em dez anos. E o tempo médio de duração das uniões caiu de 17 anos, em 2007, para 15 anos, em 2012. 

O psicanalista Luiz Hanns, autor do livro A equação do casamento – O que pode (ou não) ser mudado na sua relação (ed. Paralela), acredita que o casamento como instituição assume cada vez mais o lugar de aconchego e referência afetiva em um mundo ocidental em que religião, pátria e clãs familiares estão em baixa. Contudo, ele pondera: “A busca por um porto seguro, por uma aliança que dure pela vida toda, concorre com as tentações de um universo de oportunidades de sexo, aventura, lazer e novas descobertas. Na vida real ou virtual”.

Sexo, aventura e lazer não são as principais motivações dos adeptos de relações alternativas. O que muitas dessas pessoas dizem buscar é aliar liberdade, amor e honestidade consigo e com o outro. Para elas, casamento, divórcio, traição e fidelidade são conceitos ultrapassados e aprisionantes. Mas a sociedade brasileira ainda parece longe de assumir a multiplicidade de amores ou de parceiros sexuais como algo natural. A maioria dos casais ainda lida com isso sob o conceito de traição.

A seguir, mostramos histórias de pessoas que buscam outros modelos de união conjugal. No discurso de várias delas, o desejo fora do casamento ainda aparece como um segredo sepulcral – ou fonte de problemas, desentendimentos e juras de que “agora será diferente”. Mas se o amor romântico for de fato uma construção social e cultural, como afirma Regina Navarro Lins, vivemos tempos em que a sociedade já está se encarregando de criar outras formas de experimentá-lo. Vamos a elas a seguir.

Quatro relações estáveis. Ao mesmo tempo
A publicitária gaúcha Maria Fernanda nunca engoliu relações monogâmicas. O arranjo “união heterossexual de longa duração” não faz sentido para ela, que desde a adolescência vive relações livres e não monogâmicas. “Desenvolvi uma posição política ao me relacionar afetivamente e sexualmente com o outro dessa forma. Muito cedo me incomodou esse negócio de namoro sério. Foi muito difícil me acostumar com a ideia de ter uma pessoa só e de ela me pressionar.”

Ela conta que a família sempre se incomodou com a liberdade com a qual levava as relações. “Tínhamos brigas homéricas porque eles não entendiam o fato de eu me envolver com mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Não vejo uma cobrança social da monogamia para o homem, mas se você é mulher, vão te exigir isso o tempo todo.”

Maria Fernanda hoje vive quatro relações “estáveis e boas”. Com Marcelo, com quem mora, ela está há cinco anos no que ela define como “uma convivência, e não um contrato afetivo-sexual. Ele não pode dizer com quem eu posso ou não ficar”.

Ana, que mora em São Paulo, é companheira de Maria Fernanda há dois anos. Teo também vive em São Paulo, e, apesar de morar com Aline, é o terceiro companheiro. E ainda existe Damião, que vive no Rio de Janeiro.

“Acho a monogamia de uma burrice emocional gigantesca. Você está prometendo afeto com monopólio. Não tem como dar certo. Esse tipo de contrato é uma fraude e só funciona quando você abre mão da sua personalidade.” Maria Fernanda, 28 anos, publicitária 

Traição, perdão & juras
Antônio sempre teve problemas com fidelidade em seus namoros. “Traí todas as minhas namoradas.” O casamento, ele conseguiu deixar intacto por quatro anos. Mas a primeira crise séria foi o suficiente para o que ele chama de “deslize” começar a acontecer. “Os casos que tive nunca representaram nada. Às vezes, eu só fazia por pura vaidade, ou por costume.” Quando a mulher, Camila, descobriu as “escapadas”, optou pelo silêncio e começou a colocar camisinhas na mala do marido. Durante a semana, Antônio fica em São Paulo, e ela, sempre no interior com os filhos.

O casal acabou se separando um ano depois da descoberta de Camila. Ficaram afastados por um ano inteiro. Nenhum deles deu entrada em um desquite legal. “Acho que não chegamos a conversar sobre isso porque sabíamos que voltaríamos.” A condição para a volta foi não falar mais de passado e traição. O casal recomeçou e há dois anos vive “em paz”. E Antônio jura: “Aprendi a focar em uma pessoa só e estou feliz”.

Já Camila diz que perdoar não foi “dar uma chance a ele. Foi dar uma chance a minha família e ao amor que eu sentia. Fiz por mim. Escolhi confiar e hoje faço isso de olhos fechados. Até quando? Nem eu nem ele podemos garantir. Vivemos o agora”. Antônio*, 34 anos, biólogo e Camila*, 31 anos, dona de casa

Era pra ser monogâmico

Gabriela está casada há cinco anos e antes disso namorou mais cinco. Um relacionamento estável de dez anos que, como para muitos casais, sempre teve a monogamia como premissa básica. Mas, no meio do caminho, ela quebrou o trato saindo com um colega do trabalho. “Foi uma traição, porque nosso acordo não tinha espaço para isso. Me perguntei muitas vezes por que fiz essa escolha. Levei isso pra terapia e cheguei a algumas respostas, mas é inegável: eu traí”, diz ela. Frio na barriga, uma vontade de experimentar, a aceitação de uma investida sedutora do colega, um momento em que a relação estava fragilizada em função de o companheiro viajar demais, tudo isso entra na justificativa de Gabriela. Mas a culpa aparece logo em seguida. “Essa relação durou seis meses. Na hora era bom, mas depois era tão pesado, tão perturbador. Sabia que se meu companheiro descobrisse seria nosso fim.”

Ele não descobriu. Na época, Gabriela terminou o relacionamento extraconjugal e deixou o emprego. Um tempo depois se casou com o namorado e teve dois filhos. Mas algo nela mudou. “Não vejo traição com os olhos que via antes. Precisamos respeitar nossas relações, mas precisamos respeitar também a nós mesmos. A vida não é preto no branco.”

Além de duas amigas, ninguém nunca soube dessa história e Gabriela tem certeza de que esse foi um fator fundamental. “Independentemente do acordo, o ‘não me deixe saber’ é muito importante. Sei que pode parecer estranho, mas pra mim isso é respeito ao outro e ao relacionamento.” Gabriela*, 35 anos, professora

Parece absurdo? Funciona!
Dez anos de um casamento monogâmico e Laura ouviu do marido que “eles precisavam abrir a relação – mas que nada mudaria entre eles”. Ela levou três anos para digerir o acordo. Sofreu, levou o tema pra terapia incontáveis vezes, rompeu com o marido outras tantas, até que teve paz: entendeu que sair com mais gente também era bom pra ela. Três anos se passaram em um relacionamento permeado por outras pessoas, paixões repentinas, separações e, claro, voltas.“Parece absurdo, mas na prática funcionava e era tranquilo”, diz. No meio de tudo isso, Laura foi percebendo que o que restava do casamento era uma grande amizade. “Uma relação fraternal.” Em fevereiro deste ano, se apaixonou mais uma vez – e teve a certeza de que era o momento de colocar um ponto final no casamento de 16 anos, no qual teve três filhos e construiu muita coisa. “Mas agora acabou de vez”, garante. O novo relacionamento é monogâmico. Ainda. “Não sei quanto tempo vai durar desse jeito. Aprendi que me relacionar oxigena a vida, traz novos ares. Talvez relações fechadas não sirvam mais pra mim. Mas tudo depende do acordo do casal. É preciso honestidade para falar sobre isso. Machucar as pessoas não está nos meus planos.” Laura*, 37 anos, arquiteta

Um nova ideologia
Nubia vive uma vida itinerante, não tem residência fixa. Fica um pouco em Porto Alegre, um pouco em Santa Catarina, outro tanto em São Paulo. Vai pra onde encontrar “mais amor e mais freelas”. Ela é fotógrafa e faz parte de um coletivo de artistas, o Além. O grupo faz intervenções por onde passa, sempre proclamando uma forma “alternativa de levar a existência”. Nubia e seus amigos não concordam com o capitalismo, com o binarismo de gênero e com o patriarcado. Relações monogâmicas também não passam por suas cabeças. Para ela, na monogamia depositam-se muitas expectativas em uma só pessoa, e essa é uma receita pronta para falhar.

“Todas as pessoas que eu amo são minhas amigas. Em alguns casos há sexo, em outros, não. E isso não determina nada”, diz. Nubia defende que em relações livres e não monogâmicas não é necessário perder o contato com quem já se relacionou. “Não esperamos o tesão ou o amor acabar, nem começamos a criar conflitos por isso. É tudo mais leve. Como não existe começo, também não existe término. Assim, evitamos rancor.”

Em suas relações, ela não fecha contrato de duração ou exclusividade com seus companheiros. Também não sente atração se a pessoa não pensar como ela. A relação “precisa ser livre pra ser honesta. Não sei se consigo estar com alguém que me exija monopólio”. Neste momento, ela tem meia dúzia de parceiros. Nem todos estão em São Paulo – cidade onde está agora. Ela fica com gente por onde passa, “basta ter uma conexão verdadeira”, diz. “Tive momentos mais íntimos com gente com quem saí uma vez na vida do que com outros com quem estive várias. Não existe essa regra para entrega e cumplicidade, nem hora marcada.”

Nubia Abe, 28 anos, fotógrafa


“Bagunça um pouco”
“Não estou namorando. Tenho uma relação ‘freestyle’ há seis meses. A gente se conheceu no Tinder”, conta Carolina enquanto alterna entre um gole no café expresso e uma tragada no cigarro. Ela vinha de uma paixão “doída”, da qual demorou muito para se recompor, quando encontrou Ana. “Gostei da leveza que ela trazia. Fui levando sem grandes expectativas, mas acabei me envolvendo.” Foi quando Carolina sentiu a necessidade de definir as coisas.

“Me vi questionando esse esquema de relação aberta, se era pra mim”

Acabou ouvindo o inesperado: Ana tinha outro relacionamento “meio fixo” há dois anos. “Não sou ciumenta. Acredito que as relações devem ser por amor, não por posse ou contrato social.” Sem se importar com exclusividade, Carolina continuou o modelo freestyle que levava até ser dispensada por Ana. “A justificativa dela foi a de que naquele momento amava mais a outra.” Pouco tempo depois, Ana voltou arrependida e as duas reataram. Desta vez, foi Carolina quem se apaixonou por outra garota. “Me vi questionando esse esquema de relação aberta, se era pra mim, se eu queria que minha nova relação fosse assim.” Ela hoje acha que “ter uma porta sempre aberta” bagunça um pouco a vida. “A impressão é de que você está sempre buscando algo. Então me pergunto: qual é o limite de querer tudo? Querer uma coisa mais livre e solta também é uma dificuldade de fazer escolhas.” Carolina*, 27 anos, jornalista

*ESSES PERSONAGENS PREFERIRAM NÃO SE IDENTIFICAR

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